NOSSO SALGUEIRO CHEGOU PERTO


Por conta da desgastada abordagem histórica que restringe a África ao escravismo e apaga o que antes se passou no continente, o belo enredo do Salgueiro não foi compreendido como deveria. O senso comum desconhece que boa parte da pujança africana, anterior à conquista árabe a partir do século Sete, tem origem na região da Núbia, atual Sudão, que desde a Antiguidade influiu até mesmo no Egito dos faraós.

O enredo “Senhoras do Ventre do Mundo” passou bem pelo Egito, chegando a citar a 25ª. dinastia faraônica, a dos faraós indiscutivelmente negros, entre os quais Taharca (Taraca, Tiraca), tão importante que é o único faraó citado nominalmente na Bíblia, o que ocorre em Isaías, 37; 9: “Após ter ouvido a respeito de Taraca, rei da Núbia, o qual vinha combatê-lo, [o rei da Assíria] enviou outra vez mensageiros a Ezequias…”.

Passou assim o Salgueiro, entre os séculos 6 antes de Cristo e 4 da Era Cristã, por Meroe, cidade-estado a 200 km da atual cidade de Cartum, atual Republica do Sudão do Norte.

Observemos que foi de Meroe que conteúdos de uma avançada civilização se propagaram nas direções sul e oeste criando as bases para o surgimento de quase todas as grandes civilizações africanas posteriores, entre elas as de Ifé, Oyó e Benin, além daquelas do Zimbábue e as sementes que desceram do atual Camarões para desenvolver-se na bacia do rio Congo.

Certamente, nesse fluxo, ao longo dos séculos, foi que floresceram os elementos formadores da Religião Tradicional Africana e até mesmo o Samba. E se não fossem esses elementos, não teriam existido as grandes mulheres evocadas e exaltadas no enredo, como Iya Asantewa (guerreira ancestral do povo axante), Chica da Silva, Tereza do Quariterê, Carolina Maria de Jesus, a grande Paula do Salgueiro, Dona Maria Romana, Dona Margarida do Seu Geraldo, Dona Fia, Isabel Valença, etc., etc., etc. Este, em minha opinião foi o elo que faltou. Como faltou também menção às “Amazonas do Daomé”, celebrizadas no fim do século 18.  Mas valeu!

Porque a África é fonte inesgotável de conhecimento e saber. E os enredos de temática africana, quando bem fundamentados, podem contribuir decisivamente para desconstruir a visão temerária, crivelar e bolsonária da África, alimentada pela exploração colonial que ainda viceja no Brasil.


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