MAJU E O RACISMO ESTRUTURAL


Um dia, alhures, alguém (provavelmente o grande pensador afrobrasileiro Muniz Sodré), afirmou que a TV Globo mostrava episodicamente um ou dois profissionais afrodescendentes só para se blindar contra a acusação de que excluía os negros. E isto pode ser uma verdade, coroada agora pela celeuma causada pela exposição da apresentadora Maria Júlia Coutinho, a “Maju”, indisfarçavelmente negra.

Maju_Yotube

Na esteira da espuma causada por Maju nas redes “antissociais”, o advogado Humberto Adami, presidente da Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, do Conselho Federal da OAB, acaba de circularizar mensagem enviada à jornalista, anunciando a intenção da Comissão que preside de “transformar toda essa energia positiva no combate aos muitos casos de racismo que não chegam ao conhecimento público, e que tem origem na Escravidão, e seus resquícios”.

Apoiadíssimo! E, na sequêcia, outras moções de apoio a Adami chegaram, em cópia, aqui ao Meu Lote. Por exemplo, a da incansável amiga Elisa Larkin Nascimento, presidente do IPEAFRO e guardiã da memória do líder imortal Abdias Nascimento, que assim se manifestou:

“Quando o jornal O Globo me entrevistou pedindo que eu criticasse as manifestações racistas dirigidas à Maria Júlia, eu lhes respondi da seguinte forma e postei o texto no Facebook do IPEAFRO: É importante compreendermos que o racismo não se reduz ao insulto racial ou às manifestações de indivíduos racistas. Mais importante é o racismo estrutural, aquele que permanece sem afirmação explícita mas faz com que os negros sejam excluídos dos ambientes privilegiados da sociedade, Maju chama a atenção por ser uma exceção no quadro visual da TV Globo, majoritariamente composto de brancos. Dentro desse contexto, é natural que sua presença destacada atraia a ira de racistas manifesta em comentários no Facebook. Mas esse fato apenas reflete o contexto maior: a ocupação dos espaços valorizados da sociedade se define pelo privilégio branco. Reconhecer esse fato é mais importante do que criticar os comentários racistas postados na internet”.

Corretíssimo, Elisa! Recado tão claro quanto contundente foi o do brilhante cientista social e professor Jorge da Silva, da UERJ – também amigo do Lote – cuja mensagem aqui transcrevemos na íntegra:

“Oportuna a manifestação em favor da Maju. Endosso o repúdio. Quero lembrar, no entanto, que a Rede Globo de TV, dirigida pelo jornalista Ali Kamel, e o jornal O Globo, à frente os seus editorialistas, se opõem de forma visceral às políticas emancipatórias da população negra, chamando-as de “racialistas”. Na visão deles, nós, da Comissão, por exemplo, seríamos “racialistas” (sic).”

“Caro amigo, uma coisa é o racismo “aberto”, contra o negro ou negra A ou B, que Stokeley Carmichael chamou de “racismo individual” (em teoria, caso da Maju); outra coisa é o “racismo institucional”, como distinguiu Carmichael (ao qual acrescento o “racismo estrutural” da sociedade). No fundo, as pessoas que hostilizaram a “moça do tempo”, fizeram-no não propriamente contra a cidadã Maria Júlia, e sim contra a presença de uma negra em horário nobre no noticioso mais importante do País. Já tinham feito o mesmo com Glória Maria (lembra?). Em suma, racismo “estrutural”.”

“Não nego validade à iniciativa dos editores do Jornal Nacional em repúdio aos ataques racistas (abertos, insisto) sofridos por Maju. Só gostaria que o diretor da Rede Globo de TV, os editores do Jornal Nacional e os editorialistas de O Globo aproveitassem a oportunidade e tentassem compreender que não se tratou de racismo individual e sim de racismo estrutural, marca forte de nossa sociedade. Basta lembrar o que aconteceu quando colocaram um negro no Supremo: o mundo quase veio abaixo (“Só porque é negro!”; “E o mérito?!”). O negro saiu-se bem e, desiludido, saiu. E novamente a cota tradicional voltou aos 100%”.

“Caro amigo Adami, embora o racismo individual, aberto, deva ser também combatido, penso que a Comissão deveria centrar foco mais no “racismo estrutural”, pois este é o tipo de racismo que vitimiza os negros como coletividade étnica. Ficar só no racismo individual é fazer o jogo dos que se opõem às mudanças da estrutura social brasileira”.

Nossa grande amiga Elisa Larkin e nosso “irmãozão” Jorge da Silva disseram tudo.

3 ideias sobre “MAJU E O RACISMO ESTRUTURAL

  1. Nei, meu velho, essa sim é a melhor resposta que vi e li até agora sobre o ocorrido com a jornalista Maria Julia. Porreta o artigo.

    Abraços
    Renê Ruas

  2. Prezado Nei,
    Parabéns pela indicação ao prêmio Shell de Teatro.
    Aqui, de Teresópolis, continuo assíduo visitante do lote.
    Estou solidário com opiniões de Humberto Adami, Elisa Larkin Nascimento, Jorge da Silva e todas pessoas atingidas pela estupidez de atitudes racistas de cunho individual ou institucional. Recentemente ouvi disparates de um sujeito que se considera “intelectual” porque, em seu entender, conhece música clássica a fundo. É uma besta e, por pouco, não lhe cuspi na cara, depois que externou simpatias pelo nazismo.
    Não são esses imbecis que mudarão o curso do progresso humano.
    Quem enobrece o ser humano é gente como a Maria Julia, o Nei Lopes, que me atura desde 1962, e outros fantásticos amigos que muito prezo, independentemente de torcerem ou não pelo Bangu.
    Cordiais saudações serranas.
    Zé Geraldo

  3. Continuaremos,episodicamente,a assistir fatos como estes.Com o poder de fogo que tem a emissora poderia fazer bem mais se assim desejasse.O Brasil é lendo,vacilante,no combate ao racismo.Veja-se a lei 10.369 que introduz o ensino da cultura e história negra no curriculo escolar,não saiu do papel.É impossível que não se observe em vários programas da referida emissora a reprodução de estereótipos racistas.Colocar um negro na bancada do seu principal jornal não muda décadas de domesticas,bandidos,humoristas desdentados ou alcoólatras que passaram pelas telas da venus platinada.

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