O ENCANTAMENTO VEM DE LONGE

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O musical “Bilac vê estrelas”, estreado em 2015, acaba de me dar o prêmio da Associação Brasileira de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro, APTR, em sua décima edição; e já tinha me dado o Troféu Bibi Ferreira e o Prêmio Shell.

Esta premiação enriquece minha trajetória teatral, pouco conhecida, mas não desprezível, e que vem da minha juventude.

Profissionalmente, ela começou com a encenação da revista “Oh, que delícia de negras”, encenada em temporada no Teatro Rival em maio de 1989 e repertoriada nos anais do Centenário da Abolição, conforme matéria de Tim Lopes na edição de 31 de maio daquele ano do Jornal do Brasil. E, à margem, rendeu incursões como as músicas de “Auto da Independência” de Joel Rufino dos Santos; as de “Sortilégio”, de Abdias Nascimento (partituras publicadas no livro “Crosswinds: na anthology of black dramatists in the diaspora”, pela Universidade de Indiana em 1993), Entre 1999 e 2000, respectivamente, tive encenados pelos alunos de teatro do Centro Cultural José Bonifácio, da Prefeitura do Rio de Janeiro, dois musicais: “Clementina” (sobre a vida de Clementina de Jesus) e “Dona Gamboa, Saúde” (sobre a história da região portuária, um dos berços do samba).

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Inéditos, tenho ainda outros textos teatrais escritos e musicados. E, agora, espero oportunizar, através dos indispensáveis apoios, a montagem de “A sina e a saga de Samba dos Santos” (a foto é meramente ilustrativa), musical bem-humorado e alegre, contando a trajetória da resistência da cultura do Samba, com 18 quadros, todos mostrando o gênero em seus diversos estilos de composição, canto e dança.

Ressalto que as recentes conquistas e a obra produzida vêm de um encantamento antigo. Que teve como fonte a inesquecível presença de meu irmão José Braz Lopes, o Zeca, um homem de teatro na mais completa acepção da expressão, embora nunca tenha recebido um tostão com sua arte – e como seria bom se tivesse conseguido! Entre 1958 e 72, no nosso GR Pau-Ferro, encenamos semanalmente dezenas de “comédias”, sem texto escrito, na base da improvisação, como – depois vim saber – se fazia na Itália, nos séculos XVI a XVIII, na forma conhecida como Commedia Dell’Arte.

Falecido em 1984, Zeca teria completado 77 anos no último dia 19 de março, dia de seu padroeiro São José.

A ele, que, como ator, autor e cantor, poderia ter sido um dos grandes nomes da cena teatral brasileira – mas infelizmente não foi – eu dedico este momento.


PRÊMIO FAZ DIFERENÇA de O GLOBO – Fala de Agradecimento

Ao receber a premiação do jornal O Globo, no último dia 23 de março, no Copacabana Palace, assim me expressei:

Senhoras e Senhores: Recebo este prêmio com o mesmo orgulho e a mesma honra de quando recebi, do Governo Federal, a Ordem do Mérito Cultural em 2005 e a Ordem de Rio Branco em 2013.

Sinto-me um privilegiado, entre tantos outros de minha origem étnica e social que trabalham como eu e jamais experimentaram a VISIBILIDADE que agora estou tendo. É a esses “INVISÍVEIS”, entre os quais incluo familiares e amigos, que dedico mais esta conquista. Muito obrigado!

3 ideias sobre “O ENCANTAMENTO VEM DE LONGE

  1. Grande Nei. Artista múltiplo e em sua pluralidade artística a mesma indelével marca de qualidade e compromisso com a arte em sua acepção mais enobrecedora.

  2. Prezado Nei,

    Voce dedicou a sua premiação mais recente aos invisíveis.
    E o negro sabe muito bem o que é a invisibilidade: se pobre, essa característica é indelével; se classe média, não lhes enxergam. Mesmo rico pode ser confundido como motorista em um estacionamento nos jardins.
    A sua homenagem-lembrança aos invisíveis é digna e comovedora.
    Grande abraço,
    Daniel Santiago

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