DO “CAFUMANGO” AO “CHEF-DE-CUISINE”

Cafumango

A foto de que vamos falar não é esta. É outra, de autoria de Fábio Seixo, datada 13/07/2015, foi publicada em O Globo e reproduzida ontem, domingo 26, na Coluna do Ancelmo, encimando um texto intitulado “Que marravilha!”. Mostra cerca de 45 chefes de cozinha envolvidos no Circuito Rio Gastronomia, em curso. E sobre ela a matéria comenta que “há mais homens que mulheres e mais brancos que negros”. E é verdade, pois entre as mulheres fotografadas contamos cerca de 15; e entre os negros, salvo engano, aparecem apenas 1 homem e uma mulher com aparência, digamos, negróide.

A matéria procura demonstrar, corretamente, que a “gastronomia está na moda e ganhou status”. E foi buscar a opinião de Mary Del Priore, uma das figuras mais proeminentes entre os historiadores brasileiros contemporâneos. Autora do precioso livro “História da vida privada no Brasil”, a professora explica as transformações ocorridas na cozinha desde a abolição da ordem escravista, para assim concluir: “O emprego doméstico passou a ser raro e caro. As mulheres não são ‘do lar’ e trabalham fora. Há cada vez mais homens dividindo o trabalho em casa, e cozinhar tende a deixar de ser um trabalho menor”. Perfeito.

Mas há outra conclusão que, no nosso entender, pode-se tirar da foto. Para nós, ela é mais uma prova da exclusão dos afrodescendentes em atividades que conquistam prestígio e, em consequência, boas remunerações e/ou apoderamento. Assim já ocorreu com o magistério de ensino fundamental (que só se aviltou a partir da década de 1960); com a música popular instrumental (de Pixinguinha a Moacir Santos); com o ensino de capoeira (hoje globalizado); com o sacerdócio das religiões afro-originadas (muitas vezes fonte de poder, às vezes econômico); com os círculos dirigentes das escolas de samba, etc.

Em suma: quando a cozinha passou a dar um dinheirinho, o cafumango (“preto cozinheiro; indivíduo desclassificado”, segundo o Dicionário Aurélio, em 1986) e a Tia Anastácia (q.v. Monteiro Lobato) foram banidos pelos “chefs” e “chéfesses”. E hoje só mandam, mesmo, um pouquinho é nos batuques feijoeiros das escolas (de cozinha) do subgrupo de acesso. Comprennez vous?

4 ideias sobre “DO “CAFUMANGO” AO “CHEF-DE-CUISINE”

  1. É Nei, a exclusão de cunho racial é tão estrutural e institucional que qualquer setor que pegarmos como recorte para análise, fornecerá dados quantitativos que atestarão a persistência da chaga do preconceito e da discriminação na prática social do Brasil

  2. “Cozinha era o lugar mais baixo existente na casa (..). Cozinha não era lugar de gente. ‘(…) a cozinha se fizera para negro e negra ruim; minha negra boa — proclamava em alto e bom som — não ponho no fogão'”
    (Hildegardes Vianna – “A Bahia já foi assim”. Ed. GRD, São Paulo: MEC, Inst. Nacional do Livro, 1979, pag. 31)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *