MILTINHO: BARBA, CABELO E BIGODE

Em 1960, este Velhote que vos fala era um rapazinho irajaense que já namorava o Salgueiro, escola de samba da zona norte, mas “lá de baixo”, do sopé das matas do Sumaré, no Maciço da Carioca (presta atenção, Bispo Ricardo!). Mas sem deixar de gostar das vizinhas Portela, Império e Aprendizes de Lucas. O namoro tinha por base, principalmente, a maior identificação étnica, pela força dos enredos que a escola tijucana vinha preferencialmente apresentando desde 56.

Miltinho (1928-2014)

Miltinho (1928-2014)

Identificação étnica era também o que levava o moço que eu era, entrando na maioridade relativa, a gostar muito da música americana dos “soul brothers”, que então chegava ao Brasil – o impacto veio mais de Little Richard e Fats Domino do que de qualquer outro. Muito embora a “cozinha” dos Cometas de Haley (não confundir com os “Cometas do Bispo”) também me balançasse um bocado, mesmo porque só era branca na aparência. E foi aí que o Miltinho, falecido anteontem, entrou na minha vida, inclusive deixando nela gravada uma impressão indelével, marcada por um fato hoje quase inacreditável.

Era uma “luminosa manhã”, igual àquela de Haroldo Barbosa e Luiz Reis. Na barbearia que existia quase na esquina da minha rua com a Estrada (hoje avenida) Monsenhor Félix, havia um tumulto, provocado pela presença lá, tranquilamente fazendo a barba e aparando o bigode, daquele cantor de voz anasalada e balanço inimitável que fazia sucesso no rádio com os sambas “Menina Moça” e “Mulher de Trinta”, de autoria de Luiz Antonio. Ele, simplesmente, tinha ido ao velório de uma senhora de sua família (Dona Germânia, avó do Maurício), talvez direto da boate onde cantava; e aproveitara a vizinhança do salão do Alaim pra dar um trato no visual, antes do sepultamento. Naquele tempo, “famoso” era adjetivo, e não substantivo; e cantor de boate, rádio ou TV era um trabalhador como outro qualquer.

Miltinho cantava na “noite”, num ambiente em que, além das canções românticas, se tocava e cantava sambas altamente dançantes (enquanto a bossa-nova privilegiava um “samba de concerto”, só para ouvir, sentadinho). Foi aí que se desenvolveu uma vertente do samba em que pontificaram compositores da Zona Sul, como Luís Antônio, Luiz Bandeira, Miguel Gustavo, Billy Blanco, Macedo Neto, Luís Reis, Haroldo Barbosa, etc. E isso ocorria nos mesmos ambientes e contextos em que os trios de piano-baixo-bateria começavam a formatar o samba-jazz ou sambop.

Em plena efervescência desse novo samba, o ano de 1960 marca a estréia em LP dos cantores Elza Soares e Miltinho. Ele, vocalista e pandeirista tarimbado em conjuntos vocais e crooner de orquestras e conjuntos de boate desde os anos 40, lançava, no LP “Um novo astro”, um repertório sambístico quase que totalmente inédito. Ela, ex-favelada, estreava com “Se acaso você chegasse”, acompanhada por grande e vibrante orquestra. No ano seguinte, Elza lançou o histórico A bossa negra, com um repertório onde se destacavam sambas antológicos como “Tenha pena de mim”, “Beija-me”, “Só vendo que beleza (Marambaia)” e “Cadeira vazia”.

Miltinho era um bamba do samba sincopado, estilo em que o deslocamento das acentuações rítmicas, característico da música africana e afro-originada, é levado às últimas conseqüências, às vezes até dando a impressão momentânea de que a divisão rítmica está errada. E seu disco de estréia, produzido pelo bossanovista Durval Ferreira, é, em termos interpretativos, um claro exemplar de samba-jazz, principalmente pelas intervenções do inesquecível flautista e sax-altista Jorginho, uma espécie de Paul Desmond brasileiro. Além do restante do time, onde cintilam o violão de Baden Powell; a guitarra de Neco, cobrão dos “Ipanemas”; um trio de piano-baixo-bateria da maior responsa (Celso Pereira, Célio Damásio e Maurício); e uma dupla de percussionistas (Humberto e Nilson) espertíssima.

Com Miltinho, então, vai-se embora mais um pouco do SAMBA, que os bobinhos pensam que é apenas uma música de carnaval e os bobalhões insistem em chamar de “ritmo”, embora saibam que é um gênero e uma cultura. Miltinho, que não era bobo, sabia. E conhecia os trinômios “bossa, balanço e cadência” e “pose, ritmo e variedade”. Então, fez “barba, cabelo e bigode”.

Agora, consciente do dever cumprido, o carioca Milton Santos de Almeida (1928-2014) descansa em paz.

FONTE: Lopes, N et Simas, L.A. “Dicionário da História Social do Samba” (no prelo, Editora Civilização Brasileira)

2 ideias sobre “MILTINHO: BARBA, CABELO E BIGODE

  1. Desde criança, sempre fui um fã de Miltinho. Sua respiração, o acento e a divisão rítmicas me encantavam. A velha guarda vai se reunindo em outros planos… Siga em paz.

  2. É Nei, daqui a pouco irei me transformar num sambista-kardecista, rsrsrs

    Bispo Ricardo (não confundir com Bispo Ma-cedo ou Bispo Ma-tarde)

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