DR. JULIANO MOREIRA E OUTROS MAIS – Célebres médicos afrodescendentes na História do Brasil

O recente caso dos médicos e médicas cubanos discriminados em algumas cidades brasileiras por seu fenótipo de afrodescendentes, motivou matérias jornalísticas expondo a realidade da medicina no Brasil.

Juliano Moreira - Cientista e médico nascido em Salvador, BA, em 1873 e falecido no Rio de Janeiro, em 1933 (acima em foto da juventude)

Juliano Moreira – Cientista e médico nascido em Salvador, BA, em 1873 e falecido no Rio de Janeiro, em 1933 (acima em foto da juventude)

Segundo uma dessas matérias, apesar de o contingente de negros (pretos e pardos) representar hoje 50,7 % dos brasileiros, a proporção de formados em medicina dentro de toda a população nacional é de apenas 14,9%.

Diante desse quadro, e para mostrar que, em determinados aspectos, a igualdade ainda está bem longe de ser alcançada, buscamos em nossos arquivos uma relação de médicos afrodescendentes que entraram para a História, muitos deles, hoje, com nomes em monumentos e placas de ruas.

A ordem é alfabética; e a seleção só abrange alguns dos que se celebrizaram. Vejamos:

Alfredo Casimiro da Rocha – Médico e político nascido em Salvador, BA, em 1854 e falecido em Cunha, SP, em 1933. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1878 transferiu-se para a cidade paulista de Cunha, onde se tornou uma das pessoas mais influentes. Além de médico conceituado, foi vereador, deputado estadual e deputado federal. Antes de falecer, ocupava o cargo de prefeito nomeado do município.

Caetano Lopes de Moura – Médico e escritor nascido em Salvador, BA, em 1780 e falecido em 1860. Era professor em sua cidade natal quando se viu envolvido na Revolução dos Alfaiates, em 1798. Mudou-se então para Portugal, onde se diplomou em Medicina na Universidade de Coimbra e integrou o Corpo de Saúde do Exército, durante a Guerra da Península. Depois, doutorou-se na França, em cujo Exército se alistou. Foi médico de Napoleão Bonaparte, de quem escreveu alentada biografia, publicada em 1846. São também de sua autoria um Dicionário histórico descritivo e geográfico do Império do Brasil e mais 34 livros, incluindo traduções de escritores ingleses e franceses.

Domingos Alves de Melo – Médico e professor nascido na Bahia em 1851 e falecido em Salvador, BA, em 1897. Irmão de José Alves de Melo (ver abaixo), foi, como ele, docente na Faculdade de Medicina da Bahia.

José Alves de Melo – Médico e professor nascido na Bahia em 1847 e falecido em Salvador, BA, em 1901. Foi lente de Física na Faculdade de Medicina da Bahia, onde também lecionou seu irmão Domingos Alves de Melo (acima).

Juliano Moreira – Cientista e médico nascido em Salvador, BA, em 1873 e falecido no Rio de Janeiro, em 1933 (acima em foto da juventude). Doutorou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia, onde, mais tarde, foi professor de Clínica Médica. Psiquiatra inovador, em 1902 assumiu a diretoria do Hospital Nacional de Alienados. De sua iniciativa foi a lei de assistência aos alienados, promulgada em 1903 e regulamentada no ano seguinte. Nela amparado, promoveu importante obra de reforma e aparelhamento no hospital sob sua direção e aprimorou a Assistência a Psicopatas, instituição pública de que foi diretor-geral por 28 anos. No campo da literatura médica, escreveu e publicou obras de grande valor. Um dos cientistas brasileiros de maior renome, foi membro de inúmeras instituições científicas, como a Antropologische Gesellschaf de Munique, a Société de Médecine de Paris, a MedicoLegal Society de Nova York e a Medico-Psychological Association de Londres. Sua obra publicada reúne mais de cem títulos, entre trabalhos científicos e de outra natureza, destacando-se Assistência aos alienados no Brasil (1906), Les maladies mentales au Brésil (1907) e A evolução da medicina brasileira (1908).

Laurindo Rabelo – Poeta e cantor, nascido e falecido na cidade do Rio de Janeiro, onde viveu de 1826 a 1864. Formado em medicina em 1846, com grandes dificuldades financeiras, foi médico do Exército. Misto de cantor popular e renomado poeta, é patrono, na Academia Brasileira de Letras, da cadeira nº 26, criada por Guimarães Passos.

Lucindo Filho – Nome literário de Lucindo Pereira dos Passos Filho, escritor nascido em Diamantina, MG, em 1847 e falecido em Vassouras, RJ, em 1896. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi combativo abolicionista. Deixou vasta obra, na qual se incluem trabalhos médico-científicos, poemas, ensaios históricos e estudos gramaticais.

Luís Anselmo – Médico e historiador brasileiro nascido em Santo Amaro da Purificação, BA, em 1853 e falecido em 1929. Foi professor de Física Médica da Faculdade de Medicina da Bahia e autor de livros científicos.

