“MULATO BAMBA” – Nei Lopes


“Este mulato forte é do Salgueiro/ Passear no ‘tintureiro’ era o seu esporte. / Já nasceu com sorte /e desde pequeno vive à custa do baralho (…) [mas] As morenas do lugar vivem a lamentar/ por saber que ele não quer /se apaixonar por mulher” (Noel Rosa).

A carta, curta e grossa, chegou pelo correio, sem menção do remetente e com carimbo da agência de Itaguaí, lá onde o vento faz a volta. Era assinada apenas assim: “Doca”. E isso deixou Noel encafifado. Porque “Doca”, pra ele, só podia ser ela. Mas tinha também… Ele. E aí é que estava o “x” do problema; a incógnita de uma equação de altíssimo grau; que só se resolvia, ou não, lá nas quebradas, no cocuruto, do Salgueiro.

O Morro do Salgueiro é tudo aquilo que se vê, do final da General Roca pra cima, indo da Praça Saenz Peña. Pode subir também pela Rua dos Araújos, mas a do “presidente da Argentina” é que manda, mesmo.

Seu Vagalume, nego velho que entende mais de samba do que todos nós, diz que o Morro é o “bamba dos bambas; a Academia do Samba; o Inferno de Dante e ao mesmo tempo um Céu aberto!”. Noel concordava. Porque tinha lá grandes amizades. E volta e meia tirava um samba falando no Salgueiro. Mais até do que fez pra Vila. E a nossa turma sabe disso: bom mesmo é lá em cima, em qualquer um daqueles sambas que tem por lá.

Veja só: na parte do Canto tem o Verde e Branco; no Sunga tem o Azul e Rosa, e na Mirandela tem o Azul e Branco do Salgueiro. Então já viu, né? No carnaval, nossa mãe do Céu, é um Deus nos acuda; um pega pra capar! O Verde e Branco quer tirar na frente das outras; e as outras também querem ganhar. É um cu pra conferir. Mas, mesmo assim, com essa rivalidade, o Morro consegue ser o bambambã. Imagina, então, se juntassem e fizessem uma escola só, inclusive trazendo o Deixa Malhar, que é da vizinhança e é vermelho e branco, uma cor mais animada. Aí mesmo é que ninguém ia conseguir derrubar.

Ano passado, a Depois eu Digo, que é o “Verde e Branco”, veio em terceiro; o Azul e Branco veio em sétimo; e o “Azul e Rosa”, Unidos do Salgueiro, tirou em décimo quarto, no penúltimo lugar. Se houvesse união… Noel sempre falou isso. Inclusive ele usava os artigos direitinho: “o” Azul e Rosa e “a” Depois eu digo – “o” era “o cordão”, coisa da antiga; e “a” era “a escola”, coisa de agora.

Ele se preocupava, mesmo, porque gostava de verdade. E um dia me contou como tudo começou.

Foi num carnaval na Praça Onze. O Azul e Rosa tinha um samba muito bonito e animado – do Antenor Gargalhada, claro! – Era daqueles em que a bateria descai na segunda e volta com toda a força na primeira, chamada pela entrada violenta dos chocalhos.

Pois foi assim. Quando os chocalhos chamaram a bateria, com aqueles milhões de arrebites se chocando uns contra os outros dentro das latas, ele se arrepiou todo e firmou a vista. E o que viu foi um mulato dobrado, só um, com quase 2 metros de altura, forte pra cachorro, com cada muque do tamanho de um bonde, e de camiseta, pra mostrar o físico. Em cada mão um chocalho; daqueles de metal cromado, brilhando, do tamanho de uma lata de óleo cada um; os cabos do comprimento de um braço. Ele chocalhava pra direita e pra esquerda, cruzando uma peça com a outra na altura da cabeça; e quando o samba entrava na segunda, ficava só na maciota, marcando o ritmo.

Aí, terminada a segunda, ele chamava o resto da bateria; e começava outra vez:

Tchek-tchek, tchek, tchek, tchek, tchirrrrsrsrsrs!!! Tchek-tchek, tchek, tchek ,tchek, tchirrrrsrsrsrs !!!

Era feito uma locomotiva, uma maria-fumaça embalada. – como Noel me contou.

Quem apresentou ele foi o Canuto, na primeira vez que Noel subiu o Salgueiro. Noel cantava no rádio, mas ainda não era conhecido; e conheceu Canuto no Faz Vergonha, que era o bloco de sujo da rapaziada da Vila no carnaval.

