GUARDIÕES DA DIGNIDADE AFRICANA

 


Voltamos ao assunto, porque nunca é demais. E estão aí os boçais reacionários, cada vez mais tresloucados, para confirmar todas as coisas contra as quais lutamos.

Foto: Rita Willaert – Flickr

O caso é que a escravidão é um ponto chave na História da África e dos afrodescendentes. Mas teimar em mostrar suas consequências nefastas é redundante e não é bom. Principalmente quando o foco recai sobre a colaboração de africanos de vários segmentos sociais, desde monarcas a simples transportadores, passando por mercadores enriquecidos com o tráfico humano.

Mais importante que a escravidão foi a resistência a ela, através da luta, da sabotagem, e mesmo do suicídio, E, mais ainda, a resistência organizada no século XIX, quando a ocupação europeia no continente africano já era uma realidade que antecipava a conquista e o colonialismo. Foi nesse cenário que emergiram personagens como, por exemplo, os seguintes:

Chaka – Grande chefe político e militar do povo Zulu, na atual África do Sul. Nascido em 1787, iniciou suas campanhas militares por volta de 1808. Sob sua liderança, os zulus conquistaram outros povos, expandiram seu território e se tornaram uma grande potência. Chaka implantou um tipo de liderança que buscava restabelecer a lei social, enfraquecida por egoístas lideranças políticas. Essa lei se materializava nos códigos sagrados dos ancestrais. Observando-as, o chefe assumia os mesmos riscos que o resto da população. Desde então, a abnegação no serviço à comunidade constituiu-se num dos princípios fundamentais do Estado e da nação Zulu. Após a morte do grande líder, em 1823, a penetração inglesa foi-se concretizando, disfarçada de “proteção” aos nativos. Mas em 1879, interferindo em excesso, um exercito inglês é massacrado batalha de Isandhlwana. Mas o domínio britânico acabou por se efetivar três décadas depois.

El Hadj Omar Tall – Líder do povo Tuculer nascido, de origem fulâni (fula), em 1794. Destacou-se como sábio muçulmano, conquistador militar, construtor de um império e propagador da fé islâmica. Com 32 anos, a propósito de resgatar as tradições religiosas abandonadas, empreendeu sua “guerra santa”, que resultou na criação do Império Tuculer sobre os estados bambaras e fulânis da região do Maciná. Na década de 1850, a campanha expansionista de Omar Tall encontra pela frente o exercito colonial francês, baseado no Senegal. E na década seguinte, depois de estender ainda mais seus domínios, o guerreiro acossado numa gruta morre, em 1864.

Samori Turê – Líder militar do povo Mandinga, na atual Guiné-Conacri. Nascido por volta de 1830, na juventude, tendo sua mãe vendida como escrava de um potentado, pôs-se a serviço do exército do dono dela, em troca da libertação materna. E serviu com tanto valor que chegou a comandante e alcançou também sua própria liberdade. Então, tomou a si a tarefa de organizar seu povo, tornando-se independente do potentado e reunindo em torno de si o poder de outros chefes. Assim, pacientemente construiu um império, tendo como núcleo o seu cada vez mais poderoso exército. Em 1882, os franceses resolveram impor sua autoridade aos mandingas. Samori, então se destacou como um dos principais líderes da resistência E levou sua luta, entre ataques e recuos, vitórias e derrotas, por dezesseis anos, até ser vitima de uma emboscada e preso, morrendo no Gabão dois anos depois, em 1900.

Menelik II – Imperador da Etiópia. Nascido em 1844, primeiro como rei e depois como imperador, integrou a seu domínio vastas áreas da Etiópia meridional e lançou um programa de modernização. Equipou seu exército com armamento moderno, o que lhe permitiu resistir à invasão dos italianos, aos quais derrotou, em 1896, na batalha de Adowa, uma das maiores da historia africana. Morreu em 1913, depois de ter conseguido preservar seu país do colonialismo europeu.


Neste momento, às vésperas do lançamento do nosso “Dicionário de História da África (séculos VII a XVI)”, escrito em parceria com o professor Jose Rivair Macedo, da UFRGS, nossas atenções se voltam para os guardiões da dignidade africana, como os mencionados. Porque ESCRAVIDÃO faz mal à Saúde. E o Núcleo de Experimentos Interdisciplinares, NEI, dá muito valor à autoestima.


3 ideias sobre “GUARDIÕES DA DIGNIDADE AFRICANA

  1. Todos esses líderes eram escravocratas, no caso do Samori, traficante de escravos. A sociedade muçulmana é baseada na escravidão, que existe até hoje na Mauritânia e na Arábia Saudita. Chaka seguia uma disciplina muito semelhante à de Esparta: totalmente militar, com extermínio dos aleijados, massacre dos prisioneiros e escravização das mulheres. Por isso grande parte dos outros chefes abandonaram os zulu e emigraram criando outros povos. Omar Tall criou um estado islâmico baseado na sharia e na escravidão. O imperador Menelik governou um estado bem mais estratificado, mas lutou contra as pressões da Inglaterra para abolição, era escravagista. Eles foram líderes nacionalistas antiocidentais, mas não eram contra a escravidão. O mundo inteiro era escravagista, os abolicionistas é que no início eram um corpo estranho, mas foram crescendo e terminaram vencendo.

  2. Meu caro João Carlos Rodrigues. A lógica perversa da escravidão se traduzia no seguinte: para obter escravos (fora da norma da servidão doméstica que sempre existiu no mundo antigo; e obedecendo às relações de poder que vieram de fora do continente), era preciso capturá-los como prisioneiros de guerra. Para fazer a guerra e assim conseguir escravos, era preciso ter armas. Para conseguir armas, era preciso dar escravos em troca. Assim, o ciclo trágico continuou até a destruição total. Porque a Europa, claro, não permitiu que os africanos fabricassem armas e munições. O CASO É QUEM COMEÇOU ISSO TUDO FORAM OS EUROPEUS, A PARTIR DO SÉCULO XVI. Para, no final, na Conferência de Berlim, fatiarem o continente africano e repartirem entre eles. Eu sou uma vítima remota dessa grande sacanagem. Se você não é, parabéns
    pra você. E Feliz Páscoa! a) Nei Lopes

  3. DIGO MAIS: Os europeus inventaram a ESCRAVIDÃO COMERCIAL, na qual o lucro com a venda do escravo era mais importante do que o conseguido com sua força de trabalho. O escravo tornou-se MERCADORIA, apenas; enquanto na servidão africana tradicional ainda havia a oportunidade de crescer no seio de uma família e até galgar postos na hierarquia social. Minha Bibliografia tem muitos exemplos. (NL).

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