“MORA NA FILOSOFIA! MOROU, MARIA?”


Ano passado, num evento no Museu Imperial de Petrópolis, nós e o Compadre Simas tentávamos mostrar a importância do legado das civilizações africanas para a cultura brasileira. O foco era o saber implícito inclusive nas nossas práticas religiosas mais profundas, como o culto de Ifá.

Nos debates que se seguiram às nossas falas, uma jovem senhora, simpaticíssima professora de filosofia da PUC-Petrópolis, botou lenha na nossa fogueira, nos incentivando a sistematizar o que dizíamos, num trabalho sobre as filosofias que fundamentam os saberes a que nos referíamos.

O fogo pegou. E dias depois já estávamos rascunhando um livrinho ora em fase de finalização, no qual procuramos mostrar mais ou menos o seguinte:

Nosso objetivo não é afirmar a existência de uma “filosofia africana”, no sentido polemizado e recusado por alguns filósofos, inclusive africanos. Nossa finalidade é apontar e salientar a presença, no saber africano tradicional, anterior ao colonialismo europeu, de uma estrutura de pensamento homogênea, que fundamenta práticas e ações transplantadas para o Brasil e as Américas, as quais até hoje baseiam o cotidiano de comunidades afrodescendentes e eventuais agregados. Para tanto, reunimos exemplos colhidos por cientistas e estudiosos, antigos e contemporâneos, estrangeiros, além de africanos e afrodescendentes, interpretando-os segundo nossos objetivos e convicções.

Com eles, procuramos lembrar que a interpretação da cultura africana deve começar, de uma vez por todas, com o descarte da noção de que, em todos os aspectos, a Europa é a mestra e a África a discípula. Este é o ponto central do nosso argumento: denunciar o imperialismo da tradição intelectual, buscando afirmar uma “fala” africana, na contramão dos teóricos em geral, que tendem frequentemente a generalizar tudo a partir de ideias concebidas na Europa.

Procuramos demonstrar a existência de uma linha conceito de pensamento baseada nas concepções filosóficas da tradição africana, como já tem sido feito nos meios acadêmicos, na África, na Europa, nos Estados Unidos e no Caribe, por exemplo.

O discurso do colonialismo europeu consagrou a falsa ideia de que africanos e afrodescendentes seriam naturalmente atrasados, já que “desprovidos de História”. E que somente elementos externos, como a ciência, o cristianismo, a economia de mercado, a escola ocidental etc., poderiam inserir a África naquilo que o senso comum imagina ser a História da Humanidade.

Pois é na contramão desse olhar, estrábico por conveniência; e convencidos da sofisticação e da profundidade do pensamento e dos saberes tradicionais africanos que estamos finalizando nosso livrinho, que talvez se chame “Impressões sobre Filosofias Africanas – com as iniciais assim bem destacadas.

Como diz o “Filosofia do Samba”, de Antônio Candeia Filho, “cego é quem vê só aonde a vista alcança”. Não é mesmo, professora Lara Sayão?

(NL)


2 ideias sobre ““MORA NA FILOSOFIA! MOROU, MARIA?”

  1. Olá, Nei,
    A professora poderia também ler Kitábu, onde se encontram os fundamentos da filosofia africana e trechos autenticamente filosóficos que podem dialogar com qualquer outra filosofia, inclusive com as orientais.

    Nas nossas Universidades tudo gira em torno do pensamento europeu.
    Os alunos raramente têm acesso a informações fora dos padrões ocidentais.

    • Mirian, a professora ganhou o “Kitábu” de presente. Abçs.
      a) NEI, Nucleo de Estudos Interdisciplinares.

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