HÁ 50 ANOS, BACHAREL

No final de 1966, este Velhote que vos fala, então um jovem de 24 anos, recebia da Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, mais tarde UFRJ, o grau de bacharel em Direito e Ciências Sociais. Dois anos antes, premido acima de tudo pelo novo sistema político que se instaurava no país, o jovem acadêmico já se registrara na OAB-RJ, na condição de solicitador, para poder realizar alguns atos forenses sob a responsabilidade de um advogado.

OAB.1967

Esse profissional foi Demóstenes Garcia, causídico brilhante e orador inspirado, mais tarde professor e membro do Ministério Público, de humilde família afrodescendente e morador em Ricardo Albuquerque, subúrbio fronteiriço à Baixada Fluminense. Demóstenes (saudoso amigo falecido em 2008 e cujo nome era uma sina, pois assim se chamava o pai da oratória na Grécia clássica), tinha uma colega de turma, Hilma Ferreira do Valle, de condição social bastante diferente da nossa. E foi ela que me abrigou em seu escritório particular na Rua da Quitanda, e no Sindicato dos Lojistas, onde também trabalhava, e cuja sede ficava no mesmo edifício.

Meu ingresso na Faculdade, no vestibular de 1962, foi, modéstia à parte, um sucesso. Embora eu viesse de um curso “científico” (denominação da época) mais dirigido para a área de ciências exatas. Tanto que, nele, passei três anos me atrapalhando e estressando com Física, Química e Matemática, estudando sem saber bem o que eram, coisas como geometria descritiva e analítica, trigonometria, etc. Imaginem! Mas apreciando História Natural (Biologia), principalmente nas áreas de zoologia e botânica. Afinal de contas, eu era um ser “vivo”, como ainda sou!

Por conta dessa formação meio torta, tive que gastar mais um ano me preparando para o vestibular de Direito. E aí passei o ano de 1961 – apesar da amarga perda do Velho no ano anterior – bastante confortado, no excelente Curso Hélio Alonso, que eu pagava com um “bico” de meio expediente na burocracia de uma oficina mecânica de um amigo em Brás de Pina. No CHA, descobri a importância do latim, de que no ginásio eu não gostava por preconceito; aprimorei o indispensável francês; e adquiri segurança no manejo da língua-mãe.

Passei otimamente na Nacional e também na Faculdade do Catete (hoje, da UERJ). Entretanto, mal entrado na vida acadêmica, fui envolvido pelo Movimento de Reforma, pelo Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, o célebre CACO, e pelo Movimento Literário, presidido pelo já escritor Milton Ximenes. Então, escrevendo poemas e peças teatrais, que também encenávamos, no âmbito do legendário CPC; desenhando charges políticas para o Jornal Mural; pintando faixas para comícios e passeatas, logo-logo o vestibulando bem-sucedido deu lugar ao aluno de péssimo rendimento acadêmico.

Mas a “Redentora” de 1964, dando aquele “pára pra arrumar”, com os militares ocupando a Faculdade e nos envolvendo em um ou mais IPMs (Inquéritos Policiais Militares) acabou com a festa. E aí não tive outro jeito senão procurar sair de lá rapidinho, com diploma na mão. Mesmo porque já havia um compromisso de casamento. O que já é outra história.

Independente da política, o Direito, aprendido na Faculdade e um pouco praticado no Fórum carioca, deixou marcas, muitas ruins e outras boas. E elas estão, quase sempre ironizadas, nas constantes referências jurídicas ou judiciárias que aparecem em meus sambas, como em “Senhora Liberdade”, “Justiça Gratuita”, “Águia de Haia”, “Prisão Especial”; “Vara de Família” e outros. Também nos casos que vivenciei e protagonizei, alguns deles incorporados à minha literatura ficcional.

O Direito está presente, ainda, nas tarefas que desempenho desde a década de 1980 na AMAR/SOMBRÁS, sociedade de gestão autoral que conta ou já contou em seus quadros com “cobras” como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Hermínio Bello de Carvalho, a ex-ministra Ana de Hollanda, e o saudoso Maurício Tapajós, nosso presidente de honra.

Por tudo isso, tenho motivo para comemorar (com inscrição ativa na OAB) estes 50 anos de bacharelato. Ab imo pectore.

3 ideias sobre “HÁ 50 ANOS, BACHAREL

  1. Ô mais velho, nem tão mais velho que o degas aqui, parabéns pela efeméride(epa!). Meio século, convenhamos, não é mole não. Ao contrário do amigo, só consegui fazer a tal faculdade(jornalismo) com 50 anos de idade. Há cinquenta anos eu desfilei mesmo foi a primeira vez numa Escola de Samba. Escola de Samba Império do Samba cá na terra dos lençóis.

    Abraços
    Renê Ruas

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