DE NOVO: ESCRITOR NEGRO, LITERATURA AFROBRASILEIRA

Nei Lopes

DE NOVO: ESCRITOR NEGRO, LITERATURA AFROBRASILEIRA

“Pesquisa revela que poucos escritores investem em temática aos excluídos Estudo sobre a literatura contemporânea mostra que há poucos personagens negros e pobres nas narrativas brasileiras — Nos últimos 10 anos, o número de escritores mulheres e negros pode até ter aumentado na literatura brasileira, mas não será tão significativo quanto o foi nos anos 1970. Os personagens de pele escura podem deixar de aparecer como bandidos ou empregados domésticos, mas a cor dos autores dificilmente será equilibrada. Enquanto a educação não mudar o mapa da classe média brasileira, a literatura permanecerá confinada a um quadrado que reflete a organização social do país em que pouco fala sobre a periferia desprivilegiada. O tema é um dos capítulos do livro Literatura brasileira contemporânea: um território contestado, que a pesquisadora Regina Dalcastagnè acaba de lançar pela Editora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Este é o lead da reportagem “Negro e pobre não viram romance”, de Nahima Maciel publicada na edição de 15.03.2013 de O Correio Braziliense”. Na matéria, um box com entrevista de Nei Lopes sobre assunto, cujo texto integral segue abaixo. 

EXISTE SIM ESCRITORES NEGROS FALANDO DE NEGROS NA ATUAL LIERATURA BRASILEIRA: E EU FAÇO A MINHA PARTE! 

A pesquisa aponta que 72,7% dos escritores são homens e 93,9% são brancos. Na sua opinião, porque não há tantos escritores negros, oriundos de comunidades? 

R: O universo do livro, no Brasil, tornou-se extremamente excludente. E digo “tornou-se” porque desde o século XVIII até a primeira metade do século XX, houve até certo protagonismo de escritores negros (pretos e mulatos), quase nunca mencionados como tal, por ser, nesse tempo, infamante esse tipo de menção. Permita-me citar alguns: Padre Antônio Vieira, neto de uma mulata, serviçal, em Lisboa, da família do Conde de Unhão; Silva Alvarenga (1749 – 1814), poeta; Basílio da Gama (poeta, 1741 – 1795), poeta; Paula Brito (1809 – 61), importante editor, livreiro e escritor, impulsionador da carreira de Machado de Assis; Luiz Gama (1830 -82), poeta; Teixeira e Souza (1812 -61), autor do primeiro romance nacional; Machado de Assis; Cruz e Sousa; Lindolfo Rocha (1862 – 1911), mineiro, autor dos romances Iacina: dispersão dos maiacaiaras e Maria Dusá; Lima Barreto (1881-1922); Mário de Andrade (1893 – 1945), Rosário Fusco (1910 – 77), modernista mineiro, destacou-se no grupo reunido em torno da revista Verde; Jorge de Lima (1895 – 1953), autor de belos poemas de inspiração afrobrasileira e assinalado como “mulato” por Artur Ramos e outros autores. Solano Trindade (1908 – 74), poeta e ativista negro; Lino Guedes (1906 – 1951), poeta de São Paulo, focalizado em antologias internacionais; Joel Rufino dos Santos; Muniz Sodré, Marilene Felinto, jornalista e romancista. Auta de Souza (1876 – 1901), primeira poetisa negra da literatura brasileira; Pedro Kilkerry (1885 – 1917), poeta precursor do surrealismo e do modernismo; os poetas Galdino de Castro, Henrique Castriciano e Astério de Campos; Carolina Maria de Jesus… ADENDO: Acrescento que, no meu entender, a ausência do escritor negro na literatura brasileira, hoje, é fruto dos mesmos mecanismos de exclusão que operam nos círculos da cultura, em geral. Nesses círculos, legitimadores e difusores, as relações estabelecidas desde os bancos escolares, e até mesmo de vizinhança, são fundamentais: o editor, o crítico literário, o dono de livraria etc., muito raramente são negros ou moradores nos subúrbios e periferias, onde se concentram as massa afrodescendentes. Daí, a dificuldade das trocas; e até mesmo o caráter estereotipado dos personagens criados pelos escritores reconhecidos. 

O que o senhor acha da quantidade de escritores negros do país? Esse número é inexpressivo? Está aumentando? Existe hoje algum nome que apontaria como destaque na literatura? 

