MAIS UM TREZE DE MAIO, MAIS UM RETROCESSO

Escrevo estas linhas no momento de mais um Treze de Maio, no ano em que meu saudoso pai, Luiz Braz Lopes, completaria também 128 anos, como a chamada “Lei Áurea”.

13MaioRetrocesso

Mas este é um momento não de júbilo e sim de constrangimento. Pela vergonhosa farsa em que um dos piores, se não o pior, grupo de parlamentares já reunido no País “inventou um crime para acabar com um governo”, como escreveu o professor Liszt Vieira, da PUC-Rio em artigo publicado ontem no Jornal O Globo.

Escrevo diante da foto do “novo” ministério, na qual não se vê, dos pontos de vista de gênero e etnicidade, ninguém que evoque, por exemplo, a simbólica imagem da Princesa Isabel nem as reais, efetivas e consequentes figuras de André Rebouças, Ferreira de Menezes ou Luiz Gama.

Triste Treze de Maio! Em que os muares (ou hienas?) vão empurrando a carroça de novo para trás, na direção do abismo.

Resta, entretanto, o consolo de, aos 74 anos recém completados, estar entregando à publicação, neste exato momento, mais um livro, o “Dicionário da História da África (séculos VII a XVI)”, concluído, depois de alguns anos, com a inestimável parceria do professor José Rivair Macedo, da UFRGS.

O dicionário tem por objetivo dar sequência ao trabalho iniciado.com a publicação, pela Editora Civilização Brasileira, do Dicionário da Antiguidade Africana, em 2011, inclusive com revisão e reinterpretação de alguns conteúdos. Focalizando, agora, momentos fundamentais da História Africana ocorridos no período imediatamente posterior, a obra cobre o período que vai da conquista árabe-islâmica do norte do continente, iniciada em 639 d.C. até a chegada dos primeiros exploradores europeus, no século XV e a queda do Império Songai ante o Marrocos, no século seguinte.

No corpus do dicionário procuramos estabelecer relações de causa e efeito entre fenômenos e eventos como: as formas de organização social herdadas de tradições imemoriais; o surgimento de unidades políticas criadas e expandidas por lideranças locais; o expansionismo dessas unidades fazendo surgir Estados e Impérios; o embate entre as ideias e interesses do Islã, do Cristianismo e da Religião Tradicional; as disputas pelo controle das fontes de riquezas e as rotas de comércio, principalmente as que ligavam o continente ao Mar Mediterrâneo e ao Oceano Índico.

Procuramos também demonstrar como a transmigração de riquezas africanas tanto pelo Saara e o Mediterrâneo quanto pelo Oceano Índico, inclusive de força de trabalho, proporcionaram crescimento econômico e político a muitas cidades e Estados, tanto na Europa quanto no Oriente. E como, para a Europa, as riquezas subtraídas à África nesse período prepararam a desestruturação do continente, pelo escravismo, nos séculos seguintes até a partilha da África pelas potências europeias no século XIX.

Por outro lado, o dicionário procura mostrar também a formação de Estados, confederações e mesmo impérios no continente africano, comprovando o papel dos africanos como sujeitos ativos de sua História, atuando a partir do domínio dos saberes e técnicas de sua tradição, inclusive do ponto de vista filosófico e religioso.

Acreditamos, com este trabalho, estar dando mais um passo no sentido de colocar a História dos africanos, negros ou não, em sua dimensão real e verdadeira – como preconizou o filósofo congolês Théophile Obenga; e reafirmando a importância de se registrar a História de africanos e afro-americanos, a partir de pontos de vista de estudiosos afrodescendentes e além da incomoda e nociva perspectiva do escravismo.

Enfim, estamos fazendo a nossa parte. Pela autoestima de nossos jovens; pela sua organização na direção das instâncias de poder; pelo seu esclarecimento diante de dogmas inaceitáveis e falácias como a demonização mercadológica de nossas tradições ancestrais. Tradições essas que até mesmo o islamismo (hoje imediatamente associado à radicalização), em seus primeiros momentos, segundo nossa interpretação, soube compreender e aproveitar.

Pena que neste Treze de Maio, o País tenha dado mais um lamentável passo atrás. Mas nós vamos caminhando, pra frente. (NL)

VALEU, TADEU AGUIAR!

O grande ator Tadeu Aguiar, o “Padre Maximiliano” da primeira montagem do nosso “Bilac vê estrelas” (de Heloisa Seixas e Julia Romeu, a partir de Ruy Castro), está fazendo um gol de placa. É que, dirigindo o musical “Love Story”, com estreia prevista para junho, no Imperator, escalou um elenco só de ótimos atores e atrizes pretos e pardos, ou seja, negros.

TadeuAguiar

Perguntado pelos motivos, ele respondeu : “Me incluo no grupo dos que, quando não havia no roteiro indicação da cor do personagem, achavam que o ator teria que ser branco. Aos 56 anos estou aprendendo”. E foi mais longe: “Sou ator há 35 anos. Acho que a arte tem que ser provocadora. Sei que haverá reações contrárias e a favor. Os racistas (…) talvez pichem a porta do teatro; mas vamos fazer”.

Nós aqui no Lote damos a maior força. Palmas para o grande Tadeu Aguiar! Todos ao Imperator!

Fonte: O Globo – Segundo Caderno – coluna Gente Boa -17.04.2016, pág. 2

O ENCANTAMENTO VEM DE LONGE

Oencantamentovemdelonge

O musical “Bilac vê estrelas”, estreado em 2015, acaba de me dar o prêmio da Associação Brasileira de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro, APTR, em sua décima edição; e já tinha me dado o Troféu Bibi Ferreira e o Prêmio Shell.

Esta premiação enriquece minha trajetória teatral, pouco conhecida, mas não desprezível, e que vem da minha juventude.

Profissionalmente, ela começou com a encenação da revista “Oh, que delícia de negras”, encenada em temporada no Teatro Rival em maio de 1989 e repertoriada nos anais do Centenário da Abolição, conforme matéria de Tim Lopes na edição de 31 de maio daquele ano do Jornal do Brasil. E, à margem, rendeu incursões como as músicas de “Auto da Independência” de Joel Rufino dos Santos; as de “Sortilégio”, de Abdias Nascimento (partituras publicadas no livro “Crosswinds: na anthology of black dramatists in the diaspora”, pela Universidade de Indiana em 1993), Entre 1999 e 2000, respectivamente, tive encenados pelos alunos de teatro do Centro Cultural José Bonifácio, da Prefeitura do Rio de Janeiro, dois musicais: “Clementina” (sobre a vida de Clementina de Jesus) e “Dona Gamboa, Saúde” (sobre a história da região portuária, um dos berços do samba).

Oquedelicia_1989

Inéditos, tenho ainda outros textos teatrais escritos e musicados. E, agora, espero oportunizar, através dos indispensáveis apoios, a montagem de “A sina e a saga de Samba dos Santos” (a foto é meramente ilustrativa), musical bem-humorado e alegre, contando a trajetória da resistência da cultura do Samba, com 18 quadros, todos mostrando o gênero em seus diversos estilos de composição, canto e dança.

Ressalto que as recentes conquistas e a obra produzida vêm de um encantamento antigo. Que teve como fonte a inesquecível presença de meu irmão José Braz Lopes, o Zeca, um homem de teatro na mais completa acepção da expressão, embora nunca tenha recebido um tostão com sua arte – e como seria bom se tivesse conseguido! Entre 1958 e 72, no nosso GR Pau-Ferro, encenamos semanalmente dezenas de “comédias”, sem texto escrito, na base da improvisação, como – depois vim saber – se fazia na Itália, nos séculos XVI a XVIII, na forma conhecida como Commedia Dell’Arte.

Falecido em 1984, Zeca teria completado 77 anos no último dia 19 de março, dia de seu padroeiro São José.

A ele, que, como ator, autor e cantor, poderia ter sido um dos grandes nomes da cena teatral brasileira – mas infelizmente não foi – eu dedico este momento.


PRÊMIO FAZ DIFERENÇA de O GLOBO – Fala de Agradecimento

Ao receber a premiação do jornal O Globo, no último dia 23 de março, no Copacabana Palace, assim me expressei:

Senhoras e Senhores: Recebo este prêmio com o mesmo orgulho e a mesma honra de quando recebi, do Governo Federal, a Ordem do Mérito Cultural em 2005 e a Ordem de Rio Branco em 2013.

Sinto-me um privilegiado, entre tantos outros de minha origem étnica e social que trabalham como eu e jamais experimentaram a VISIBILIDADE que agora estou tendo. É a esses “INVISÍVEIS”, entre os quais incluo familiares e amigos, que dedico mais esta conquista. Muito obrigado!

A CONCHA É NOSSA!!!

28º PRÊMIO SHELL DE TEATRO – RIO DE JANEIRO

PremioShell2016

MELHOR MÚSICA – NEI LOPES – “BILAC VÊ ESTRELAS”

CANÇÃO 13 – BILAC VÊ ESTRELAS
(Modinha)

 

Música final do Primeiro Ato. Bilac, depois de levar a pancada na cabeça desferida por Eduarda, começa a delirar e pensa que está no Parnaso: vê Apolo e suas musas, enquanto, em volta dele, o galpão com o balão está em chamas.

Oh! Indescritível sensação

Ir pelos ares num balão

Em direção ao infinito.

Ah! Ali embaixo está Paris

Esta adorável meretriz

Com seu vestido mais bonito.

Ei! Agora vou num voo só

Da Via Láctea à Ursa Maior

Chegar àquele monte azul.

Mãe! Eu quero solo, eu quero colo!

Será que aquele é o deus Apolo

Ou eu perdi o norte e o sul?!

Sim! É ele mesmo, o grande deus

O rei do sol, filho de Zeus

Que da beleza usa e abusa.

Vai, envolto em figurante luz

Na carruagem que conduz

As maviosas nove musas

Ah, enfim subi ao meu Parnaso

Num venturoso e belo acaso

Em vibrações celestiais

Eu, ungido assim pela magia

Da mais excelsa poesia

Ninguém me alcança nunca mais.

