NA POLÊMICA SOBRE TURBANTES, É A BRANQUITUDE QUE NÃO QUER ASSUMIR SEU RACISMO

Do Site The Intercept Brasil – Por Ana Maria Gonçalves

BRECHTIANA (para Abdias Nascimento)
(Nei Lopes)
Primeiro,
Eles usurparam a matemática
A medicina, a arquitetura
A filosofia, a religiosidade, a arte
Dizendo tê-los criado
À sua imagem e semelhança.
Depois,
Eles separaram faraós e pirâmides
Do contexto africano
Pois africanos não seriam capazes
De tanta inventiva e tanto avanço
Não satisfeitos, disseram
Que nossos ancestrais tinham vindo de longe
De uma Ásia estranha
Para invadir a África
Desalojar os autóctones
Bosquimanos e hotentotes.
E escreveram a História ao seu modo.
Chamando nações de “tribos”
Reis de “régulos”
Línguas de “dialetos”.
Aí,
Lançaram a culpa da escravidão
Na ambição das próprias vítimas
E debitaram o racismo
Na nossa pobre conta
Então,
Reservaram para nós
Os lugares mais sórdidos
As ocupações mais degradantes
Os papéis mais sujos
E nos disseram:
– Riam! Dancem! Toquem!
Cantem! Corram! Joguem!
E nós rimos, dançamos, tocamos
Cantamos, corremos, jogamos.
Agora, chega!

QUASE TODA CIDADE pequena – principalmente as de Minas – tem seu louco de estimação. Aquele que toda a cidade conhece, cuida e por quem zela como uma espécie de patrimônio. Ibiá, onde nasci, tinha o Zé Tem Dó; e foi com ele que aprendi sobre o valor simbólico de certos objetos. Eu devia ter uns quatro ou cinco anos. Minha mãe era costureira, e o colecionava carretéis de linha. Portanto, suas visitas à minha casa eram constantes, porque minha mãe guardava todos os carretéis para ele e sempre oferecia algo mais, como um refresco, uma roupa, um prato de comida.

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