R: Dizer que o número de escritores está aumentando, ou não, seria leviano. O que posso dizer é que cada vez mais se torna invisível a produção dos literatos afro-brasileiros. Digo também que há uma nova geração de intelectuais negros forjada nos meios acadêmicos, na qual conheço gente que tem lugar garantido entre os literatos. Cito um, como exemplo: o historiador Flávio dos Santos Gomes, dono de um rol de obras publicadas capaz de fazer inveja a muito membro da ABL. No campo da poesia e do experimentalismo cito os poetas Salgado Maranhão, já bem conhecido, e Ricardo Aleixo, de Belo Horizonte. 

Na sua visão, qual é o perigo em ter escritores tão segmentados (homens, brancos, de classe média, moradores de centros urbanos)? 

R: O perigo é a consolidação da estereotipação, que reserva aos mulatos e pretos (mais ainda a esses) determinados lugares e papéis na sociedade brasileira e na economia da cultura em particular, como os do entretenimento e do esporte. 

Apenas 7,9% dos personagens são negros. Contudo, 75% dos personagens negros são pobres e 20,4%, bandidos. Comente esse dado, por favor. 

R: O clichê, o estereótipo, chega até o personagem. Segundo as leis de mercado vigentes, o que vende é o negro visto (voyeuristicamente), sob o prisma da marginalidade e da miséria. E, dentro daquela lógica do “compre que todo mundo está comprando” e “é verdade porque ‘deu’ na televisão”, o publico lê e acha que é só isso mesmo. 

Quarto de despejo, de Maria Carolina de Jesus, foi traduzido para 13 línguas, mas continua esquecido na literatura brasileira. Porquê? É pelo fato de a autora ser mulher, pobre, negra; os três fatos juntos, ou não? O esquecimento deve-se ao brasileiro consumir o que é ditado pelos meios de comunicação? (em tempo: a pesquisa diz que dos 258 livros estudados, apenas 3 protagonistas eram negras e mulheres). 

R: Carolina Maria de Jesus teve inclusive posta em dúvida sua legitimidade como autora; e isso deve ter contribuído para o seu apagamento da memória literária brasileira. Mas é antologizada e estudada nos meios acadêmicos lá fora. Talvez se tivesse lançado seu romance na década de 2000 teria “arrebentado a boca do balão”, com direito a filme, minissérie de TV e tudo o mais. 

Fique a vontade para ir além das perguntas e tocar em outros pontos que considere pertinente. 

R: A saída para os escritores afrobrasileiros, e que fazem literatura comprometida com sua circunstancia étnica, como é o meu caso, têm sido as edições em regime de cooperativa ou as editoras “étnicas”; ou ainda aquelas com segmentos especializados. Da minha parte, em 2006 publiquei por uma grande editora um livro de contos densos, ambientados no mundo do samba (“Vinte contos e uns trocados”, Record), do qual eu gosto muito e que foi bem recebido pela crítica, mas não aconteceu. Tenho um romance na Língua Geral, editora que “linca” África e Brasil, e a coisa vai indo. Tenho outro na Pallas, especializada em cultura afro-brasileira que ainda pode ser que apareça. E um mais recente, editado pela portuguesa Babel Editora, que se lançou no Brasil com meu romance e implodiu. 
Apesar disso tudo, vou em frente. Se depender de mim, existe, sim, literatura negra no Brasil. Eu faço a minha parte. 

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AGUARDEM A INAUGURAÇÃO DO NOVO LOTE. COM FESTA.

6 ideias sobre “DE NOVO: ESCRITOR NEGRO, LITERATURA AFROBRASILEIRA

  1. bEM, ESSA QUESTÃO DA LITERATURA NEGRA SÓ SERÁ RESOLVIDA DEFINITIVAMENTE QUANDO,NÓS,NEGROS,PRESTIGIARMOS AUTORES NEGROS.POR QUE O ROMANCE RAIZES DE ALEX HAYLE,TORNOU-SE UM BESTSSELER MUNDIAL ?POR QUE TONI MORRISON GANHOU O PREMIO NOBEL ?SIMPLES DE RESPONDER.OS NEGROS AMERICANOS LEEM SEUS AUTORES,NÓS NÃO.

