ESSE BRASIL QUE AÍ ESTÁ JÁ VEM DE LONGE…


O grande escritor brasileiro LIMA BARRETO, (1881-1922) nascido e falecido no Rio de Janeiro, destacou-se por retratar em seus romances, contos e crônicas a sociedade de sua época, de­nunciando o racismo e as injustiças sociais e captando com ironia e amargura, mas sempre ma­gistralmente, a vida carioca. Rejeitado pelo mundo literário, décadas após sua morte física, entretanto, ganhou reconhecimento. E quem hoje lê ou relê seus escritos, como o trecho abaixo, um perfil do incensado Barão do Rio Branco, pinçado do romance “Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá” compreende a razão do descaso de que Lima foi vítima até bem pouco tempo. Degustem!

“Era um atrasado, que a ganância das gazetas sagrou e a bobagem da multidão fez um Deus. O que Gonzaga admira era o titulo [Barão] dado pelo imperador. Por essa ocasião, ao pensar eu nisto, repimpado em um luxuoso automóvel de capota arriada, passou, com o ventre proeminente atraído pelos astros, o poderoso Ministro dos Estrangeiros. Ao ver através das grades do jardim passar o barão, desdenhoso e enjoado, Gonzaga de Sá me disse:

– Este Juca Paranhos (era outro modo dele tratar o Barão do Rio Branco) faz do Rio de Janeiro a sua chácara… Não dá satisfação a ninguém. Julga-se acima da Constituição e das leis… Distribui o dinheiro como bem entende… O seu sistema de governo é a corrupção… Mora em um palácio do Estado [o Itamaraty, na avenida Marechal Floriano, antiga Rua Larga], sem autorização legal; salta por cima de todas as leis e regulamentos para prover os cargos de seu ministério aos bonifrates que lhe caem em graça. Em falta de complicações diplomáticas, ele as arma, para mostrar o seu atilamento de Talleyrand [diplomata francês] e sua astúcia bismarckiana [de Bismarck, general e político prussiano-alemão]. É um autocrata, um quediva*, porque ‘isto’ [o Brasil] é bem um futuro Egito”.

Viva Lima Barreto!


(*) “Quediva” era o título do vice-rei egípcio que no fim do século 19 completou a entrega de seu país à Inglaterra e, na inauguração do Canal de Suez, anunciou ao mundo que a partir daquele momento o Egito não pertencia mais à África e, sim, ao mundo ocidental. (NL).


 

Uma ideia sobre “ESSE BRASIL QUE AÍ ESTÁ JÁ VEM DE LONGE…

  1. Oi Prof. Nei!
    Sou da Saúde Mental. E o Lima é referência neste meio. Seu defeito como pessoa, foi não acreditar nas coisas do espiritismo. Como mulato ele deveria recorrer. Como eu faço.

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