MOOYO, MÚNTU, RELIGIÃO E HUMANISMO

Entre os povos pertencentes ao grande complexo cultural congo – que compreende, além de outros, os povos que no Brasil e nas Américas foram conhecidos como “congos” – a palavra mooyo significa “vida”, “energia vital”. E, no mesmo universo lingüístico, muntu“homem”, “indivíduo” – é a força vital realizada, existente, pulsando; é o ser, enfim.

Mooyo

No saber filosófico construído em torno desta noção de “mooyo” (correspondente ao iorubano “axé”), o Ser Supremo é o criador de todos os seres e coisas. Mas Ele está muito distante, e só é acessível por meio de divindades secundárias. Essas divindades, intermediárias entre o ser humano e o Ser Supremo, desempenham funções protetoras especiais, ligadas aos vários aspectos da vida humana.

Os primeiros indivíduos da espécie humana, unindo a humanidade ao Ser Supremo, constituem o elo inicial da cadeia da vida. Esses ancestrais longevos foram os primeiros aos quais o Ser Supremo comunicou a própria força vital e o poder de fazê-la agir sobre toda a sua descendência. Depois deles, estão situados os heróis civilizadores, aqueles que, por delegação do Ser Supremo, desenvolveram ações criativas decisivas no acréscimo da força vital, na organização e no aprimoramento de suas comunidades.

Entre essas divindades secundárias, ocupam lugar especial os espíritos dos mortos ilustres que atingiram a condição de ancestrais. Abaixo dos heróis civilizadores e ancestrais, e influindo poderosamente sobre os humanos, estão os espíritos e gênios.

Já os espíritos e gênios são divindades secundárias com atribuições diferentes daquelas dos antepassados. Por sua natureza e proximidade em relação ao Ser Supremo, podem levar até Ele, louvores, súplicas e oferendas enviados pelos humanos e d’Ele obter resposta. Uma vez que essas divindades gozam de liberdade e independência, o que elas transmitem aos seres humanos não provém necessariamente do Ser Supremo. Assim, elas podem ser agentes tanto de benefícios quanto de malefícios.

Alguns dos espíritos e gênios são protetores e guardiões de indivíduos, grupos e localidades, e podem habitar em objetos, sítios e lugares, de forma temporária ou permanente. Eles receberam do Ser Supremo a tarefa de vigiar e administrar certos locais, os quais só podem ser utilizados com a sua devida autorização. Nesses casos, são identificados por um nome próprio que especifica suas funções e características ou indica o lugar em que habitam. Eles têm também a responsabilidade sobre as pessoas que vivem nesses locais e podem puni-las em caso de falta ou recompensá-las a seu bel-prazer.

Entre os espíritos e gênios, estes últimos são, especificamente, a expressão da força vital dos fenômenos naturais, como o raio, o vento, o arco-íris, as epidemias, etc.

Tanto o Ser Supremo quanto as divindades, os antepassados e os seres humanos, enfim, tudo o que existe no Universo, interage em obediência a regras extremamente precisas por meio de sua respectiva força vital.

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N.A. A fonte destes ensinamentos (reunidos a outros em nosso “Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africanos”, de 2005, esgotado) está no artigo “Deuses e homens da África”, publicado na edição nº. 4, da revista Correio da Unesco, em abril de 1982. Observamos que estes princípios norteiam toda a Religião Tradicional Africana, base de todas as formas religiosas afro-originadas expandidas por todas as Américas, como a Tradição de Ifá, as diversas variantes do Candomblé, etc. Eles constituem um patrimônio alienável dos afrodescendentes e de todos os praticantes de religiões filosoficamente boas. E como boa parte deles integram também o saber de outras religiões respeitáveis, são trazidos aqui a este espaço para a comunhão de todos. Parafraseando o poeta e sábio católico Leopold Senghor (1906-2001), acrescentamos que, como a nossa Identidade Negra, nossa Religiosidade deve estar sempre em simbiose com todas as religiões do Bem, ajudando-as à construção de um Humanismo que seja autêntico, porque totalmente humano. E totalmente humano porque formado pelas contribuições positivas de todas as religiões verdadeiras deste Planeta. (NL)

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