VIVA SÃO SEBASTIÃO, O SANTO TIJUCANO!

“Na fé do meu padrinho São Sebastião/ Que cura minha alma e põe meu corpo são…” (Almir Guineto e Nei Lopes, “Abençalgueiro”)

saosebastiao2016

O bairro da Tijuca, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro é um bairro alvirrubro. Pois alvirrubras são as cores do América Futebol Clube, tradição do bairro; do Tijuca Tênis Clube, um dos maiores e melhores da zona onde se situa; e a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, nascida em 1953 e integrante do exclusivíssimo grupo das “quatro grandes” até os anos de 70, a década que mudou tudo. Pois São Sebastião, protetor da Cidade e que tem seu altar na Igreja dos Capuchinhos, na Rua Haddock Lobo – para onde foi depois do desmonte do Morro do Castelo – também se veste vermelho.

Sinceramente não sei por que o santo tijucano se veste de vermelho. Na tradição afro-brasileira ortodoxa, essa é a cor de Xangô, aproximado, no sincretismo, aos católicos São Jerônimo e São Pedro.

A umbanda (fluminense) associa São Sebastião a Oxóssi, orixá que no candomblé (baiano) fica mais próximo de São Jorge. E isso talvez se explique apenas pelo fato de certas comemorações das religiões afro-brasileiras serem, historicamente, realizadas em dias santificados pelo catolicismo. O que pode ser visto como resultado de uma estratégia dos oprimidos pela escravidão: como não tinham folga em seu trabalho a não ser nos dias santificados dos brancos, eles usavam esses dias para fazer também as suas comemorações, à sua moda.

Parece virem daí, por exemplo, a associação feita pelos nagôs e seus descendentes da Bahia, que comemoram Oxóssi no dia de Corpus Christi (já em Portugal havia uma procissão de São Jorge nesse dia e esse santo guerreiro, para o povo negro, era um caçador, pois que matou um dragão), assim como Ogum no dia de Santo Antônio (titular de uma patente no Exército Brasileiro, então era um guerreiro) etc.

Outra estratégia de associação partiu da representação icônica dos santos católicos. Oxóssi, por exemplo, cultuado na África como uma das divindades da caça e, por conseguinte como um orixá do mato, foi associado na Bahia a São Jorge e, no Rio de Janeiro, a São Sebastião (que é representado amarrado numa árvore dentro do mato)… Coisas do sincretismo!…

Mas que São Sebastião é um santo tijucano, isso ninguém me tira da ideia. “Tijucano”, porém sem aquelas conotações negativas que os litorâneos criaram com inveja, quando a Praça Saenz Pena tinha mais cinemas que a Cinelândia.

E, sendo tijucano, o Padroeiro, que se veste pouco, mas de vermelho, é naturalmente salgueirense. E já deve estar lá mexendo seus pauzinhos para a “sua escola” ganhar o carnaval este ano.

Salve São Sebastião! Salve a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro! Salve a Academia do Salgueiro, neste dia festivo!


N.R. Nasci e me criei no Irajá, onde havia, na rua Severiano Monteiro, Beco da Coruja, uma capelinha de São Sebastião. Nas procissões, as mães levavam seus moleques vestidos com a roupinha do santo, e era muito bonito. Mas um dia a igreja virou oficina mecânica, o que cravou mais uma flecha no meu peito e no do Padroeiro.

2 ideias sobre “VIVA SÃO SEBASTIÃO, O SANTO TIJUCANO!

  1. Amigo Nei,
    como naturalmente você sabe, hoje, Dia de São Sebastião, “rola” uma festança lá no Morro do Salgueiro, com direito à alvorada, procissão e, claro, muito samba.
    Grande abraço.

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