CAMAFEU DE OXÓSSI, SÃO JORGE E PIXINGUINHA (Para Joel Rufino, mestre dos mestres)

Na década de 1960, chamava a atenção do hoje concessionário deste espaço, então um jovem acadêmico do Salgueiro, uma chula gravada por Camafeu de Oxóssi (1915-1994), ícone da cultura afrobaiana, com a seguinte reclamação cantada: “São Jorge na linha de umbanda é Ogum/ Não me conformo de jeito nenhum”. Intrigados, fomos buscar a resposta; que nos parece ser a seguinte:

Em toda a Diáspora, ao associarem orixás, inquices e voduns a santos católicos, os nossos mais-velhos respeitosamente, trouxeram para o seu domínio, através de analogias, as divindades de seus patrões ou proprietários . E isto para acréscimo de sua força vital e quase da mesma forma pela qual alguns reis guerreiros da Antigüidade entronizavam em seus templos os deuses dos adversários vencidos. O fato de certas comemorações das religiões afro-brasileiras serem realizadas em dias santificados pelo catolicismo pode ser visto, também, como resultado de uma estratégia dos oprimidos pela escravidão: como não tinham folga em seu trabalho a não ser nos dias santificados dos brancos, eles usavam esses dias para fazer também as suas comemorações, à sua moda.

Ápio Patrocínio da Conceição, o “Camafeu de Oxóssi”

Ápio Patrocínio da Conceição, o “Camafeu de Oxóssi”

Daí, por exemplo, os nagôs da Bahia e seus descendentes, biológicos e rituais, comemorarem Oxóssi no dia de Corpus Christi (já em Portugal havia uma procissão de São Jorge nesse dia e o Santo Guerreiro, para o povo negro, era um caçador, pois que matou um dragão); Ogum no dia de Sto. Antônio (Sto. Antônio era titular de uma patente no Exército Brasileiro, então era um guerreiro).

Uma outra estratégia de associação partiu da representação icônica dos santos católicos. Oxóssi, por exemplo, cultuado na África como uma das divindades da caça e, por conseguinte como um orixá do mato, foi associado na Bahia a São Jorge, pelas razões já apontadas, e, no Rio de Janeiro, a São Sebastião (que é representado amarrado numa árvore dentro do mato); Ogum, na África, o Orixá do ferro e conseqüentemente da guerra, é identificado na Bahia com Santo Antônio, como já vimos, e, no Rio de Janeiro com São Jorge, representado de armadura e portando uma lança.

Mas o grande Camafeu de Oxóssi jamais se conformou. Pra ele, o Dono de sua cabeça era São Jorge/Oxóssi. E fim de papo.

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São Pixinguinha (nascido no dia de São Jorge de 1898), pelo que sei, não esquentava a flauta nem o sax nem a cabeça com essas complicações de sincretismo. Para ele tanto fazia o choro, o chorinho ou o samba. O importante era música. E boa.

Tanto que nas cerca de 240 obras de sua autoria, listadas em sua biografia pelo nosso Sergio Cabral, pai, contam-se 77 tipificadas como “samba”. Elas abrangem o período de 1918, começando com “O malhador”, qualificado como “samba carnavalesco”, até 1940, com “Você não deve beber”.

Um exemplo interessante no repertório desse grande mestre é o “Urubu”, mencionado na Enciclopédia da Música Brasileira como “samba”. Ressalte-se que na mesma obra, logo abaixo, é relacionado, como choro, “Urubu malandro”, de autoria atribuída a João de Barro e Louro e gravado em 1943. Ouvindo-se a gravação do primeiro, instrumental, feita na época dos Oito Batutas, percebe-se a melodia da versão mais conhecida, com letra. E essa letra parece ser a mesma, levemente alterada, de um samba folclórico baiano, recolhido na cidade de Sobradinho em 1949, referido com o texto seguinte: “Urubu foi pra Bahia/ com fama de dançadô/ Quando chegou na Bahia/ urubu nunca dançô/ Dança, dança, urubu/ Eu não sei, sinhô”.

Persiste, então, a dúvida sobre o significado do vocábulo ‘chorinho’: apenas um diminutivo para expressar o choro em andamento acelerado; ou um estilo de samba, essencialmente instrumental, eventualmente com letra?

Mas São Pixinguinha não se importava com essas coisas. Ele tinha mais o que fazer. E como fazia!…

(NL – 23.04.2014)

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