AFRODESCENDÊNCIA DE ARAQUE

A desonestidade endêmica que corrói o sistema social brasileiro acaba de gerar uma nova categoria etnorracial: a do “afrodescendente de araque”.

O primeiro espécime é um candidato aprovado no concurso para ingresso no Instituto Rio Branco, o “Itamarati” – nome que, curiosamente, em tupi pode se traduzir como “pedra alvíssima” e em guarani como “pedra manchada na ponta”.

20130913-080835.jpg

Barão do Rio Branco

Está nos jornais de hoje: o aprovado tem pele alva, olhos claros e um segundo sobrenome que parece indicar origem mediterrânea oriental. Mas se declarou afrodescendente; e, na classificação final, passou a frente de concorrentes pretos e pardos.

Pode ser um bendito fruto da sempre exaltada mestiçagem brasileira. Pode ser. Mas se não for, é bom que se saiba que usar de artifício, ardil ou de qualquer tipo de fraude, para induzir alguém a erro e, assim, obter vantagem ilícita, para si ou para outrem, é crime – o popular “171”, muitas vezes cometido por um personagem nosso, celebrizado como “Estélio, o Nato”.

É um “crime” também (ou, pelo menos, uma grande maldade) admitir a “autodeclaração de raça” como o único critério para se fazer jus aos beneficios da Lei de Cotas. É o mesmo que abolir a escravidão com apenas 1 artigo – direto, lacônico, curto e grosso – sem medir as conseqüências, como fez aquela leizinha de 13 de maio de 1888.

É desacreditar todas as políticas de inclusão social que se vêm tentando; e estimular a repetição daquelas outras, postas em prática na República Velha; e que geraram muito desse tudo de ruim que a gente sofre aqui.

**

P.S: “De araque” = falso, sem valor.

4 ideias sobre “AFRODESCENDÊNCIA DE ARAQUE

  1. Sim, é bem esquisito. Mas se não for por autodeclaração, qual vai ser o critério? Comprovação de ancestralidade africana? Como se faz isso, de um jeito prático e que atenda à maioria da população afrodescendente?

  2. Alexandre Tomé - pesquisador de cultura e religião de matrizes africanas. em disse:

    Infelizmente ainda não se descobriu uma forma de evitar esse tipo de fraude. Sempre haverá alguém se autodeclarando negro para usufruir vantagens indevidas.

  3. É complicado, o critério único de ancestralidade auto-declarada numa sociedade onde o preconceito é de marca (os traços físico aparentes é que determina a posição na pirâmide estamental das relações) e não o preconceito de origem, como nos EUA (onde pouco importa a pigmentação da pele e outros critérios de aferição, se houver ascendência negro-africana, já tá discriminado) sempre abrirá fendas para os mal intencionados, conquanto, se espere lisura e confiabilidade de todos envolvidos no processo. Um dia desses, meu pai, negão dos negões, foi buscar sua bisneta na creche e houve um pequeno mal entendido, pois a criança é loura, de olhos verdes, e traços caucasianos (o seu outro bisavô é neto de holandês). Quando essa minha sobrinha/neta crescer e se autodeclarar ‘afrodescendente’ causará estranhamento, embora o ‘Bispo’ no sobrenome dela seja um indício de afrobrasilidade, mas se ela tivesse o sobrenome do outro parentesco, um nome amsterdanês? A grande questão é qual a finalidade das políticas de ações afirmativas? Mitigar o processo excludente que paira imanente sobre as relações e a prática social no Brasil. Exclusão essa que se dá pela aparência. O rapaz do caso do Itamaraty, assim como a minha sobrinha/neta quando crescer, dificilmente, serão preteridos no crivo parcial dos mecanismos de segregação sutil que se opera em quase todas as instâncias desse país, não sofrerão o perrengue que nós pretos sofremos nessa sociedade desigual

  4. Toda vez que há uma política focalizada surge o problema da identificação, é inevitável. Certamente há gente fora do limite da renda do Programa Bolsa-Escola sendo beneficiada, por exemplo. Que tal montar uma comissão da comunidade para resolver casos duvidosos, se há dúvida quanto à cor do candidato, vamos ver qual é a percepção da sociedade sobre ele. Uma vez já disseram: “Para resolver o problema de identificação, basta chamar a polícia. Ela sabe quem é negro e quem é branco, pois atira mais no negro que no branco”. Ora, se a sociedade brasileira é capaz de distinguir na hora de discriminar, por que não seria capaz de fazer o mesmo na hora de promover a igualdade?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *