O CONGO DO DR. MUKWEGE E O BRASIL DE AMANHÃ


Denis Mukengere Mukwege (1 de março de 1955) é um médico ginecologista congolês, célebre pela ação humanitária na República Democrática do Congo, onde gere um hospital em Bukavu.

Entre os países africanos que mais sofreram os horrores do colonialismo europeu está a atual República Democrática do Congo, ex-Congo Belga, ex-Zaire; e hoje também chamada “Congo-Kinshasa”, em alusão à sua capital. Foi “Congo Belga” porque, no século 19, sendo um país pequeno em meio às grandes potências europeias de seu tempo, teve um rei que sonhou terrível e exageradamente grande.

Chamava-se Leopoldo II e tomou a si, pessoalmente, o encargo de explorar as riquezas africanas. Para tanto, contratou o explorador americano Henry Stanley para instalar sua colônia na imensa vastidão de terras que denominou “Estado Livre do Congo”; e que as grandes potências reconheceram como tal.

Tudo estaria mais ou menos bem se esse empreendimento não se caracterizasse como uma das mais, violentas, sangrentas e arrasadoras pilhagens que o mundo já viu. Assim, no momento em que Inglaterra, França, Holanda, Portugal, etc. se lançavam avidamente sobre a África, sob o pretexto de promover a cristianização e a abolição da escravatura, Leopoldo, governando pessoalmente o Congo, orquestrou e executou uma pilhagem diabólica. Depois reconhecida como escravista e genocida, sua ação, baseada na extração de látex, marfim e minérios, teria dizimado cerca de 10 milhões de vidas.

Essas mortes resultaram de massacres, torturas, trabalho escravo e epidemias transmitidas pelos colonizadores, além de fome coletiva, provocada por sequestro de alimentos. Tanto que as atrocidades levaram ao primeiro grande movimento pelos direitos humanos no século 20.

Agora, um filho do antigo Congo Belga, o médico ginecologista Denis Mukwege, nascido em 1955 e consagrado como um dos maiores especialistas mundiais na reparação e tratamento de danos físicos provocados por violação sexual, acaba de conquistar o Prêmio Nobel da Paz (em conjunto com Nadia Murad, ex-escrava do Estado Islâmico), por seu trabalho no tratamento de mulheres que foram violadas por milícias na guerra civil do Congo – guerra ainda resultante, embora remotamente, da interminável tragédia colonial.

Parece não ter nada a ver; mas tem, sim! Esta notícia, chegada a nós no momento em que o Brasil, numa encruzilhada, não sabe se retoma o caminho democrático ou ingressa de vez na senda da barbárie, da intolerância, da busca do poder e da riqueza – sem o menor grau de Humanismo – nos faz pensar. Muito.


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