  2. Conceição Evaristo,Fernando Conceição,autores consagrados,ela autora de PÓNCIO VIVENCIO,livro adotado no vestibular da UFMG,,ele escritor baiano,jornalista,autor da biografia de Milton Santos são representantes da atual Literatura Negra.São conhecidos da grande midia mas não atingem o grande publico,sobretudo o publico negro.Ana Maria Gonçalves publicou seu romance de estréia,Um Defeito de Cor. O livro foi elogiado por Millor Fernandes mas também não aconteceu.O que acontece?Uma das respostas seria a de que não formamos um publico leitor negro ainda.Outra resposta para o fato é que os meios de comunicação não dão o devido destaque aos autores negros.Talita Rebouças,por exemplo é um sucesso midático,e nossa Conceição Evaristo ?

  3. FERNANDO NOLASCO SYLVESTRE:
    O MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO É COLONIZADO E JOGA O JOGO DOS “MILHÕES DE CÓPIAS JÁ VENDIDAS”, COMO TODA A ESTRUTURA COMERCIAL DESTE MUNDO MENTIROSO EM QUE VIVEMOS. É AQUELE PAPO: “TODO MUNDO ESTÁ COMPRANDO; ENTÃO TEMOS QUE COMPRAR TAMBÉM”. NO DIA EM QUE UM DE NÓS VENDER 1 MILHÃO DE CÓPIAS ( E ESPERO QUE ESSE 1 SEJA EU), A PORTEIRA VAI SE ABRIR.

  4. Enquanto não saboreio ‘Poétnica’ vou incursionando nas ‘Incursões Sobre a Pele’.

    Salve Nei, a Lei, o Rei

    Andanças do flautista Alberto de Mendonça pelo arrabalde de dona clara e adjacências

    Naquele tempo,
    Sob as ondas
    Difusoras, educadoras
    Do Brasil novo,
    A maxambomba ía a Sapopemba
    Como uma tuba tocando maxixe

    E o flautista Alberto de Mendonça
    Ía com seus sapatos carrapeta
    Esmagando rosas pelo chão…”

    Das janelas abriam-se convites
    Para um choro a mais no fim do dia
    Para um seio à mão no fim da noite
    Para uma cerveja Cascatinha
    Para um batizado no domingo

    O flautista Alberto de Mendonça
    Ía andando em compasso de valsa
    Quando, então, saía dentre a noite
    Inimaginável lobisomem
    Aliás, comum em Dona Clara
    O flautista Alberto armava a flauta
    Executava dois ou três compassos
    E era bastante para domar o monstro

    Toda a noite livre à sua frente,
    Ia andando Alberto de Mendonça
    Com seu passo leve de quem dança.
    Borboletas pretas veludosas
    Num cortejo, abriam o seu caminho
    E um perfume oriental, discreto
    Ía ficando em toda Dona Clara,
    Magno, Turiaçu e adjacências

    Naquele tempo,
    Sob as ondas
    Difusoras, educadoras
    Do Brasil novo,
    A maxambomba ía a Sapopemba
    Como uma tuba tocando maxixe

  5. Acredito que a maior dificuldade ainda consiste nessa co-relalão escritor/editora. É muito difícil um ator negro conseguir passar pelo crivo dessas editoras mesmo essas que trabalham basicamente com literatura afrobrasileira. A pallas por exemplo se diz uma editora voltada para esse setor porém suas publicações são basicamente voltada a religiosidade não que seja ruim todavia nós somos múltiplos e temos que ser representado com toda nossa multiplicidade. Estou no segundo livro este ultimo é um romance com personagens periféricos e negros só que ainda não consegui nem uma resposta positiva e novamente vou ter que publicar por conta própria.

  6. Mas também de que vale passar pelo crivo das editoras e não ser lido? Há um problema maior, que é o seguinte: os autores brancos também não vendem. Tirando os caras que escrevem para o público nerd (sobre dragões, magos, bruxas etc.), qual autor que vive de literatura no Brasil? Ser publicado, nesse contexto, acaba sendo um fetiche, porque a publicação atualmente só tem importância se dá retorno financeiro. Se a questão for apenas conquistar leitores, a internet é muito mais eficaz. Vale mais fazer como a Ana Paula Maia, que começou postando seu livro — “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” — em um blog e a coisa foi se espalhando, até que chegou um momento em que as editoras mesmo queriam publicá-la.

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