VEDETES, DOUTORES, PASSISTAS; POETAS, BOLEIROS, ARTISTAS; BANDIDOS, POLÍTICOS, LOUCOS; DE TUDO UM POUCO… VEM AÍ “RIO NEGRO, 50”

No dia 17 de julho de 1950, a derrota do “escrete” brasileiro na Copa do Mundo, motiva um assassinato absurdo, de fortes conotações racistas. O crime é discutido na roda do Café e Bar Rio Negro, epicentro da vida intelectual dos “homens de cor” na Capital da República. E repercute também no Abará, apelidado “Colored”, bar freqüentado pelo pessoal das boates, do samba e do futebol, também no centro da cidade.

Grande Otelo e Vera Regina

Grande Otelo e Vera Regina

No Rio Negro, destaca-se a figura de Paula Assis, boêmio e advogado, o qual, ferido em seus brios, resolve acompanhar o processo resultante do crime, atuando contra os acusados, como assistente da promotoria.

E, no Abará, pontifica a vedete Norma Nadall, apontada como pivô de outro crime, no qual Assis defende um dos acusados, Nelsinho Lorde, sambista da fictícia escola de samba Aristocratas do Salgueiro.

Nesse contexto histórico transcorrem as tramas do romance “Rio Negro, 50”, cujo texto aborda, de forma ficcional, acontecimentos decisivos da década, como, por exemplo: a militância do Teatro Experimental do Negro; a assinatura da Lei Afonso Arinos; a morte de Getúlio Vargas; a fundação do primeiro clube social da classe média negra carioca; a conquista da primeira Copa do Mundo por uma seleção brasileira de futebol; o início da transformação do espetáculo das escolas de samba; o protagonismo do samba nos musicais das boates; o crescimento das favelas; a expansão das religiões de matriz africana e a conseqüente reação da Igreja Católica, etc.

“De quebra”, a trama passa também pelo advento da Revolução Cubana e pelo planejamento de um assalto cinematográfico que virá ocorrer na década seguinte.

Observe-se que os anos 50 também marcam a retomada, no Brasil, de um movimento de reconhecimento da contribuição do Negro à vida cultural brasileira. Por esse tempo, revivem organizações culturais e políticas negras, abafadas durante o Estado Novo; criam-se ou se expandem organizações importantes, como o Renascença Clube e A União dos Homens de Cor. É nesse contexto, de afirmação da escola de samba Império Serrano, que nascem as revolucionárias escolas de samba Acadêmicos do Salgueiro e Mocidade Independente; que se consolida o Teatro Experimental do Negro; que se formata a dança afro, com Mercedes Batista; que reluzem os musicais de Carlos Machado, em que o samba tem papel importante; em que desponta o imenso talento criativo e interpretativo de Dolores Duran, Johnny Alf, Alaíde Costa, etc., (esquecidos formadores da bossa-nova) e que se promulga a Lei Afonso Arinos, de combate à discriminação racial.

Foi um tempo em que os movimentos de valorização e reconhecimento da cultura africana, na África e também nos Estados Unidos, contribuem para uma discussão mais livre e reivindicatória sobre a posição do negro no Brasil. E no qual, entre nós, a palavra “negro” ainda soava derrogatória, preferindo-se hipocritamente referir o indivíduo afrodescendente como pessoa “de cor” ou, de modo falsamente delicado, como “colored”.

Coloreds são, nesse momento, a maioria dos mais reconhecidos músicos brasileiros e dos maiores jogadores de futebol – para ficarmos só nesse campo; embora em muitos outros brilhassem filhos do povo negro.

Este é, então, o ambiente em que transcorre o romance “Rio Negro, 50”, no período que vai do dia 17 de julho de 1950 ao 31 de dezembro de 1959; da humilhação da Copa de 50 aos preparativos para a inauguração de Brasília. Nele, desfilam vedetes, misses, sambistas, bandidos, artistas, intelectuais, sociólogos, jogadores de futebol, músicos, políticos, empresários, padres, pais-de-santo etc. Numa trama simples, cujo objetivo maior é mostrar o protagonismo dos afro-cariocas nesse momento histórico fundador.

“Rio Negro, 50” é mais um lançamento Record. E leva a chancela do “NEI, Núcleo de Experimentos Interdisciplinares”. Oba!

3 ideias sobre “VEDETES, DOUTORES, PASSISTAS; POETAS, BOLEIROS, ARTISTAS; BANDIDOS, POLÍTICOS, LOUCOS; DE TUDO UM POUCO… VEM AÍ “RIO NEGRO, 50”

  1. AMIGOS! O TEXTO ACIMA MISTUROU UM POUQUINHO OS TEMPOS DOS VERBOS (PASSADO E PRESENTE). MAS A PRESSA É AMIGA DA IMPERFEIÇÃO… E DA INTERDISCIPLINARIDADE DO N.E.I. (rs,rs,rs)

  2. Rsrsrs, só o Velhote mesmo.

    Mas uma obra pra minha estante.

    Estou relendo Mandingas da Mulata Velha e Guimbaustrilho.

    Que textos prazeirosos

  3. Aguardo ansioso mais esta obra-prima do N.E.I.!
    Esses dias reli “20 contos e uns trocados”…rapaz, vai escrever com tanta inteligência, humor e sentimento lá no Irajá! Ao conhecer sua obra em ficção, meu interesse pela literatura urbana carioca reacendeu. É muito bom reconhecer família, amigos e conhecidos como possíveis personagens nos seus contos e livros.

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