SARAVÁ, PRETOS VELHOS!

Há 126 anos era assinada e promulgada a polêmica Lei Áurea, que em apenas 1 artigo, sem dizer mais nada, extinguia a escravidão no Brasil. Por isso, a tradição consagra o dia de hoje como o dia de reverenciar a memória das vítimas diretas do escravismo, o que é feito com danças, cânticos, rezas em louvor aos pretos-velhos.

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A falange dos pretos-velhos compreende, como sabemos, entidades masculinas e femininas, tidas como espíritos purificados de africanos escravizados no Brasil. Os antigos cultos bantos brasileiros (como a cabula, que está na raiz da umbanda mais tradicional; e o omolocô, que é a umbanda reafricanizada) cultuavam ou cultuam os “bacuros”, tidos como espíritos da natureza, que jamais teriam encarnado. O termo provém do quicongo “mbakulu”, ancião, antepassado.

Entre os povos congos ou bacongos, os velhos do começo da criação do mundo, ou seja, os primeiros antepassados, são chamados “Ba-kulu Mpangu”. Da mesma forma, numa antiga modalidade de culto, conhecida como “guiné”, os espíritos dos negros velhos, antigos sacerdotes, eram cultuados sob o nome genérico de “tata massâmbi”, onde o elemento banto “tata”, pai, liga-se ao vocábulo congo “nsambi” (traduzido como “aquele que reza, que roga através de orações”). Nesses bacuros e tatas é que, provavelmente, está a origem dos pretos-velhos e pretas-velhas. Como Vovó Romana.

Sempre exemplos de bondade, carinho e sabedoria, essas entidades agem como ancestrais protetores, aconselhando e admoestando, quando necessário. Fumando cachimbo, vestindo roupas simples, apresentam-se descalços e são chamados de “pai”, “vovô”, “tio” etc., como Vovó de Ganga, Vovó Maria Redondo, Tia Maria de Mina, Pai Joaquim de Mina, Pai Joaquim d’Angola, Pai Joaquim de Aruanda, Pai Cabinda da Guiné, Vovô Congo etc.

Observemos que, em Cuba, a célebre etnóloga Lydia Cabrera registrou, em sessões de espiritismo, a presença de espíritos de velhos africanos referidos, como no Brasil, pelos tratamentos “taita, ta” (pai) ou “ña” (mãe), como Taita José, Ña Francisca, ou por denominações étnicas ou de procedências, tais como Ta Lorenso Lucumí, Juan Mandinga ou el Mina, el Gangá, el Macuá etc.”. Essas entidades representariam como que uma tentativa de recriar, nas Américas, o culto aos ancestrais que a escravidão inviabilizou – pois uma das mais nefastas conseqüências do escravismo foi a dessocialização, a despersonalização e a coisificação de suas vítimas (cf. Luiz Felipe de Alencastro, “O trato dos viventes”, Companhia das Letras, 2000, pag, 144).

Daí, a importância dos pretos-velhos e de suas contrapartes femininas. Como a Vovó Maria Conga de nossa infância (que o estimado antropólogo Rolf de Souza não conheceu, mas sabe quem é). Como o Vovô Congo e todos os outros e outras, veneráveis vovôs e vovós do panteão umbandista.

Saravá!

3 ideias sobre “SARAVÁ, PRETOS VELHOS!

  1. Pois é meu velho amigo mais uma demonstração de preconceito e
    intolerância contra as religiões afro-brasileiras. Veja a decisão do Juiz da
    17a. Vara Federal do Rio de Janeiro. “Manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem religião”.
    “Pois não tem texto sagrado e uma só divindade”.
    126 anos depois e está tudo como dantes no quartel dos mandantes.
    Muito triste tudo isso meu velho.

    Saravá
    Renê Ruas

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