MEL AMARGO


CHAMAR MUSEU DA ESCRAVIDÃO DE MEL É ESCÁRNIO

POR NEI LOPES
O GLOBO – OPINIÃO
13/06/2017
https://oglobo.globo.com/opiniao/mel-amargo-21469991

O Museu da Escravidão, projeto da atual prefeitura carioca, agora é MEL — o L da sigla significando “Liberdade” (coluna Ancelmo Gois, no GLOBO de sábado). Isso parece escárnio. E é!

Como chamar de MEL a exposição permanente de um holocausto que, iniciado sob o pretexto da evangelização exatamente dos “gentios” e estendendo-se por mais de quatro séculos, custou à África milhões de vidas humanas, animais e vegetais, numa catástrofe ecológica sem precedentes, que repercute até hoje?

Como adocicar uma sequência de eventos que acabou por levar, num período de apenas 20 anos (1890-1910), potências europeias a se assenhorearem — graças ao poder que conseguiram exaurindo imensas riquezas do solo africano: ouro, marfim, cobre, diamantes e humanos, principalmente — de todo um continente?

Não pode! Porque o sistema escravista inaugurado pelos portugueses diferiu fundamentalmente daquela “escravatura doméstica” preexistente na África. Dentro desse novo sistema, ali pelo século XVI, o escravo, depois de ser utilizado como moeda, começou a ser usado como gênero mercantil, como mercadoria, para atender às necessidades da Europa e impulsionar o desenvolvimento industrial das Américas. E isso quem diz não sou eu. Aqui, estou apenas compartilhando o que aprendo com autores insuspeitos, africanos, americanos e europeus, como Basil Davidson, Walter Rodney, Eugénio Ferreira, Elikia M’Bokolo, etc.

Na escravatura comercial, a sede dos mercadores portugueses em enriquecer o mais rapidamente possível e a crescente procura de mão de obra escrava para o Brasil e as Índias Ocidentais, com envolvimento de chefes africanos, levaram o caos e a ruína às populações africanas. O conjunto de operações que caracterizava o comércio regular de seres humanos reduzidos à escravatura realizava-se pelo recurso a uma violência sem precedentes, mostraram os autores citados. Que mel é esse, então?

E também não se pode lançar toda a culpa nos colaboracionistas africanos, que “entregaram o ouro”, inclusive humano, aos bandidos. Muitos deles foram certamente forçados a essa colaboração nefasta. É preciso não esquecer que em sociedades marcadas pela escravatura comercial, de um modo geral, para a sobrevivência de um governo era preciso obter escravos. Para tanto, era preciso fazer prisioneiros; para fazer a guerra, era necessário ter armas; para conseguir armas, era preciso usar escravos como moeda. Esse foi o ciclo trágico que levou à destruição.

Antes das “Grandes Navegações” europeias e até, mais ou menos, meados do século XVIII, a África foi um continente como os outros: teve reis, impérios; desenvolveu civilizações invejáveis, com realizações artísticas que hoje enriquecem os acervos de museus por todo o mundo; viu e estudou o Universo e suas forças de uma maneira única; legou ao mundo experiências fundamentais resultantes de seu contato com a natureza. Para tanto, criou importantes nações, muito além da estreita noção de “tribos”; deu à luz milhões de falantes de línguas complexas, e não apenas “dialetos”… E sua contribuição ao humanismo mundial foi muito além da visão corriqueira que se tem de sua história.

Esse MEL está amargo demais!

Nei Lopes é compositor e escritor


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