“BICHO SAGRADO” E FORÇAÇÃO DE BARRA

Noticiam os jornais a existência no Brasil de certo projeto “Bicho Sagrado”, criado para proteger animais que “seriam sacrificados” em rituais religiosos. A noticia menciona a Lei 9605/1998 que trata de crimes ambientais. E refere ainda a estranha apreensão de animais vivos ou moribundos em “despachos” encontrados em ruas do Rio e vizinhanças.

“Por isso, eu sacrifico ao Senhor todo primogênito dos animais, mas resgato todo primogênito de meus filhos” (Êx: 13.15).

“Por isso, eu sacrifico ao Senhor todo primogênito dos animais, mas resgato todo primogênito de meus filhos” (Êx: 13.15)

Ao que tudo indica, a matéria é mais uma tentativa de quebrar a espinha dorsal dos cultos às Forças naturais e Ancestrais divinizados trazidos da África durante o escravismo. Esses cultos, com seus saberes e sua filosofia, constituem-se em um dos principais legados deixados pelos africanos e descendentes cujo trabalho possibilitou a construção da nacionalidade brasileira. E que é hoje um dos valores constitutivos da identidade nacional, protegidos nos termos dos artigos 215 e 216 da Constituição Cidadã, significativamente promulgada em 1988, ano do Centenário da Abolição.

Lembremos que, nas práticas bem assimiladas e fundamentadas das religiões afro-brasileiras e afro-americanas em geral, o sacrifício ritual obedece à seguinte lógica: ao expirar, todo ser vivo libera energia vital; energia essa que vai se juntar à da divindade homenageada para reverter acrescida ao ofertante. Os animais sacrificados terão sempre suas partes comestíveis servidas como alimento em refeições comunitárias.

A energia de qualquer animal está no sangue; e é dela que se nutrem as Forças naturais e ancestrais propiciadas. Depois que sua energia, através do sacrifício, é absorvida pela Divindade, o corpo físico do animal servirá de alimento aos humanos. E seus restos, num processo simbólico de retorno, voltarão ao elemento natural determinado pelo Oráculo, quais sejam: o mar, o rio, a mata; ou a rua, o cemitério, e mesmo o lixo.

Saibam os “forçadores de barra” (em geral, freqüentadores de rodeios e churrascarias) que as oferendas rituais concluídas jamais incluem animais vivos, não sendo, portanto, passíveis das sanções previstas na mencionada Lei 9605.

Saibam, mais, que, já em junho de 1993, a Suprema Corte dos Estados Unidos – país que, para o bem e para o mal, sempre serve de exemplo – garantiu aos praticantes de cultos africanos o direito de sacrificar animais em suas cerimônias religiosas.

3 ideias sobre ““BICHO SAGRADO” E FORÇAÇÃO DE BARRA

  1. Mestre Nei,

    Depois de séculos de lutas dos nossos ancestrais para que o estado deixasse de perseguir nossas religiões de matriz africana, quando tudo parecia começar a se tranquilizar, apareceu essa turma de supostos, supostos cristãos. E eles foram crescendo, se organizando e estão tentando acabar com o estado laico. Nosso povo tem, sim, que ficar atento para isso. Eles sabem usar muito bem o racismo que está por aí, latente, e fazer aflorar o desrespeito a nossas religiões. Porque não dá para dissociar a tentativa de satanizar o candomblé do racismo. Não importa se o “pastor”é negro e se o candomblecista é branco, a base de pensamento contida é, sim, racista. E, como nosso país sofre desse mal, eles acabam ganhando até simpatia de muita gente.
    Essa turminha de um tempo para cá tem usado a inocência dos vegetarianos, veganos, veggies, para ter mais corpo. Se o problema é a morte dos animais, por que não tentam leis contra fábricas de couro, granjas, abatedouros? Porque a força do capital ali não deixa. Não dá nem para comparar a quantidade de animais “sacrificados”em matadouros com o número de bichos ofertados nos nossos terreiros. E todas as partes dos animais são usadas por nós, enquanto nos outros lugares…
    Hoje as pessoas compram animais “enlatados”, “processados” e se afastaram do mundo rural. Compram seu franguinho em um saquinho no supermercado e não vêem o que aquele animal passou, por isso se chocam quando ouvem falar que alguém matou uma galinha. Os supostos amigos da natureza estão tão longe dela que nem se lembram de como as coisas são…
    Vamos lá, gente, proíbam todos de rezar antes de comer um frango em casa. Seria algo tão absurdo quanto o que estão propondo.

    Abraços,

    Cabeleira (Luiz Antonio)

  2. Isso me cheira a intolerancia religiosa disfarçada de defesa dos animais. Sou umbandista e na Umbanda não sacrificamos animais, mas nem por isso deixamos de respeitar nossos irmãos candomblecistas, que utilizam esse ritual. Se essa ONG realmente se preocupa com os direitos dos animais, deveria se voltar para a crueldade industrial perpetrada nos abatedouros, granjas, etc. Basta assistir a domumentários como “A carne é fraca” para saber o porque. Pelo que conheço do Candomblé, os animais são tratados com respeito antes do sacrificio, são mortos de maneira rápida e sem grandes sofrimentos, e as carnes não são jogadas fora, depois do ritual são transformadas em alimento para a comunidade, excetuando-se apenas as partes consideradas quizila, como cabeça e patas. Pra terminar, uma pergunta: será que essas pessoas que combatem o sacrificio de animais são vegetarianas? Será que elas nunca comeram um bife, asa de frango ou mesmo um inocente ovo? Quanta hipocrisia!

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