A OUTRA HISTÓRIA AFRICANA


Por Tom Cardoso

Valor Econômico

11/05/2018

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Compositor, escritor, etimologista e estudioso das culturas de matrizes africanas e afro-brasileiras, Nei Lopes, de 75 anos, é um sujeito franco, assertivo. Um teórico de análises certeiras, pouco dado a firulas.

“Não vamos falar só de escravidão, né? Que tal sobre tudo que veio antes?”, sugere ele, ao saber que a entrevista seria publicada na véspera dos 130 anos da assinatura da Lei Áurea.

Sugerido por Lopes, o local deste “À Mesa com o Valor” é o restaurante Biyou’z, no centro de São Paulo, especializado em comida africana. Morador de um sítio em Seropédica, na Baixada Fluminense, de onde raramente sai, Lopes abriu exceção para participar do show “Memória Negra do Samba Paulista”, do percussionista Yvison Pessoa, ex-integrante do Quinteto em Branco e Preto.

Lopes diz que prefere pensar a questão dos negros numa perspectiva de mais longo prazo do que comumente ocorre.

“Parece que a história dos negros só começa quando eles entram no navio negreiro. E o período dos séculos VII ao XVI, dos grandes impérios?”, pergunta. Sua premissa é da necessidade de resgatar o protagonismo dos africanos na construção da sua história. Como pesquisador, sempre lutou para subverter esse tipo de abordagem. “E vou continuar lutando.”

Menino pobre nascido em Irajá, subúrbio do Rio, único dos 12 irmãos a chegar a universidade, Lopes já expôs muito do seu pensamento e de sua vida em sambas ou em mais de 30 obras, de romances a ensaios, de livros de contos a dicionários musicais. A versatilidade lhe permitiu ganhar o Jabuti, um dos mais prestigiados prêmios literários do país, em categorias distintas. Em 2009, venceu com “História e Cultura Africana e Afro-Brasileira” (Barsa Planeta), na categoria Livros Didáticos e Paradidáticos. Sete anos depois, em 2016, ao publicar o “Dicionário da História do Samba” (Civilização Brasileira), arrebatou o prêmio na categoria Teoria/Crítica Literária.

Nos últimos anos, Lopes dedicou-se a escrever um novo romance, “O Preto que Fala Iídiche”, lançado recentemente pela editora Record. O livro narra a saga de um sambista da Praça Onze, cuja história, ambientada na década de 30, se cruza com a dos falashas, os judeus negros de origem etíope. Lopes também é autor do romance “Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova” (Língua Geral, 2009), que relembra a importância de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata (1854-1924), A outra história africana cozinheira e mãe de santo brasileira que é figura central na formação dos blocos carnavalescos e do nascimento do samba carioca.

O romancista, o compositor e o estudioso da música brasileira retroalimentam-se. O samba está presente nos seus livros sobre história e vice-versa.

“Comecei a escrever porque havia um desconhecimento enorme em relação às culturas africanas e afro-brasileiras. E ainda há, infelizmente”, afirma. “Eu também não queria repetir os mesmos temas de sempre, falar apenas da escravidão. Era preciso resgatar o protagonismo dos africanos na construção de sua própria história.”

“É bom que um jovem estudante saiba que, apesar de a sociedade brasileira dificultar o empoderamento do negro, não conseguiu impedi-lo de realizar grandes proezas”, diz Lopes

Nei Lopes lembra das longas conversas com o professor e historiador Joel Rufino dos Santos (1941-2015), também negro, sobre a dificuldade de fazer com que alunos de origem africana se interessassem e mergulhassem fundo na própria história.

“Um estudante negro fica com a autoestima lá embaixo quando se depara com os livros sobre a história da África, quase todos voltados para o período da escravidão.”

Historiador autodidata em sua definição, Lopes queria tomar um rumo diferente. Enaltecer o samba e seus grandes personagens, quase todos negros, fazia parte desse processo de subverter os livros de história.

“É bom que um jovem estudante saiba que, apesar de a sociedade brasileira dificultar o empoderamento do negro, não conseguiu impedi-lo de realizar grandes proezas”, afirma. “Que o jovem estudante negro saiba que o samba, principal gênero musical brasileiro, tem como protagonista homens negros que não tiveram acesso à escola, como Cartola [1908-1980], Paulo da Portela [1901-1949], Nelson Sargento e, que mesmo assim, compuseram verdadeiras obras-primas. Vou deixar de narrar esses feitos para falar apenas de escravidão?”

Lopes é um dos grandes letristas do samba, parceiro de Dona Ivone Lara (“Felicidade Segundo Eu”), Zeca Pagodinho (“Cavalo e Sapato”), Moacyr Luz (“Jogo Rasteiro”), Guinga (“Fox e Trote”), João Nogueira (“Eu Não Falo Gringo”) e de outros bambas. Na música, aliás, ele se mostra tão versátil quanto na literatura, sempre aberto a novos parceiros, nem sempre ligados ao gênero, como Ed Motta (“Pharmácias”). Com Wilson Moreira, o mais efetivo, com quem gravou dois discos, compôs obras-primas, como “Goiaba Cascão”, “Senhora Liberdade” e “Fidelidade Partidária”.

