A APOSTA DO DOUTOR LACERDA

Se é que as imagens transmitidas pela TV devam ser levadas em conta, a afrodescendência (ao menos a identificável pela aparência) não se tem feito presente, nem nas ruas nem nos novos estádios de futebol neste momento histórico.

Dr Lacerda

O biólogo João Batista de Lacerda (1846 – 1915)

Nas manifestações de rua, ao que observamos no Rio de Janeiro, acreditamos que, em principio, a ausência se dê pela característica predominantemente “universitária” (de estudantes e profissionais) da mobilização, pelo menos em sua origem. Outra causa poderia ser o fato de que, a partir de 1988, a atuação do movimento negro foi significativamente absorvida pelos diversos órgãos públicos criados para trabalhar a questão da cidadania.

Quanto ao futebol, acreditamos que os estádios “padrão FIFA”, com os preços salgados dos ingressos, acabaram por criar uma elite de espectadores, na qual infelizmente a presença de afro-brasileiros ainda é rarefeita.

Neste momento duplamente histórico, ao que parece, restaram aos afrodescendentes, notadamente aos pretos e muito pouco aos pardos (classificações oficiais, do IBGE) assistir o futebol nas tevês dos botecos e nos telões patrocinados. E, nas manifestações de rua, a muitos foi reservado o odioso papel de vândalos, de rebeldes aparentemente sem causa, camiseta no rosto e porrete na mão. Daí ser provável que lá no “andar de cima” (ou de baixo) o biólogo João Batista de Lacerda (1846 – 1915) esteja ingenuamente satisfeito.

É que em 1911, ele, nomeado pelo ministro da Agricultura como subdiretor da seção de antropologia, zoologia e paleontologia do Museu Nacional, fez em Londres, no I Congresso Universal de Raças, esse vaticínio:

Antes de um século, provavelmente, a população do Brasil será representada, em sua maior parte, por indivíduos da raça branca, latina, e no mesmo período, o negro e o índio terão sem dúvida desaparecido desta parte da América”.

Agora, então, lá em cima (ou em baixo) talvez de camisa amarela da CBF (ou da FIFA) e empunhando um cartaz a favor da PEC-37, o Doutor Lacerda deve estar zoando os mestres Manoel Bonfim (1868 – 1932), Guerreiro Ramos (1915 – 1982) e outros grandes craques da sociologia, assim:

 “Viram? Eu não disse??? Prá frente, Brazil, zil, zil !!!”

Mas é então que o professor Marcelo Paixão (COPPE/UFRJ), à mesa do nosso boteco virtual, saca a última edição do “Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil”, prova que as coisas não são bem assim; e dissolve a manifestação.

7 ideias sobre “A APOSTA DO DOUTOR LACERDA

  1. É isso Nei. Um milhão de pessoas nas ruas, quase vinte dias e não acontece nada. Tiros com balas de borracha nos meninos. Grita geral e com razão. Na Maré, sem manifestação, foram mortos nove com bala
    que mata. Isso porque a Tropa é de(da) Elite. Já pensou se fosse Tropa
    de pé de chinelo? Não houve grita geral. Penso cá com meus botões.
    Senzala mudou de nome. No Rio, Favela em São Paulo, Periferia.

  2. Nei, faço minhas as suas palavras. Olhei as manifestações daqui do Rio pela TV e me perguntei: cadê nossa gente bronzeada mostrando seu valor? Daí a explicação é bem isso que você comentou.
    Como estudante de História na UFRJ, e afrodescendente (pardo no IBGE e mulato pra mim mesmo, que eu acho muito mais bonito) posso dizer que pretos e mulatos são franca minoria dentro do instituto. É claro que existimos por lá, mas a composição étnica daquele ambiente está muito longe de representar a diversidade que nós encontraremos se pisarmos não muito longe do glorioso IFCS, dando um pulinho ali nas ruas do SAARA.
    Pior é escutar que isso “não tem nada a ver”, e que estamos “inventando coisas”…

    Um abraço de quem o admira profundamente.

  3. Pois é Nei. Assistindo alguns jogos do Brasil pela televisão fica a nítida impressão que a partida estava sendo realizada na Suécia, na França.
    Parecia até público de Tênis. Afrodescendentes só dentro do campo. Conseguiram elitizar a geral e arquibancadas. Torcedor padrão Fifa.

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