WILSON DAS NEVES (1936 – 2017), DE BAQUETA NA MÃO


Em família: Das Neves, Nei Lopes e seu irmão Mavilis (1930-2008), clicados por Cláudio Jorge.

O Samba acaba de perder Wilson das Neves, meu parceiro em algumas composições gravadas, como “Lupiciniana”, “Festa Indigesta” e “Assédio”. Mas além de parceiro, Das Neves teve em mim um grande admirador. Que, nesta despedida, venho a público repetir o que escrevi no seu perfil biográfico, escrito e publicado por Guilherme Vasconcelos em 2015.

Disse eu que a visão simplista, reducionista e estreita que a sociedade de consumo criou sobre o samba costuma reduzi-lo ao universo carnavalesco das escolas. O samba, entretanto – e aqui parafraseamos Hermínio Bello e seu parceiro – “não é só isso que se vê”: é muito (e não um pouco) mais. E este plus se traduz numa amplitude muito grande de enfoques, abordagens, definições e questões que suscita, as quais fazem com que reconheçamos no samba um fenômeno cultural de largo espectro, como o jazz, seu “primo” americano. E, mesmo enquanto arte musical pura e simples, a variedade de estilos de composição e interpretação do samba o revela como algo muito mais complexo que uma simples diversão carnavalesca, ou de fim de semana.

Das origens, o samba guarda estreita ligação com a religiosidade de base africana que subsiste no Brasil desde os tempos coloniais. Da mesma forma, sua trajetória histórica de resistência à opressão de fundo racista, o mantém indissoluvelmente ligado à experiência existencial do povo afrodescendente. Por outro lado, sua inserção gradual em terrenos e ambientes antes vedados, como o do palco dos teatros, da transmissão radiofônica, do cinema, da televisão e, hoje, da internet, repete metaforicamente a caminhada, árdua mas persistente, do povo afro-brasileiro no caminho da inclusão.

Essa caminhada é contada por episódios exemplares. Como foi a prática, décadas atas, do concurso para outorga, no ambiente das agremiações, da láurea máxima de “Cidadão Samba”, título concedido àquele que, por seus talentos e habilidades como músico, compositor, dançarino, orador e “personalidade” melhor representasse o que se esperava de uma “personalidade” do Mundo do Samba. Como foi o inigualável artista “Das Neves”. Que, além de tudo, fazia parte, por tradição familiar, da seleta comunidade dos “olorixás” – os iniciados nos segredos do culto às divindades jeje-iorubanas.

Músico, percussionista, compositor, cantor, ator, e naturalmente dançarino, Wilson das Neves foi dono de uma história pessoal e profissional única, como certamente comprovam as páginas escritas por seu cuidadoso biógrafo. E, aqui, retomo outra visão estreita, tacanha, que é aquela que, com intenção derrogatória ou por mero desconhecimento, costuma classificar como “sambista” qualquer um que cante um “sambinha” ou “bata” um pandeiro.

Sambista, com S maiúsculo, caros leitores e leitoras, foi Wilson das Neves! O “resto” (e aqui cabe muita gente) – é conversa fiada!

Siga em paz, Irmão Das Neves! De baqueta na mão. Ibaiê !!!


Nota biográfica – Baterista com carreira profissional iniciada, nos anos de 1950, em nightclubs cariocas, em pouco tempo Wilson das Neves tornava-se um dos mais requisitados músicos, in­clusive internacionalmente, em shows e gravações. Sua ligação com a escola de samba Império Serrano desde a infância, fez com que desenvolvesse um estilo único de expressar, em seu ins­trumento, as difíceis nuances do samba em suas várias modalidades. Em 1997 iniciava surpreen­dente trajetória de cantor e compositor, lançando um CD com sambas de sua autoria e parcei­ros, laureado com o prestigioso Prêmio Sharp. Na década de 2000, era o principal responsável pela reativação, juntamente com o especialíssimo violonista Neco (1932-2009), do grupo instrumental e vocal Os Ipanemas, gravando discos especialmente para o mercado externo, e fazendo, com grande sucesso, inúmeras apresentações, sobretudo na Europa.


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