Canuto era um crioulo grande também, mas era magro. Se defendia lustrando móveis, como todo malandro. Falava macio, com aquelas gírias engraçadas que ele mesmo inventava. Noel apreciava o modo de ele tocar tamborim, com o dedo indicador, só marcando o compasso (ta-ta-tatatá…ta-ta-tatatá…); e de olhos fechados, pra sentir melhor a cadência. Canuto era o maior de todos. Foi ele que apresentou ao nosso Poeta o verdadeiro samba; e Noel não só aprendeu como ensinou também o que sabia, principalmente aos crioulos que tomou como parceiros.

Nesse dia em que subiu o Morro pela primeira vez Noel conheceu Antenor Gargalhada, e figuras importantes como Manel Macaco, Chaminé, Tio Antero, Tio Castorino, Suarão, Oscar Monteiro, Neca da Baiana… E aí, sentindo o perfume do Royal Briar e vendo o “Mulato do Chocalho” num canto, arredio, olhando com o rabo do olho, perguntou quem era. Canuto torceu a cara, dando a entender que não valia a pena a apresentação, mas disse o nome do malandro; e entre uma bicada e outra no copinho de traçado contou:

Era conhecido como Doca; Doca da Chica, em alusão à senhora sua mãe. De quem nunca se separara; e a quem prometera morrer solteiro, como rezava a lenda; espalhada por conta das muitas mulheres que por ele morreram e mataram, sem entretanto conseguirem pelo menos um momento de amor. Doca da Chica (“aquela velha feiticeira” – como diziam as despeitadas). Mas lá embaixo, era o Doca do Salgueiro, o bambambã dos bambambãs.

Ainda bem novo, o malandro arrumou um biscate no Cais do Porto, como bagrinho, estivador sem matrícula. Logo numa das primeiras semanas, alguém achou que o pagamento era pouco e instigou os colegas a reclamar.

Queriam mais 10 tostões em cada jornada, pelo carreto de uma partida de carne-seca que tinha chegado do sul. Os donos da carga não concordaram e trataram mal os estivadores e arrumadores. Doca tomou a frente e foi empurrado por um conferente. Rápido, abaixou, descalçou o tamanco, enfiou cada um em uma das mãos e saiu dando. Só na cara.

Na iminência da dupla tamancada, um português sacou do trabuco. Mas Doca desarmou o patrício com um golpe só, pegou o Smith-Wesson no chão, e enfiou na cintura, dizendo que só brigava na mão. O tempo fechou e o pau comeu feio. Socos, pontapés, tamancadas, pauladas, rasteiras… De vez em quando caía um dentro d’água. Até que um pelotão do 5º Distrito chegou apitando. Dispersão. Doca foi agarrado, com muito custo, por cinco meganhas; foi metido no tintureiro e acabou na Detenção, pela primeira vez. A primeira de uma série.

Noel, com aquela mania de livro, teatro, cinema, parece que logo viu ali um personagem. E quando o Canuto, afinal, fez a apresentação, o Poeta se desmanchou num elogio rasgado:

“Parabéns, mano velho! Vi você na bateria da escola. Chocalho de responsabilidade, hein!?”. O Mulato respondeu na forma do protocolo:

“Aristides dos Santos, seu criado”.

Os olhos do ritmista – Noel depois contou – o percorreram de cima até embaixo, como se estivesse lhe tirando as medidas. Ato contínuo, ele olhou fundo nos olhos do moço branco, de um modo esquisito; mas que já expressava amizade e simpatia.

Dali em diante, de vez em quando, por acaso se encontravam: na Praça Saenz Peña (que ele dizia “Sanspena”), no Boulevard, na Praça Sete, no Largo do Maracanã, na Aldeia Campista, no Andaraí… Noel, mal-ajambrado, vestido de qualquer jeito. Mas o mulato, não; estava sempre muito bem arrumado: terno de linho branco ou cor de creme, camisa de palha de seda; chinelo charlote, cara de gato, ou sapato de salto carrapeta; chapéu panamá desabado pra esquerda, cordão de ouro no pescoço, anel no dedo, unhas compridas, sempre feitas, brilhando; e o inconfundível perfume Royal Briar.

Quando chegava, as mulheres ficavam desarvoradas; e ele sempre difícil. Noel, não: era entrão, abusado, entrava de sola.

Os dois se completavam. Então, logo ficaram camaradas.

“Todo mundo te chama de Doca; mas como é mesmo sua ‘graça’, hein?” – O bambambã sorriu de lado,

“Aristides, seu Noel. Aristides dos Santos. O senhor sabe…”

“O Senhor está no céu, conterrâneo!”

“Pois é… Aristides… Mas o nome foi mudando: Tide, Tidinho, Tidoca… Aí, veio Doca e ficou: Doca do Salgueiro. E esse é que é mesmo o meu nome. Assim é que eu gosto de ser chamado”.