A despeito de pertencer à mesma geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola (todos, assim como Nei Lopes, nascidos em 1942), ele diz nunca ter pertencido a essa turma, justamente por fazer samba. Mas Paulinho da Viola também não faz? Lopes ajeita a boina branca na cabeça.

“Mas é um caso clássico de um sambista cooptado pela MPB”, diz. “Veja a diferença no tratamento. Todos esses, Caetano, Gil, Paulinho, são tidos como a ‘velha-guarda’ da música brasileira. Eu sou apenas um ‘artista experiente’. Sim, é preconceito contra o samba, considerado até hoje ‘música de gueto’.”

Ele toma como exemplo o nascimento da bossa nova para contextualizar melhor a sua teoria de que o samba e seus agentes nunca deixaram de estar à margem da música brasileira. Segundo Lopes, o movimento criado por João Gilberto, nascido de uma inventiva transformação do samba, teria sofrido intervenções para “embranquecê-lo”, para se tornar mais palatável sob o olhar dos estrangeiros.

“É só lembrar do Aloysio de Oliveira [1914-1995, compositor, ex-Bando da Lua, criador do selo Elenco e produtos de vários discos do gênero] dizendo que ‘a bossa nova havia sido criada para simplificar o samba’. Tanto que a primeira coisa que ele fez, como produtor, foi banir instrumentos como pandeiro e cavaquinho das gravações bossa-novistas.”

O olhar do estudioso da música brasileira confunde-se o tempo todo com o olhar do pesquisador de temas afro-brasileiros e da questão racial no país, justamente por serem, na sua opinião, indissociáveis. Lopes faz uma analogia com uma situação corriqueira na sociedade brasileira, miscigenada em sua origem – e também racista.

“Sabe aquelas famílias que retiram o retrato do avô negro da parede para não dar bandeira de sua negritude? Que escondem a todo custo parentes com cabelo crespo, lábio grosso e nariz achatado? Fizeram isso com a bossa nova”, afirma.

O pesquisador estuda a música brasileira e suas origens há muitos anos. Atualmente, é o curador, ao lado de Evandro Salles, Clarissa Diniz e Marcelo Campos, da exposição “O Rio do Samba: Reinvenção e Resistência”, de caráter mais didático e menos combativo, em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR) até março de 2019. Na dura reflexão de Lopes sobre os caminhos da bossa nova, há críticas até para Tom Jobim (1927-1994). Para o pesquisador, o autor de Insensatez rezou a cartilha imposta por Aloysio de Oliveira (1914-1995), endossando a teoria de que o samba era um gênero muito “tradicional”, primitivo, para ser assimilado pelo olhar dos estrangeiros.

“Quando Tom compôs, com Vinicius [de Moraes] a trilha de ‘Orfeu da Conceição’ [1956], já o fez na linha de raciocínio do Aloysio, num ritmo mais lento, mais palatável.”

Esse processo de simplificação, segundo Nei Lopes, resultou na bossa nova – não na essência do gênero, mas no movimento que se seguiu, arregimentando músicos da zona sul, que se reuniam no apartamento de Nara Leão (1942-1989).

“Um crime de lesa-pátria, pois o gênero era negro em sua origem e nem um pouco elitista. João [Gilberto] sempre gravou Geraldo Pereira [sambista da Lapa, autor de ‘Falsa Baiana’]. O autor de ‘O Pato’ [um dos clássicos da bossa nova] é Jayme Silva, cria da União de Rocha Miranda, escola de samba do subúrbio do Rio.”

Neste momento, chega a anfitriã, chef e dona do Biyou’z, a camaronesa Melanito Biyouha. Ela sugere o abisse, especialidade da casa – arroz refogado com curry, tomate, cebola, molho de amendoim, castanha e camarão. Lopes ouve com atenção a história da imigrante, que veio ao Brasil em 2003, em férias, a convite de um amigo que trabalhava na embaixada de Camarões em Brasília. O passeio virou trabalho quando ela passou a morar em São Paulo, dedicando-se a fazer penteados africanos em salões de beleza – até abrir o restaurante, em 2008, na movimentada alameda Barão de Limeira.

Lopes aceita a sugestão de Melanito e conta a história de sua família, formada quase toda por operários. Só ele conseguiu ir além do curso primário, formando-se em direito. Por ser o caçula dos 12 irmãos, nascido numa época em que os pais já estavam mais estruturados, passou parte da infância num semi-internato, que abrigava meninos de comunidades como Império Serrano, Serrinha e Salgueiro.

O sambista Nei Lopes começou a ser gestado a partir dali, na escola, embora ele, para realizar o sonho dos pais, tenha chegado à universidade. Quase seguiu o caminho da advocacia.

“Todos da minha família possuíam algum dote artístico, mas só eu segui em frente, o que também pode ser considerado uma proeza, algo diferente do que era imposto, pelas condições sociais e econômicas, a todos os outros irmãos.” Todos os irmãos já morreram. “Eles tinham habilidades artísticas interessantes, mas não saíram do amadorismo. Passar o dia tocando violão, clarinete, cavaquinho, desenhando, era algo proibitivo numa família pobre como a minha. Tinha que ‘trabalhar’.”

Lopes fala com carinho do irmão Dayr (1918-2003), membro da Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O caçula tinha três anos quando a família armou uma grande festa para recebê-lo, em 1945, como um herói.

“Tenho vagas lembranças desse dia. Todo mundo no quintal de casa, esperando o Dayr chegar, o herói da família”, recorda. “Ele não gostava muito de falar de sua experiência na FEB. Só lembro dele dizer que as mulheres italianas, no fim da guerra, passaram o dedo no seu braço para ver se saía tinta. Ele era o irmão de pele mais escura dos irmãos, um clarinetista e flautista de muitas habilidades, mas que também não pôde se dedicar à música.”

Havia chance de nascer um Pixinguinha na família?

“Se dependesse da genética. Você sabe que todo mundo naquela região é meio primo, né?”, brinca Nei. Ele conta, agora sério, que sua mãe era do Catumbi, vizinha da família de Pixinguinha (1897-1973). “Depois eles foram morar na Piedade. Mas tem algum parentesco que une a nossa família, que não sei bem qual é. Parece que é ligado a paixão de algum tio por alguém da família Pixinguinha. Enfim, precisa investigar esse passado.”

Ele fica um período em silêncio. “Ahhhh, agora me lembrei!”, diz em voz alta. “Faz muitos anos, durante uma festa lá no Clube do Samba, fui apresentado à irmã do Pixinguinha. Comentei que havia um tio próximo à família dela, disse o nome dele e tal, e ela arregalou os olhos, assanhada: ‘Cadê ele?’. Contei que ele tinha morrido, e ela ficou meio decepcionada. O meu tio era um mulato muito bonito. Tem coisa aí”, diz ele, brincando.

Quando o abisse é servido, Lopes diz que é “uma besteirada essa história de apropriação cultural” de símbolos da cultura negra por brancos.

“O que está aí, independentemente da origem, é para ser copiado mesmo. O que não gosto é ver algo associado à cultura negra, seja um grupo de música, de teatro, seja um filme, só porque colocaram um ou dois negros no elenco ou na banda. Aí não dá para engolir”, afirma. “Isso acontece muito, sobretudo na televisão e no cinema. Você sabia que não existe um só filme no Brasil dirigido ou roteirizado por uma mulher negra? Não será um núcleo negro de uma novela das nove ou uma série sobre escravidão que vai diminuir esse abismo, né?”

E Lázaro Ramos? Ao lado da mulher, Taís Araújo, o ator é uma das atuais estrelas da televisão brasileira, protagonista de um programa de humor (“Mister Brau”) na Rede Globo. O casal, negro, também está presente em várias campanhas publicitárias. Ramos lançou no ano passado um livro, “Na Minha Pele”, que se tornou um best-seller.

“Pois é, gosto do livro, gosto do Lázaro, acho que ele é um exemplo. A sua trajetória precisa ser sempre lembrada, mas é muito pouco para um país como o nosso”, diz. “É triste ver programas de televisão, em pleno 2018, reproduzindo estereótipos do negro imbecilizado, da mulher negra erotizada, que são combatidos nos Estados Unidos desde a década de 1950.”

O Brasil, além de estar longe de resolver a questão da desigualdade racial, vive um retrocesso, diz Lopes. Este é também, segundo o pesquisador, o país que assiste silenciosamente a uma rotina de ataques a terreiros de umbanda e candomblé.

“Infelizmente, tudo tende a piorar. E isso me incomoda muito”, diz. “É uma pena que o mesmo país que conseguiu reduzir a desigualdade social esteja novamente vivendo os mesmos problemas que sempre o afetaram e que estão diretamente relacionados à questão do negro. Voltamos para o mesmo lugar. Pior: a tendência é andar para trás.”

Pai de dois filhos homens (um deles já morto), Nei Lopes é exceção no Brasil.

“Eu comecei a entender que a cor da pele fazia uma grande diferença no meu país ainda criança, quando percebi que irmãos com o tom de pele mais escura enfrentavam ainda mais problemas.” A mais velha de suas duas irmãs se casou com um homem branco, apesar da resistência da família dele, que criou obstáculos. “Os filhos de minha irmã começaram a nascer brancos, mas a ‘alegria’ do avô materno durou pouco: tempos depois eles começaram a casar com pretos.” Lopes é avô de dois meninos negros, gêmeos. “Os dois acabam de entrar para a universidade. Um quer fazer história e outro, direito. Nenhum quer ser físico nuclear. Veja que decepção”, diz, brincando.


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