A LENDA DO “THEATRO” APAGADO

Definir o que seja um Orixá não é fácil. Tanto que, entre os oeste-africanos do povo Fon (“jeje” no Brasil e “arara” em Cuba), o termo correspondente a orixá, é assim explicado: “A palavra vodún evoca uma ideia de mistério e designa algo que extrapola o divino. É toda uma manifestação de força que não se pode definir; algo que ultrapassa a imaginação e a inteligência” (Segurola et Rassinoux, Dictionnaire fon-français, 2000).

TheatroApagado2016

De nossa parte, entendemos que um Orixá é, sim, uma força intensa; mas que se situa dentro da cadeia de forças do Universo, a qual nós humanos também integramos. Então, não devemos apenas cultuá-los, mas, sim – respeitosamente e reconhecendo nossa inferioridade –, interagir com Eles. Devemos tratá-los bem e agradá-los, mas jamais carnavalizá-los. Esta é a nossa opinião.

Já com aquelas entidades espirituais que tiveram vida terrena, qualquer que seja seu domínio, a conversa é outra, pois elas conservam características humanas e gostam de ser lembradas, paparicadas, cultuadas e até carnavalizadas. E o enredo salgueirense, “nem melhor nem pior, apenas diferente”, do carnaval deste ano – que aqui se encerra neste texto – mostrou isso. E exatamente por isso foi o único a motivar reflexões intelectualmente profundas, como as contidas nos artigos de Marcelo Mello (O Globo, 11/02/2016) e do nosso querido parceiro Luiz Antônio Simas, em O Dia, hoje, 17 de fevereiro.

Diz o Simas: “Falar de orixá, para muita gente, é encarado como algo normal em desfiles de escolas de samba, salvo faniquitos dos intolerantes mais histéricos. Mas o Salgueiro foi além e falou, a partir do musical de Chico Buarque, da macumba carioca, do catimbó nordestino, do povo de rua virado na malandragem do Rio, na pulsão entre a ordem e a desordem que a cidade enseja. (…) Botar Tranca-Rua de capa e cartola abrindo o desfile e o Zé das Alagoas, juremeiro do catimbó, fechando, cercado pelas pomba giras e abençoado por Oxalá, faz mais pela luta por uma cidade plural que muito discurso bacana”.

Antes, Marcelo Mello, que não temos o prazer de conhecer, já tinha assinalado: “O Salgueiro foi uma metáfora do conflito entre o desejo e os limites que a realidade impõe. E nada melhor para entender isso do que analisar a sequência dos atos do desfile. Na comissão de frente, um componente de fantasia vermelha e preta, cartola, capa e ar petulante abria os trabalhos ao lado de pomba giras que rodavam com sensualidade escancarada saias cenográficas. A cena era um desafio a ordem constituída ao anunciar que seria liberada a libido que precisa ficar dentro de algum limite, por mais elástico que seja”.

Tudo isso, com uma trilha sonora que não lembrava nada do que já se conhecesse em termos de melodia de samba-enredo e uma letra absolutamente de acordo. Mas faltou dizer ao jurado de alegorias que as entidades espirituais descidas à Sapucaí naquela noite salgueirense, embora gostem de carnaval, gostam mais das sombras que das luzes estonteantes.

Foi por isso, só por isso, que a alegoria do “Theatro” Municipal pareceu apagada. E fim de papo!

2 ideias sobre “A LENDA DO “THEATRO” APAGADO

  1. Boa Nei. Esse ano o Salgueiro fez um desfile de antologia. E não entendi a crise de esquisitice dos fundamentalistas evangélicos.O Carnaval não é coisa do Demonho? Por que tem crente dando pitaco? A discriminação à herança da Cultura Negra é tamanha que se o Desfile de Escola de samba é coisa do Satã, uma Escola falar de Exus e Pomba-giras é mais ainda

  2. Velho amigo, creio que qualquer conversa agora, sobre desfiles de Escolas, nao passa de conversa pra boi dormir, porem e sempre tem um porem, ja dizia Plinio Marcos, o nao desfile da Escola, da nem tao grande assim, Grande Rio, provocou uma grande decepcao e frustacao no povo “sambista” da terra dos lencois. Uma enchurrada de reclamacoes pela pobreza do enredo e pelo primario samba(?) enredo. Dizem que, quem nao conhece a cidade passou a conhecer menos ainda. Eu, do meu lado, entendo apenas que a Grande Rio levou 15 milhoes (eh o que se diz por aqui) da cidade como quem vende um lote de terra no oceano Atlantico. Sobre o desfile das escolas de samba, cah na terrinha, foi o que rolou apenas, o papelao da cidade no maior Teatro em ceu aberto do mundo. Sendo Portelense, entendo que esse ano foi do Salgueiro.

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