Manuel Feliciano Pereira de Carvalho – Médico brasileiro nascido e falecido na cidade do Rio de Janeiro, onde viveu de 1806 a 1867. Catedrático da Faculdade de Medicina, foi presidente da Academia Imperial de Medicina e o primeiro cirurgião brasileiro a fazer uso da anestesia moderna, surgida por volta de 1840, nos EUA. Foi também general-de-brigada e cirurgião-mor do Exército. Segundo o escritor Francisco de Assis Barbosa, tinha grande semelhança física com o escritor Lima Barreto, de quem se supõe ter sido bisavô, por força de união com a africana Maria da Conceição, escrava de sua família.

Manuel Maurício Rebouças – Médico brasileiro nascido na Bahia e falecido em 1866. Irmão de Antônio Pereira Rebouças e tio do abolicionista André Rebouças, após participar da Guerra da Independência na Bahia (182223) foi estudar na França, onde se formou em Medicina.

Martagão Gesteira, Joaquim – Médico nascido em Conceição de Almeida, BA, em 1884 e falecido em 1954. Diplomado pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1908, foi diretor, no Rio de Janeiro, do Instituto de Puericultura e do Departamento Nacional da Criança, destacando-se por sua administração humanitária e inovadora. Em seu estado natal, fundou a Liga Baiana contra a Mortalidade Infantil. Verdadeiro benemérito da Humanidade, sua memória está perpetuada na denominação de hospitais e logradouros públicos.

Nunes Garcia – Nome pelo qual foi conhecido José Maurício Nunes Garcia Júnior, médico, artista plástico e músico nascido e falecido na cidade do Rio de Janeiro, onde viveu de 1808 a 1884. Filho do célebre , filho do Padre José Maurício, nas artes, estudou música com o pai e pintura com Jean-Baptiste Debret. Professor de Anatomia Humana e Belas-Artes, deixou publicados livros científicos e um volume contendo sua obra de compositor.

Salustiano Ferreira Souto – Médico e político nascido em Vila Nova da Rainha, BA, em 1814 e falecido em Salvador, BA, em 1887. Professor da Faculdade de Medicina da Bahia, onde foi catedrático de Química Orgânica e Medicina Legal, deputado geral e provincial entre 1862 e 1879, foi conselheiro do Império. Criador do primeiro Jardim Botânico de Salvador, foi também um dos líderes da comunidade malê baiana e um dos mestres mais queridos por seus correligionários e alunos.

Soares de Meireles – Sobrenome pelo qual foram conhecidos dois médicos brasileiros. O primeiro, Joaquim Cândido Soares de Meireles, médico e político nascido em Sabará, MG, em 1777 e falecido em 1868. Doutor pela Faculdade de Medicina de Paris, foi médico da Imperial Câmara, fundador da Imperial Academia de Medicina, instalada no Rio de Janeiro em 1831, e cirurgião-mor da Armada, na Guerra do Paraguai. O segundo, Saturnino Soares de Meireles, nascido no Rio de Janeiro em 1828 e falecido em 1910, foi membro do Conselho do Imperador; professor da cadeira de Física da Escola de Marinha e fundador do Instituto Hahnemanniano do Brasil.

Soares Dias – Educador e médico brasileiro nascido em Vassouras, RJ, em 1864 e falecido na cidade do Rio de Janeiro em 1928. Ex-tipógrafo, foi uma das figuras mais expressivas do magistério municipal carioca. Aos cinqüenta anos, decidiu estudar Medicina, tornando-se famoso médico homeopata. Foi também poeta, assinando, com o anagrama Rosaes Sadi, variada publicação em jornais de seu tempo. Mas foi, sobretudo, conhecido pela elegância no trajar, o que lhe valeu o epíteto de “Brummel Negro”, em alusão a George Brummel, personagem elegante da corte inglesa entre os séculos 18 e 19.

Tito Lívio de Castro – Médico e escritor científico nascido no Rio de Janeiro, RJ, em 1864 e falecido em 1890. Menor abandonado, foi criado pelo português Manuel da Costa Pais. Escreveu A mulher e a sociogenia (1887), alentado estudo antropológico, e As alucinações e ilusões, na área da psiquiatria, ambos publicados postumamente. Sílvio Romero, em sua História da literatura brasileira dedica todo um capítulo à análise de sua obra.

