LIVRO DE OURO E EVOLUÇÃO

Uma palavra que frequenta o vocabulário do carnaval carioca há muito tempo é “subvenção”. Definida nos dicionários como “subsídio ou ajuda monetária advinda do poder público”, no cotidiano das escolas de samba, ela se refere à verba anual recebida para a realização do desfile.

livro de ouro

Esse tipo de apoio remonta ao início da Era Vargas, provavelmente ao carnaval de 1932, quando era mencionado como “auxílio municipal”. Para alguns, foi o meio que as autoridades de então encontraram para dominar as agremiações populares e, com isso, domesticar as massas inquietas, não tão “mansas e pacíficas” quanto sempre quiseram os poderosos.

Mas além da famosa subvenção (para cuja obtenção, segundo a lenda, algumas vezes foram aplicados pequenos golpes, como registros de araque, endereços fictícios etc.) muitas agremiações, do samba, dos ranchos, dos frevos etc., também recorreram a apoio privado através da prática do “livro de ouro”.

No conto “Caprichosos da Tijuca”, da coletânea Stella me abriu a porta, o escritor Marques Rebelo inclui um episódio, talvez por ele vivenciado, em que o narrador, depois de solicitado a colaborar com o livro de ouro, comparece a um ensaio da agremiação que intitula a peça, a qual é mencionada como um “rancho”; mas tem tamborins e cuícas no seu conjunto musical.

Outrora apenas um caderno pautado com o qual se recolhiam contribuições financeiras mediante a assinatura do doador, o “livro” agora é eletrônico. E a responsável pela novidade é a Estação Primeira de Mangueira. Segundo os jornais, a querida verde-e-rosa estaria treinando oito belas passistas para, nos ensaios, coletar doações de turistas e visitantes com maquininhas de cartão de crédito e débito (Cf. Gente Boa, O Globo, 13.01.2014).

Evolução é isso aí! De ouro já chega o Estandarte. E subvenção é um quesito em extinção.

(FONTE: “Dicionário da História Social do Samba” – Nei Lopes & Luiz Antonio Simas – em finalização)

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