MORREU EM PARIS A MARIA CALLAS AFRO-BRASILEIRA


Maria D’Apparecida

Dias atrás, uma pequena nota em O Globo, informava uma perda inestimável. Morria em Paris, sozinha e sem parentes ou conhecidos, aquela que um dia foi considerada a “Maria Callas afro-brasileira”, numa referência à mitológica diva grega do canto lírico, a quem substituiu, na Europa. O corpo da cantora foi encontrado por vizinhos, em estado de decomposição. E a Embaixada Brasileira custou a localizar alguém que se responsabilizasse pelos despojos, ao final cremados lá mesmo na capital francesa.

Chamava-se Maria Aparecida Marques, mas fizera fama com o nome artístico Maria D’Apparecida, essa carioca nascida cerca de 1930. Em 1948, ainda professora primária e locutora radiofônica, foi eleita “Rainha das Mulatas”, em concurso de beleza promovido pelo Teatro Experimental do Negro. Mais tarde radicou-se em Paris, aprimorando os conhecimentos adquiridos no Conservatório Brasileiro de Música e encetando carreira como cantora lírica.

Em 1955, gravou disco com canções do compositor Waldemar Henrique, que a acompanhou ao piano; entre 1967 e 68, gravou canções do mesmo compositor, além de outras de Heckel Tavares, Villa-Lobos e Jaime Ovalle; e nas décadas seguintes fez significativa carreira na cena lírica francesa, incursionando também pela música popular e pelo jazz. Em 1972 atuou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em uma récita da ópera Carmen, de Bizet. Ativa até a década de 1990, foi distinguida, na França, com homenagens e láureas oficiais importantes.

Trajetória bonita! Que merece constar dos livros escolares. Pena que tenha morrido esquecida, como quase todos os grandes personagens realmente importantes da cena cultural brasileira.


Uma ideia sobre “MORREU EM PARIS A MARIA CALLAS AFRO-BRASILEIRA

  1. Caro Nei,
    Conheci bem Maria D’Apparecida. Era jovem e fiquei encantado por ela, por sua beleza e pelo tratamento carinhoso. Cantou óperas no Rio de Janeiro, sua cidade, apenas em três ocasiões -1965, 1967 e 1971. Nas duas primeiras vezes veio como integrante do elenco da Opera de Paris. Teve a simpatia e foi acolhida por alguns colegas brasileiros e pela crítica especializada. Inesquecível sua “Carmem” negra -e negra carioca!
    Mas também foi muito hostilizada. A ponto de ser vítima de injúria racial. Uma cantora muito afamada e querida pelo público de ópera no Brasil comentou com outra, alto e bom som, bem próxima de Maria: “-Afinal, o que esta negrinha veio fazer aqui?” D’Apparecida só respondeu depois, em longo desabafo publicado pelo jornal ‘O Dia’: “-Coitada dessa senhora…que ela saiba que nunca a esqueço em minhas orações. Que ela consiga cantar cada vez mais e seja felicíssima, são os meus votos sinceros.”
    Ela não citou o nome da cantora. Sei quem foi, mas vou fazer como Maria, melhor não citá-la.
    A morte da Maria D’Apparecida não mereceu até hoje uma linha sequer da ainda chamada ‘crítica especializada’ em música dos grandes jornais.
    Abraço,
    Henrique Marques Porto

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