MEUS 75 NOS 129 DA LEI ÁUREA


“Maison des Esclaves” (Casa dos Escravos), na Ilha de Goreé, Dacar, Senegal.

Em Dacar, Senegal, uma das atrações, digamos, turísticas é a “Maison des Esclaves” (Casa dos Escravos – foto), na Ilha de Goreé. Estive lá em 1972, por um dos “acasos” do Destino; e vi as instalações onde cativos aguardavam o embarque para a soturna travessia. Só que a “maison”, agora eu sei, era a casa de um francês enriquecido com o tráfico humano. Que entrou para a história por conta dessa infame condição. E sua casa hoje é glamurizada como atração turística; quando todos sabemos que escravidão não combina com nada de bom, muito menos turismo.

A exploração europeia da África começou disfarçada de evangelização. Nessa forma, foi mostrando seu apetite pelas riquezas do solo e da fauna, notadamente por marfim e ouro. E depois, ainda mascarada foi revelando sua face mais cruel.

Ontem mesmo, folheando um guia de viagem, muito bem feito, sobre a República de Gana, líamos detalhes sobre como no século 17, a Costa do Ouro acabou se expandindo como Costa dos Escravos. E como o advento da escravatura comercial, inventada por portugueses e logo adotada por holandeses, espanhóis ingleses, franceses, belgas e até dinamarqueses e suecos, deixou claro que comprar pessoas para vender era muito mais lucrativo do que explorar a força de trabalho dessas pessoas. E as justificativas, inclusive para o apossamento das mentes desses infelizes, era buscada nas Escrituras cristãs.

Hoje é bem claro para mim que para obter escravos era preciso capturá-los como prisioneiros de guerra. Para fazer a guerra e assim conseguir escravos, era preciso ter armas. Para conseguir armas, era preciso dar escravos em troca. Assim o ciclo trágico continuou até a destruição total, como escreveu April A. Gordon no livro “Nigeria’s diverse peoples”, de 2003; e como já tinha mostrado Walter Rodney, no livro “Como a Europa subdesenvolveu a África”, publicado em Portugal em 1975.

Desta forma, a África, berço de grandes civilizações e impérios até o século 16, foi sendo enfraquecida, despovoada, arrasada. Enquanto os países europeus, embora ainda bastante divididos em rivalidades “tribais” e falando “dialetos”, iam ficando cada vez mais poderosos – graças principalmente à sangria que promoviam na África. – num processo que culminou na Conferência de Berlim. Nesse encontro, no final do século 19, as grandes potências europeias reunidas, traçaram num mapa estendido sobre a mesa, literalmente, as novas fronteiras do continente, ao seu bel prazer, ignorando diferenças e rivalidades entre os povos africanos, separando irmãos e colocando inimigos no mesmo território. Tudo garantido pelos lucros da escravatura comercial.

Naquele momento, 80% do território africano ainda eram governados por dirigentes nativos. Que resistiram, sim, como muitos outros antes deles: mas não tiveram como evitar a destruição de suas formas autênticas de vida, de seu equilíbrio cultural e material, enquanto viam e sofriam a instalação de uma relação de dependência e submissão que até hoje, disfarçada de globalização, perdura. Como por aqui também.

Assim, às vésperas de mais um Treze de Maio; com a autoridade que me conferem os 75 anos completados esta semana; e em memória de Luiz Braz Lopes, meu saudoso pai, nascido em fevereiro de 1888 no dia de São Braz, e batizado na Igreja da Lampadosa; que, aliás, abrigava uma Irmandade de libertos moçambicanos… Tenho o prazer de compartilhar estas modestas reflexões.


P. S. – O tema será o dominante em nosso próximo Dicionário de História da África, referente aos séculos 16 a 19, complementando, numa espécie de Vol. 2, o que estará sendo lançado no próximo dia 15 de maio (NL)


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