VEVÉ DA VILA TEM CADA UMA!… ( Mais um Nei Lopes na “rede”)

(em memória de Edson Lobo, o “Lobinho”)

Em memória de Edson Lobo, o “Lobinho”

Vevé da Vila já fez “de um tudo” no samba e na vida. E houve uma época em que andou com mania de locutor. Então, foi ser o “comunicador” nas programações da Escola.

Como sabemos, o povo do samba sempre foi muito chegado a uma religião. Qualquer uma. E isso era fartamente comprovado pelo “Botequim”, roda de samba que a Escola do Vevé promovia nas tardes de sábado.

O “Botequim” começava com um feijão caprichado, antecessor das recorrentes e padronizadas feijoadas de hoje. Com muitas atrações, recrutadas não só no próprio ambiente das escolas como no meio radiofônico. E para agradar o espírito religioso dos sambistas, o Vevé tinha inventado uma “Ave Maria”. Que acontecia, pontualmente, às 6 horas da tarde, qualquer que fosse a atração ou a visita.

Nessa hora santa, ele, o comunicador, depois de pedir a atenção e o silêncio de todos, acenava para o DJ que botava lá o disco da “Ave Maria de Gounod”, num solo de violino acompanhado por piano. Então, ao som dessa conhecida e respeitada peça do repertório sacro, ele, como um Julio Louzada ou um Haroldo de Andrade, recitava a famosa oração do Anjo anunciando a boa nova à Virgem Maria.

Só que, naquele fim de tarde, mais ou menos por volta das 17h50, um pequeno desentendimento gerou um dos maiores conflitos já registrados num terreiro de samba. Cadeira, mesa, garrafa, baqueta de surdo, varetinha de tamborim, tudo servia como arma. Soco, tapa, pontapé, rabo-de-arraia, rasteira, banda cruzada… Valia tudo!

Brigava velho, mulher e criança! Brigavam baianas, passistas, ritmistas, vendedores de churrasquinho, diretores, autoridades, convidados e representantes da imprensa especializada. Vevé da Vila, no palco, nervoso mas controlado, olhava os ponteiros do relógio, em contagem regressiva. Até que eles, os ponteiros, chegaram à “posição de sentido”. O velho aceno para o DJ e o ar se impregnou de santidade, com o som do violino e do piano. E, como que por encanto, os brigões foram depondo as armas, numa trégua espontânea, ampla e irrestrita.

Aí, a voz do Vevé ecoou ainda mais sentida, declamando os versos da popular oração: “… Cheia de graça… Bendita sois vós…” O silêncio e a concentração eram totais, absolutos. “Rogai por nós, pecadores…”

Mas, no último acorde, do piano, exatamente quando o Vevé dizia “agora e na hora da nossa morte, amém” um vozeirão gritou lá do fundo:

– Nossa morte? É ruim, hein!? A morte é de vocês, seus comédias ! —  No que voou uma garrafa, uma cadeira, quatro mesas… E começou tudo de novo.

Locutor e comunicador, nas programações, a função do Vevé era não só anunciar as atrações como fazer comunicados de interesse do público e da agremiação; mas ele resolveu fazer isso com bossa, intercalando provérbios e filosofias em suas falas, agora cheias de “esses” e “erres”.  Como por exemplo, nesta:

“Atenção, visitantes! A agremiação não se responsabiliza por pertences ou bolsas abertas deixadas sobre as mesas e nas costas das cadeiras. Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas!”. Ou nesta, anunciando a exibição de uma passista gostosona após a apresentação de um samba muito ruim, do tipo boi-com-abóbora: “Deus escreve certo por linhas tortas. E após a tempestade vem a bonança. Com vocês, Taís: o terremoto nos quadris!!!”.

Só que, de vez em quando, Vevé dava uma bicadinha num conhaque, pra abrir a voz. E foi assim no dia em que o Governador do Estado – um coroa animado e festeiro que também apreciava um aperitivo — adentrou a quadra, acompanhado da primeira-dama e de sua comitiva, sob a seguinte apresentação do Vevé:

“Senhoras e senhores! Nesta noite de gala, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos da Caramboleira tem a subida honra de anunciar a presença de Sua Excelência, o Governador do Estado da Guanabara, embaixador Adalberto de Azeredo Lima e sua ilustríssima esposa, Dona Ilma., primeira-dama do nosso Estado!”.

A bateria deu aquele rrrrrrruuuuuuflo prolongado. Palmas. E o comunicador arrematou: – “Quem canta, seus males espanta, Governador! Então, Cante! Cante e suba com Dona Ilma. na Caramboleira, Excelência!!!”

Surdo. Pandeiro. Cavaco… O puxador entoou o samba campeão daquele ano. E foi levando, cadenciado, até a entrada da bateria.

Que noite linda! O governador tomando todas, a primeira-dama também, já descalça e meio descabelada. E o Vevé inspiradíssimo: “Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza! Prove do nosso tempero, Governador!”.

Acontece que, lá pras tantas, nosso locutor, já bastante chamuscado, pressentiu ou imaginou algo de errado (uma cena de ciúmes, talvez) entre o primeiro casal do Estado. E não contemporizou:

“Longe dos olhos, longe do coração, governador! Em mulher não se bate nem com uma flor”.

Então, o samba comendo, os sambas-enredo concorrentes acabando de ser apresentados, na semifinal do concurso, o comunicador, cada vez mais direto, cutucava:

“Quem ama o feio, bonito lhe parece! Mas… Em mulher não se bate nem com uma flor”.

Até que Sua Excelência levantou, ajeitou os suspensórios, vestiu o paletó, e iniciou as despedidas, seguido pela primeira-dama.

Então, o locutor anunciou: “Quem parte leva saudades de alguém que fica chorando de dor. Neste momento, retiram-se do nosso recinto o Governador, a primeira-dama e sua comitiva. Deste singelo palanque, o locutor que vos fala, gostaria de dirigir uma última mensagem a Sua Excelência”.

Expectativa. Silêncio. Então, totalmente livre das amarras, esquecendo que a língua é o chicote do corpo, o Vevé assinou sua sentença de morte:

“Em mulher não se bate nem com uma flor, Governador! Mas se Dona Ilma. vacilar, meta-lhe a porrada!!!”.

Terminou ali a carreira de locutor do Vevé, inapelavelmente expulso do quadro social da Agremiação.  Mas anistiado pela diretoria seguinte.

Conto de Nei Lopes, publicado na Revista de literatura lusófona ‘Pessoa’.

4 ideias sobre “VEVÉ DA VILA TEM CADA UMA!… ( Mais um Nei Lopes na “rede”)

  1. Diga lá, mestre Nei: esse Vevé foi inspirado em algum(ns) comunicador(es) que conheceste nas andanças do samba? Aliás, os locutores de escola de samba são um capítulo a parte da nossa História!

    Saudações

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