CONSCIÊNCIA NEGRA, A LUTA CONTINUA


2. A COR DA CULTURA BRASILEIRA

Joel Rufino dos Santos (1941-2015)

Como já dissemos em outras situações, mas sempre é bom lembrar, aproveitamos este Dia da Cultura, no mês da Consciência Negra para, em memória do inesquecível mestre Joel Rufino dos Santos, reafirmar o seguinte:

Ao longo da História do Brasil, o surgimento e o desenvolvimento de grandes nomes oriundos do povo negro foi, primeiro, dificultado pela escravidão, que negava a plena cidadania até mesmo aos pretos e pardos livres ou libertos, ou seja, aos negros em geral. Depois, com uma abolição desacompanhada de políticas educacionais e agrárias que possibilitassem ascensão social a esse segmento, seguida de uma política demográfica que visava o branqueamento da população, tornou-se ainda mais difícil a evolução almejada.

Apesar disso, aqui e ali, graças a filantropia ou outras influências, alguns nomes despontaram. Entretanto, a referência a origens africanas de grandes personalidades da vida nacional, sempre foi, no Brasil, um tabu, pois quase sempre era considerada ofensiva, pesando como uma difamação.

Essa ocultação das origens africanas de grandes vultos nacionais, associada à falta ou falsificação de suas iconografias, inclusive por fotografias retocadas, contribuiu lamentável e fatalmente para o desconhecimento sobre o peso real da contribuição de intelectuais, artistas e técnicos pretos e mulatos na formação da cultura brasileira ao longo dos anos. Assim, a verdadeira cor desta cultura foi muitas vezes mascarada.

Na maioria das publicações disponíveis dissemos no texto introdutório de nossa Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (São Paulo, Selo Negro, 2004, reeditada em 2011) a condição de negro define, no Brasil, mais uma categoria social do que uma afirmação de identidade. Os grandes homens, nessas publicações, quando afrodescendentes e pobres, são mencionados apenas como nascidos em lar humilde e não em sua dimensão étnica.

Paralelamente a isso, a mitificação da mestiçagem brasileira mascarou, ao longo dos anos, a verdadeira face de muitos desses grandes homens, mencionados como mestiços geniais, quando sua aparência física denunciava eloquentemente a predominância de sangue africano em sua composição biológica.

Embora rechaçada pelo pensamento conservador contemporâneo, a determinação numérica da presença de descendentes de africanos no Brasil é uma questão de Estado. Na luta por melhores condições sociais, numa sociedade em que os pretos e pardos (negros) são sempre maioria nas camadas mais baixas, é plenamente justificável a afirmação da identidade dos descendentes de africanos. E isto da mesma forma que se justifica a existência dos milhares de associações étnicas nacionais que aglutinam, legitimamente, milhares de imigrantes e descendentes, de origem europeia e asiática, por todas as grandes cidades brasileiras.

Do ponto de vista psicológico, dar visibilidade às realizações da inteligência e do talento dos afro-brasileiros é um reforço à autoestima de toda uma enorme população. Os exemplos históricos e contemporâneos bem além dos notórios Aleijadinho, André Rebouças, Cruz e Souza, Lima Barreto, Luiz Gama, Machado de Assis, Padre José Maurício, etc. estão à mão.

São artistas da palavra, mágicos das cores, escultores de sons, donos e donas do corpo, cientistas e humanistas, comandantes e lideres, que devem ser mostrados em sua condição etnorracial, sim!

Devemos mostrá-los, sempre que pudermos, como exemplo; e para ampliação da autoestima de todos nós, orgulhosos parentes e/ou descendentes dos construtores da porção do patrimônio cultural que melhor traduz a identidade, a ação e a memória da sociedade brasileira.

Nossa cor não é o Brasil. Mas o Brasil, como um todo, histórica e culturalmente, deve muito a ela.

(NL)


Uma ideia sobre “CONSCIÊNCIA NEGRA, A LUTA CONTINUA

  1. Suas reflexões são sempre bem vindas, em todos sentidos.
    As realidade que você escreve no MEU-LOTE, deveria ser postas no FACEBOOK para que todos pusessem se deliciarem como eu.

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