Torres Homem – Sobrenome comum a dois ilustres brasileiros afrodescendentes do século 19, João Vicente (1837-1887), e Francisco de Sales (1812-1876), ambos nascidos e falecidos na cidade do Rio de Janeiro. O primeiro, médico da Imperial Câmara e professor da Faculdade de Medicina, legou à posteridade vasta obra técnico-científica, inclusive um pioneiro O abuso do tabaco como causa da angina do peito, de 1863; e faleceu na posse do título de barão de Torres Homem. O segundo abandonou os estudos de medicina para seguir carreira jornalística e política. Foi deputado-geral em dois mandatos, chefe de uma das diretorias do Tesouro Nacional, ministro da Fazenda, diretor do Banco do Brasil, senador do Império e encarregado de negócios em Paris. Faleceu na posse do título de visconde de Inhomirim. O nome da rua, no bairro de Vila Isabel, celebrizada por ter abrigado residências de ilustres personagens da vida carioca, homenageia este Torres Homem.

**

Acrescente mais nomes a essa lista!

3 ideias sobre “DR. JULIANO MOREIRA E OUTROS MAIS – Célebres médicos afrodescendentes na História do Brasil

  1. Justiniano Clímaco da Silva – “… Pois bem, Justiniano Clímaco nasceu preto e pobre em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 1908. Filho de carpinteiro e criada doméstica, cismou de imitar o Dr. Bião, médico da cidade. Queria ser como ele. Então virou preto, pobre e pretensioso. Tanto fez que lhe arrumaram estudos num seminário e cama na casa de uma tia em Salvador. Daí, preto, pobre, pretensioso e persistente, não virou padre, mas bacharel em Ciências e Letras. Depois virou professor do ginásio, deu aulas de matemática e latim, o que pagaria o preparatório para a Faculdade de Medicina da Bahia. Entrou. Fez o curso. Formou-se em 1933 numa classe com 95 alunos, contabilizados aí uma única mulher e ele, o único negro. Topou com a notícia de que a Companhia de Terras Norte do Paraná, firma inglesa que loteava uma vasta área do Estado, recrutava braços para a lavoura, apesar do avanço do tifo e da febre amarela. Pensou: se tem doença, precisa de médico. É lá que eu vou.

    Assim começa a maior viração do Doutor Preto, 50 anos de clínica, mais de 30 mil pacientes, fundador de hospitais na região e tema de trabalho acadêmico de Maria Nilza da Silva, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A pesquisa da socióloga, da qual participou a aluna Mariana Panta, dá conta de um “escravo da medicina”, usando expressão do médico cubano vaiado em Fortaleza. Justiniano Clímaco chegou em 1938 a uma Londrina sem luz elétrica para acionar o infravermelho que trouxe de Salvador. Fervia e flambava os próprios instrumentos, não tinha raio X, anestesiava os pacientes com máscaras de clorofórmio, rastreava tumores por apalpação, ouvia pulmões e corações longamente. Dizia: “Clínica geral tem que ser feita assim: sem pressa”. Foi pioneiro no uso da penicilina ao tratar doenças sexualmente transmitidas, que proliferavam numa fronteira agrícola com gente de tudo quanto é lugar. Com o tempo, arrumou um Ford 28 para atender na roça e levar casos graves até Curitiba – 400 quilômetros por terra, dois dias de viagem.

    Cobrava de quem tinha para pagar. E aceitava uma leitoinha, ou um queijo caseiro, por serviços prestados. Da clínica que abriu inicialmente, Casa de Saúde Santa Cecília, passou a se articular com os mais influentes para criar instituições como a Santa Casa de Londrina e a Sociedade Médica de Maringá. Chegou a arrancar do presidente Dutra os tostões necessários para um hospital de tuberculosos em Apucarana, depois transferido para Londrina. Hoje ali funciona o Hospital Universitário, centro de referência médica do norte do Paraná. Um belo dia Doutor Preto achou que seria bom provar do poder. Disputou uma vaga como deputado estadual, foi o quinto mais votado, mas odiou os anos na política, vividos solitariamente numa pensão em Curitiba. Queria voltar para a clientela. E dela não mais se separou.

    Voltou também para a garotada do ginásio, ele que se tornara poliglota – falava além de grego e latim, alemão e francês. Perguntavam-lhe por que dar aulas, afinal, já suava o jaleco. “Docendo discitur”, respondia. Ensinando é que se aprende. Só um dia perdeu as estribeiras com paciente.

    O sujeito marrento o interpelou no corredor do hospital, perguntando pelo Doutor Clímaco. Ouviu um naturalíssimo “sou eu”. E rebateu com um insultuoso “não vem não, negão, vai logo chamar o médico”. Preconceito não só fere, como turva os sentidos. Justiniano Clímaco agarrou o homem e jogou-o no rua. Sem consulta. Fez cardiologista seu único filho, adotivo, e doou tudo para a cidade, inclusive a maleta de médico. A casa onde morou até morrer foi derrubada, mas seu nome continua de pé numa unidade básica de saúde. Neto de escravos, Doutor Preto teria algo a dizer aos médicos brasileiros que hoje vaiam médicos cubanos.”

    Laura Greenhalgh – Estadão – 31/08/2013

  2. Muito bom o trabalho que visa a informar sobre referências altamente positivas com a marca de afro-brasileiros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *