UM ROMANCE QUE LEVA A MUITOS LUGARES

Não faz muito tempo, todo carioca, nativo ou adventício, sabia que a vasta área do centro do Rio, limitada ao norte pela rua São José; pela avenida Beira Mar ao sul; a oeste pela Rio Branco e a leste pela Perimetral, constituía uma espécie de sub-bairro chamado “Castelo”. O que talvez muitos não soubessem é que essa denominação era redução da expressão “Esplanada do Castelo”, nome que tomou a área após a demolição da colina que lá se erguia, o Morro do Castelo.

UmRomance

Até pelo menos a década de 1960 (quando “A Esplanada” era também o nome de uma loja de roupas masculinas), o local era de freqüência obrigatória. E isto porque, numa circunstância imitada por Brasília, a área abrigava a primeira “esplanada dos ministérios”, com o do Trabalho, o da Fazenda e o da Educação e Cultura, que lá ocupavam majestosos palácios, ainda de pé, além de outras construções históricas, como o hospital da Santa Casa de Misericórdia.

Arrasado entre 1921 e 22, o outrora Morro do Descanso ou de São Januário (desculpem, rubro-negros!) sediou a administração civil da cidade desde 1567 e abrigou por cinco décadas a metropolitana. O castelo que lhe deu o nome definitivo foi antes um forte e depois a sede administrativa; e a igreja que lhe era vizinha, consagrada ao padroeiro São Sebastião e base dos padres capuchinhos, após o desmonte foi transferida para o bairro da Tijuca, onde na década seguinte inaugurou-se o templo atual, na rua Haddock Lobo.

Durante a chamada Belle Époque, período da História mundial que se estendeu do fim do século XIX até a Primeira Guerra, e no Rio se prolongou até a Revolução de 30, a cidade transformou-se radicalmente. E nesse afã modernizador ela perdia, segundo opinião geral, uma parte considerável de seu patrimônio histórico e dos genes de sua identidade.

Não obstante, até hoje, ouvidos treinados a escutar além do que normalmente se ouve, ao subirem o que restou da Ladeira da Misericórdia – a “Ladeira para lugar nenhum” que dá título a este belíssimo romance – certamente hão de ouvir as vozes dos cerca de 5 mil despejados, em coro com as de João do Rio, Lima Barreto, Luiz Edmundo, Machado de Assis, etc. Ao fundo, o som dos angomas e ganzás do canzuá de João Gambá de Luanda, que Edmundo consagrou como “a mais típica das orquestras macumbeiras da cidade”; e a massa coral do Flor do Castelo e do Prazer do Castelo, dois dos cinco cordões carnavalescos lá sediados na primeira década do século XX.

Marco Carvalho, artista do traço e da palavra, mandingueiro de altos rabos-de-arraia e negaças, íntimo dos orixás e voduns, ouviu e interpretou os subterrâneos do Morro do Castelo. E deles retirou este tesouro, mais faiscante que os supostamente abandonados pelos jesuítas lá em cima.

Do baú, a sensibilidade do romancista trouxe Salomão e a Rainha de Sabá redivivos, muitos séculos depois, no arrebatador caso amoroso do Padre Ernesto com a mulata Rosário – a sotaina judaico-cristã sofregamente enrolada no pano-da-costa jeje-nagô. E o fez num texto rigorosamente histórico, sem deixar de ser fantástico e extraordinário. Um texto capaz de enlevar, elevar e levar o leitor a vários lugares, principalmente para o da identidade já quase reduzida a pó desta cidade única. Cidade em que, neste momento, infelizmente, para muitos, “Castelo” é apenas aquele prédio vermelho mourisco da Fiocruz, vizinho do Alemão e da Maré. Cidade patrimônio e capital fundamental, que artistas como Marco Carvalho teimam em não deixar demolir, desfazer, arrasar.

Nei Lopes

**

PS: Sábado 11, Livraria Folha Seca/Toca do Baiacu. Bohêmia gelada, bacalhau com brócolis, pasteizinhos de camarão, samba-jazz ao vivo, as presenças luminares de Alberto Mussa, Luiz Antonio Simas, Rodrigo Ferrari, César Panamá, o “rei dos chapéus”Marco Carvalho metendo a caneta nos autógrafos. E a gente lá, a céu aberto, na Rua do Ouvidor! Isso é que é lançamento de livro à carioca, sem nenhuma tucano bicando nossos tira-gostos e nossos altos papos.

Uma ideia sobre “UM ROMANCE QUE LEVA A MUITOS LUGARES

  1. Só de ler o seu artigo já estou me coçando de vontade de ler o livro.Na frente ainda está O Senhor do Lado Esquerdo,do amigo Musa e tem ainda seu ultimo livro,depois engato nesse Uma Ladeira.Sou fascinado pelo assunto Morro do Castelo,não sei se sabe mas ali,na rua da ajuda tem uma LEITERIA,sim, uma LEITERIA,que dizem era uma das entradas do Morro do Castelo.Tenho pesquisado algo na área e fica clara a intenção de ”LIMPAR”, a cidade,isolar os inconvenientes moradores dessas áreas.Tal projeto continua em curso agora com o nome pomposo de PORTO MARAVILHA.O Eufemismo da hora é REVITALIZAÇÃO DA ZONA PORTUÁRIA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *