PARABÉNS, CIDADE NEGRA! (Ao Rio, no seu aniversário)

Confeti

Ogã Rubem Confete, baluarte da Negritude na zona portuária

A expressão “cidades negras” é usada pela moderna historiografia brasileira para designar, na América escravista, territórios urbanos onde se concentraram, desde a época colonial, africanos e descendentes, criando, neles, organizações assistenciais, religiosas, recreativas etc. E o Rio de Janeiro, como Salvador, Havana, Cartagena etc., é uma delas. 

No século 16, com o sur­to de­sen­vol­vi­men­tis­ta da ca­na-de-açú­car, o Brasil co­me­ça a im­por­tar ma­ci­ça­men­te es­cra­vos, embarcados principalmente de Cabinda, Luanda e Benguela, sendo o fornecedor principal certo João Gutierrez Valério, dono da ­ilha das Cobras, utilizada co­mo de­pó­si­to de car­ga hu­ma­na. 

Na pri­mei­ra me­ta­de do sé­cu­lo seguinte, já ha­via vá­rios qui­lom­bos no Rio de Janeiro, bem pró­xi­mos ao nú­cleo da ci­da­de, nas ma­tas do Des­terro, ho­je Santa Teresa. Na pe­ri­fe­ria, es­sa pre­­sen­ça po­de ser ava­lia­da pe­los lo­gra­dou­ros até ho­je exis­ten­tes com as de­no­mi­na­ções de “ca­mi­nho do Quilombo”, “mor­ro do Quilombo”, em varias localidades da antiga “zona rural”. 

Com a descoberta de ouro e o início da exploração dessa riqueza na vizinha re­gião das Minas Gerais, a presença negra se intensifica. Assim, no século 18, registra-se a presença de pro­prie­tá­rios pau­lis­tas na cidade, com­pran­­do nu­me­ro­sos lo­tes de ca­ti­vos para em­pre­gá-los na mi­ne­ra­ção, e pa­gan­­do pre­ço ele­va­do por eles. Com es­sa gran­de de­­man­da, a eco­no­mia carioca vê es­bo­çar-se uma cri­se. Então, proí­be-se a ven­da de es­cra­vos das plan­ta­ções de ca­na e man­dio­ca, e ­criam-se dis­­po­si­ti­vos le­gais pa­ra a im­por­ta­ção de ne­gros, não só de Angola co­mo tam­bém da costa da Guiné e de Moçambique. 

Na virada para o século 19, a cidade abrigava uma população de 43.376 pessoas, sen­do 55% de pre­tos e mes­ti­ços, es­­cra­vos ou não. Pelo re­cen­sea­men­to então feito, conclui-se hoje que, dos 3 mi­lhões de es­cra­vos que in­gres­sa­ram no Brasil no século 18, um ter­ço en­trou pe­lo por­to do Rio de Janeiro. 

Ainda nos Setecentos, as ­ruas ­mais cen­trais da cidade eram palco de cenas deprimentes: a pas­sa­gem de afri­ca­nos re­cém-de­sem­bar­ca­dos, nus, su­jos, cha­ga­dos, doen­tes, causava mais nojo e vergonha do que compaixão. Então, resolveu-se con­cen­trar o co­mér­cio de es­­cra­vos em um só lu­gar, o Valongo (na região da atual Rua do Camerino), pa­ra on­de os ne­gros se di­ri­giam sem ter de pas­sar pe­las ­ruas do cen­tro, já que o lo­cal ti­nha seu pró­prio ­cais. 

A ci­da­de, po­rém, ape­sar das cir­cuns­tân­cias, nos ­dois pri­mei­ros sé­cu­los de sua his­tó­ria, via também pretos e mulatos em fes­ta. Nos cor­te­jos dos cu­cum­bis (encenações dramáticas com musica e dança) que vez por ou­tra ­saíam às ­ruas; nas co­roa­ções dos ­reis-con­gos que se rea­li­za­vam no ­adro da igre­ja de Nossa Senhora da Lampadosa, na atual Avenida Passos; e prin­ci­pal­men­­te nas “ban­das de bar­bei­ros”, en­tre ou­tras ma­ni­­fes­ta­ções de ar­te e de pra­zer, o povo ne­gro se di­ver­tia. 

No início do século 19, o Rio sediava o ­maior ter­mi­nal ne­grei­ro das Amé­ricas. Por vol­ta de 1840, a cidade, con­­tan­do en­tre ­seus ha­bi­tan­tes com 1/3 de emi­gra­dos da Áfri­ca e a maior po­pu­la­ção ur­ba­­na de es­cra­vos re­gis­tra­da des­de Roma, ti­nha os ares de uma ci­da­de afri­ca­na. Após a Guerra do Paraguai, con­tin­gen­­tes de sol­da­dos des­mo­bi­li­za­dos, majoritariamente negros, pre­fe­rin­do a ca­­pi­tal ao re­tor­no às pro­vín­cias de ori­gem, re­for­­ça­vam es­se as­pec­to. 

Sem essa gente, certamente não haveria hoje o Samba, e quase tudo o mais que caracteriza a Cultura carioca. E talvez o Rio não chegasse aos 448 anos com esse corpinho de 1,99. 

Parabéns, Cidade Negra! Daqui de longe, a 74 km de distância, te envio (com aquele coraçãozinho safado, feito com indicadores e polegares unidos) a letra que um dia escrevi pra você, em cima de uma complexa melodia do incomparável Guinga. Veja abaixo! 

NO FUNDO DO RIO 
(Guinga – Nei Lopes)
*Gravação original, com Guinga/Nei Lopes e locução do querido jornalista Sérgio Cabral, faixa nº 7 do CD “Cine Baronesa” – Guinga – Caravelas, 2001, produção do inesquecível amigo Paulinho Albuquerque, anterior a esta da cantora Masha Campagne, no vídeo.

Rio de Janeiro, Rio bandoleiro, 
Rio violeiro (Mocidade…) 

Nasci no fundo do Rio, sou um peixe arredio 
Caranguejo e siri (Acari, Bariri) 
Meu pé pisou muito barro mas tirei muito sarro 
Com a mãe do Amauri (perto dali, no Andaraí) 
E nos domingos de Ramos fui eu (mais eu) 
Bóia de pneu (com a irmã do Aristeu) 
Que brenhas e penhas subi no vaivém 
Da linha do trem. 

Rio de Janeiro, Rio presepeiro, 
Rio pagodeiro (Densidade…) 

Minha alma canta um pagode. Mas o cartaz diz “não pode 
Cantar neste bar” (Seu Manuel é de amargar) 
Virgem Maria da Graça me beija me abraça 
Mas não quer me dar (se namorar, é pra casar) 
É muita areia pro meu caminhão 
Mas que suspensão (Ai meu São Cosme e Damião!) 
Me leva contigo de kombi ou de van 
Pro Maracanã. 

Rio de Janeiro, Rio cascateiro, 
Rio do funkeiro, Rio de Janeiro… 

Me casei 
Com esta cidade bonitinha e má 
Sobrinha neta de Estácio de Sá 
Filha de Cunhambebe 
Baby, baby, baby, I love you 
Mas o meu samba não é de Bangu 
Um bairro bom mas quente pra chuchu, 
Minha moça bonita! 

Vou… pro Largo do Tanque 
Lá tem baile funk 
Tudo sangue bão 
Não tem alemão 
Rio de Janeiro (ad lib.)

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VEM AÍ O NOVO LOTE! AGUARDEM.

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