MEMÓRIA DE NELSON CAVAQUINHO PEDE UM DESAGRAVO

nelsoncavaquinho

Em 1969, era lançado o curta-metragem “Nelson Cavaquinho”, roteirizado e dirigido por Leon Hirszman (1937–1987), e saudado como um dos  grandes filmes do celebrado cineasta carioca da Boca do Mato, filho de judeus poloneses fugitivos do nazismo e  militante do PCB. Segundo sua biografia, Hirszman “num momento de crise política nacional e crise pessoal, exercitou o seu lado de documentarista ligado à realidade do país e de seu povo, ao mesmo tempo em que partiu para a experimentação radical, vivendo uma dualidade que seria marca de seu modo de estar no mundo: o delírio, a fantasia e a racionalidade pé-no-chão” (cf. Enciclopédia do cinema brasileiro, São Paulo, Ed. Senac, 2000, p. 294). E foi aí que Nelson Cavaquinho “dançou”.

Quando o filme foi lançado, o “poeta dos cabelos cor de prata” tinha 58 anos; e ainda viveria mais dezessete. Três anos depois do lançamento, Nora Ney gravava “Quando eu me chamar saudade”, parceria de Nelson com Guilherme de Brito, cuja letra pede: “Me dê as flores em vida / O carinho, a mão amiga / Para aliviar meus ais…”. Mas, pelo menos no curta de Hirszman, as flores não vieram.

O filme, que assistimos aqui no Lote pela primeira vez esta semana, pelo canal pago Arte+1, entristece e deprime. Fiel à estética da época, o que se vê nele é um desfile de pobreza, quase miséria; muito consumo desregrado de álcool – inclusive por crianças pequenas, numa cena que o “Estatuto da Criança” hoje reprovaria… E quase nada da grande e inigualável música de Nelson Cavaquinho. Que de flores, mesmo, embora após sua partida, ganhou foi com o belo CD com Leny Andrade, produzido pelo inolvidável Paulinho Albuquerque (Velas, 1995); no primoroso duplo “Degraus da vida – Nelson Cavaquinho, 100 anos”, idealizado e realizado por Rodrigo Faour; e também no “Se você me ouvisse” do grupo Sururu na Roda, igualmente lançado por ocasião do Centenário.

Falta agora um filme. Mostrando, aí sim, o Nelson que nós todos admiramos: o grande músico, violonista criador de uma estética única e até hoje não igualada; e o grande personagem (e narrador) de casos pitorescos, muitos deles ainda na memória daqueles que tiveram o prazer de conhecer sua verve, nada trágica nem miserável.

Então, cineastas! Luz, câmera, ação! Desagravo, urgente!

4 ideias sobre “MEMÓRIA DE NELSON CAVAQUINHO PEDE UM DESAGRAVO

  1. Não sei como era a vida do grande Nelson Cavaquinho, mas, de qualquer forma, o vídeo perde um tempo valioso, quando poderia mostrar a genialidade do sambista e não apenas um vácuo psicológico (que provavelmente nem é verdadeiro).

  2. Se pelo menos mostrasse aquele ponteado batucado e aquelas harmonizações que ele fazia ao violão… Eu confeso que nunca vi ninguém tocar daquele jeito. Foi um ESTILISTA! Isso é o que precisa ser dito.

  3. Lá pelos anos 80 assisti, aqui na terrinha, um show da Beth Carvalho com o Nelson Cavaquinho, já conhecia, porém, “ver ao vivo” o Nelson
    pinicando as cordas daquele jeito, era muito diferente, alguns amigos até que tentaram pinicar as cordas só que, além daquele jeito de tocar, tinha também as harmonias, ai meu caro não dá, né não?
    Dia do meu casamento, 22 de julho de 1972 (sábado), vou para SP e no dia seguinte viajar para o Rio passar a tão esperada lua de mel. Em São Paulo, chegamos no apto. para pernoitar, ligo a TV(Cultura) e lá está. Nelson Cavaquinho. A tão esperada lua de mel, por causa do Nelson ficou para o Rio mesmo.

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