A amizade foi tomando corpo. Mas o Doca era um camarada “muito sistemático” – como Noel depois me contou:

“Quando a gente se sentava pra prosear e tomar uma cerveja, ele nunca me deixava pagar a conta: achava que era desfeita até o meu gesto de me coçar, meter a mão no bolso. Outra bobagem também era, quando a gente pegava um carro de praça: ele fazia questão de sair antes pra abrir a porta pra eu saltar. Aquilo era muito enjoado, mas eu tinha que deixar, senão tinha bronca. Mesmo porque ele demonstrava ter muita amizade por mim”.

E era de fato. Inclusive, quando o nosso Poeta teve a primeira rebordosa, um dia ele fez uma visita. E levou umas maçãs, naquele papel roxo fininho, embrulhadas no impresso da Confeitaria Baronesa, e amarradas com um barbantinho cor de rosa. Me lembro como se fosse hoje. E mesmo depois que o Noel ficou bom daquela, de vez em quando ele chegava com uma pessegada, uma fruta de conde, um doce de abóbora, um agrado. Ele podia ser o que fosse, como de fato era; mas tinha muita delicadeza. E, mesmo brigando, não falava um “merda”. Mas se queimava à toa; e por isso estava toda hora se metendo em confusão e indo em cana.

Teve uma vez que o Torres Homem Futebol Clube ganhou o campeonato da Segunda Divisão e os jogadores foram comemorar no Capelinha, no Ponto Cem Réis. Quando a rapaziada chegou, ele já estava lá, sozinho, em pé no balcão, tomando parati com groselha, como gostava.

A alegria era geral e a rapaziada, depois da terceira rodada, começou uma batucada escalafobética, desencontrada, batendo nas garrafas, nas mesas e até na porta do mictório. Numa alaúza daquelas! E, dali a pouco, começaram a cantar uma música com palavras de baixo calão. Doca reclamou, pedindo respeito, pois havia uma família jantando no Capelinha, que na época servia a melhor macarronada de Vila Isabel.

A moçada continuou e o tempo fechou, mais uma vez. Doca se levantou e deu um soco no mais esporrento deles, um tal de Cabelada. Reação. Os onze jogadores campeões mais os reservas, o técnico, o massagista, o presidente e os conselheiros do clube todos tentavam acertar o Doca. Que acabou preso por desacato à autoridade, pois o presidente do conselho deliberativo do Torres Homem, Aluísio Ramalho, conhecido como Jarrão, era comissário de polícia.

Doca pegou processo também por tavolagem, jogo de azar. E sua especialidade, além do jogo de chapinha, era bancar o jogo de ronda, onde não perdia uma. Em qualquer lugar, de dia ou de noite, abria uma folha de jornal no chão e… Lesco, lesco, lesco… Só dava ele. E isso porque, na hora de embaralhar as cartas e mostrar o ás e o valete – o que fazia abrindo e fechando o maço com uma rapidez formidável – ele tinha um macete só dele. Assim, antes de fazer a carta aparecer, ele sempre sabia qual era a boa. E pra isso, marcava ela com a unha comprida do dedo mindinho.

Era, como de fato, um mau elemento e uma péssima companhia; e Noel foi muito alertado sobre isso. Mas, como era teimoso, aos pouquinhos estava frequentando o Salgueiro com uma assiduidade suspeita e perigosa. E não pensava em mais nada: só Doca…Doca…Doca… Principalmente quando enchia a caveira.

Mas… Espera aí… O cognome – “Doca” – que era o motivo, agora, dessa secura, dessa cegueira no nosso Poeta, não era o do valentão tocador de chocalho. Era o de uma pessoa muito diferente.

Ela detestava o nome: Eudóxia. “Parece que destronca a língua”, dizia. Por isso o recusou ainda bem criança. E seu próprio falar infantil, tatibitate, criou a forma pela qual preferia ser chamada: “Doca”.

Noel conheceu a pequena na Rádio Phillips, onde tinha ido com a moçada do Flor da Vila cantar no Programa Casé. Quando ela passou por ele, no corredor, e lhe perguntou como chegava ao auditório, o mocinho não resistiu:

“Uma morena assim é o remédio que o doutor me receitou”.

Ela sorriu com cinismo, franzindo a testa:

“Que é isso, moço? Tá doente, toma um fortificante…”. E saiu se requebrando, fingindo desprezo, mas dando bola pro nosso Poeta.

A morena era um pancadão, como ele disse. Tipo mignon, corpo violão, peitinho pequeno, umas pernocas de fazer inveja até a Ginger Rogers; e com a vantagem de ser marronzinha, quase roxa – como ele gostava, mas não contava pra ninguém e só eu sabia.

Quando o regional se apresentou, ela estava lá sentadinha na primeira fila. Os olhares dos dois atiraram aqueles coraçõezinhos de história de gibi, um na direção do outro. Acabado o programa, ela já estava esperando por ele. E dali a pouco tudo entrava nos conformes:

“Você mora onde?”

“Na Tijuca”

“Ora, ora… Eu vou pra Vila e te deixo lá. Em qual parte da Tijuca? ”

“Na Fábrica das Chitas”

“É caminho, minha flor”.

Ela despistou. Porque, da Fábrica das Chitas até a casa dela ainda tinha um bom pedaço… E uma boa subida. Ela morava mesmo era no célebre Morro do Salgueiro. Bem lá em cima, no Sunga. Depois do Terreiro Grande.

Noel se enrabichou, mesmo, pela roxinha. Mas ficou no mocó, fez boca de siri sobre o romance: um segredo deles dois. Mesmo porque ela era da pá virada, e dona de um currículo complicado.

Aos doze anos, morando no Morro da Formiga, Doca foi vítima dos instintos bestiais de um bicheiro da Muda, um tal de Moacir; que uma tarde, prometendo uma boneca e um saco de balas, levou-a na sua baratinha conversível Fiat 514 até o Alto da Boa Vista.

O pai dela ameaçou dar queixa na polícia. Mas acabou preferindo uma conversa com o contraventor, que reparou o erro com uma nota de 20 mil reis. Assim, o filhadaputa entendeu que a culpa era da filha, foguenta, safada e oferecida; e a expulsou de casa. No que a coitada acabou indo morar no morro quase vizinho.

Quando Noel a conheceu, a pequena já era escolada. E já galgara o posto de supervisora de uma casa suspeita no final da rua Aguiar, na subida da Chácara do Vintém. E chegara onde estava por mérito e competência, claro!

Tanto que um dia – Noel nunca soube dessa história – uns soldados da PE, do quartel da Barão de Mesquita, tudo “catarina”, estavam lá, no “cabaré” comemorando a baixa do serviço militar. Um deles foi pro quarto com uma pequena e quando saiu não quis pagar, alegando que o dinheiro estava com um colega. O colega repetiu a sacanagem, dizendo que quem ia pagar era o terceiro deles. E a arenga foi assim até o quinto. A empregada da caixa então chamou a Doca, que chegou pedindo aos rapazes que pagassem; que aquilo não era papel de soldado, mesmo dando baixa… Enfim, passou-lhes um sabão, deu-lhes uma lição de moral, mesmo. Aí, um catarina mais folgado, deu um tapa na cara da supervisora, que se defendeu recuando e sartando de banda. Assim, a lenha comendo, a Doca, levando porrada, foi recuando pra rua… Até o restaurante Cesárias de Évora, no Largo da Segunda-Feira.

Aí, armada apenas com uma cadeira da Brahma, a cabrocha guerreira dava e escorava, segurava e distribuía, centrava e cabeceava, aguentando um bom tempo as porradas dos reservistas. Quando começou a cansar e viu que podia ser massacrada pela violência dos catarinas, Doca puxou a navalha, que chamava de “sardinha”. Então, ficou só tenteando os teuto-brasileiros, sem cortar ninguém. Depois de mais de 1 hora de porrada, chegou um choque e levou todo mundo pro quartel da PE. Onde o coronel comandante mandou soltar a “Eudóxia de Tal, vulgo ‘Doca”, e recolheu os desordeiros, ainda não totalmente desengajados, ao xilindró.

Noel jamais soube disso… Mas, depois, bem depois, soube de coisa muito pior.

Ele estava em Juiz de Fora com a turma do Flor da Vila, para uma apresentação. Lá, em busca de notícias do Rio, conseguiu um exemplar do Diário da Noite e deu de cara com a aterradora manchete:

“SALSEIRO NO SALGUEIRO

Espancamento brutal – Ritmista deixa cabrocha em petição de miséria – Ela o acusava de pederastia – Compositor do rádio no vértice do triângulo amoroso”.

De volta à Vila, Noel encontrou a carta. A letra era miúda, talvez feminina…. Quem sabe? E o texto era também intrigante por demais:

Meu prezado,

Esta é a primeira e última vês que lhe escrevo, no momento em que você estiver lendo este eu já vou estar bem lonje. Você não é culpado do que aconteceu mais porem tem pessoa que confunde as coizas, não sabe como doe uma desfeita de quem menos se espera. Ninguém pode abraçar o mundo com as perna, QUEM TUDO QUER NADA TEM. Adeus pra sempre.

a) Doca.

Noel jamais achou o “x” desse problema.


N.B. – Este conto integra a coletânea “Conversa de Botequim: 20 contos inspirados em canções de Noel Rosa”, organizado por Henrique Rodrigues e Marcelo Mou


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