HÁ 50 ANOS, BACHAREL

No final de 1966, este Velhote que vos fala, então um jovem de 24 anos, recebia da Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, mais tarde UFRJ, o grau de bacharel em Direito e Ciências Sociais. Dois anos antes, premido acima de tudo pelo novo sistema político que se instaurava no país, o jovem acadêmico já se registrara na OAB-RJ, na condição de solicitador, para poder realizar alguns atos forenses sob a responsabilidade de um advogado.

OAB.1967

Esse profissional foi Demóstenes Garcia, causídico brilhante e orador inspirado, mais tarde professor e membro do Ministério Público, de humilde família afrodescendente e morador em Ricardo Albuquerque, subúrbio fronteiriço à Baixada Fluminense. Demóstenes (saudoso amigo falecido em 2008 e cujo nome era uma sina, pois assim se chamava o pai da oratória na Grécia clássica), tinha uma colega de turma, Hilma Ferreira do Valle, de condição social bastante diferente da nossa. E foi ela que me abrigou em seu escritório particular na Rua da Quitanda, e no Sindicato dos Lojistas, onde também trabalhava, e cuja sede ficava no mesmo edifício.

Meu ingresso na Faculdade, no vestibular de 1962, foi, modéstia à parte, um sucesso. Embora eu viesse de um curso “científico” (denominação da época) mais dirigido para a área de ciências exatas. Tanto que, nele, passei três anos me atrapalhando e estressando com Física, Química e Matemática, estudando sem saber bem o que eram, coisas como geometria descritiva e analítica, trigonometria, etc. Imaginem! Mas apreciando História Natural (Biologia), principalmente nas áreas de zoologia e botânica. Afinal de contas, eu era um ser “vivo”, como ainda sou!

Por conta dessa formação meio torta, tive que gastar mais um ano me preparando para o vestibular de Direito. E aí passei o ano de 1961 – apesar da amarga perda do Velho no ano anterior – bastante confortado, no excelente Curso Hélio Alonso, que eu pagava com um “bico” de meio expediente na burocracia de uma oficina mecânica de um amigo em Brás de Pina. No CHA, descobri a importância do latim, de que no ginásio eu não gostava por preconceito; aprimorei o indispensável francês; e adquiri segurança no manejo da língua-mãe.

Passei otimamente na Nacional e também na Faculdade do Catete (hoje, da UERJ). Entretanto, mal entrado na vida acadêmica, fui envolvido pelo Movimento de Reforma, pelo Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, o célebre CACO, e pelo Movimento Literário, presidido pelo já escritor Milton Ximenes. Então, escrevendo poemas e peças teatrais, que também encenávamos, no âmbito do legendário CPC; desenhando charges políticas para o Jornal Mural; pintando faixas para comícios e passeatas, logo-logo o vestibulando bem-sucedido deu lugar ao aluno de péssimo rendimento acadêmico.

Mas a “Redentora” de 1964, dando aquele “pára pra arrumar”, com os militares ocupando a Faculdade e nos envolvendo em um ou mais IPMs (Inquéritos Policiais Militares) acabou com a festa. E aí não tive outro jeito senão procurar sair de lá rapidinho, com diploma na mão. Mesmo porque já havia um compromisso de casamento. O que já é outra história.

Independente da política, o Direito, aprendido na Faculdade e um pouco praticado no Fórum carioca, deixou marcas, muitas ruins e outras boas. E elas estão, quase sempre ironizadas, nas constantes referências jurídicas ou judiciárias que aparecem em meus sambas, como em “Senhora Liberdade”, “Justiça Gratuita”, “Águia de Haia”, “Prisão Especial”; “Vara de Família” e outros. Também nos casos que vivenciei e protagonizei, alguns deles incorporados à minha literatura ficcional.

O Direito está presente, ainda, nas tarefas que desempenho desde a década de 1980 na AMAR/SOMBRÁS, sociedade de gestão autoral que conta ou já contou em seus quadros com “cobras” como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Hermínio Bello de Carvalho, a ex-ministra Ana de Hollanda, e o saudoso Maurício Tapajós, nosso presidente de honra.

Por tudo isso, tenho motivo para comemorar (com inscrição ativa na OAB) estes 50 anos de bacharelato. Ab imo pectore.

RIO DE JANEIRO, CIDADE NEGRA! (Com um abraço deste filho, no seu 451 º aniversário)

O marco inicial do escravismo português no Brasil é o ano de 1532, quando teriam desembarcado os primeiros escravos, vindos para trabalhar num pioneiro engenho de açúcar fundado por Martim Afonso na Vila de São Vicente, núcleo do estado de São Paulo. Nessa época, a futura cidade do Rio de Janeiro ainda era um projeto, como parte de uma feitoria improdutiva, sujeita a ataques e tentativas de invasão. Em 1567, entretanto, dois anos após a fundação formal, São Sebastião do Rio de Janeiro recebia seus primeiros melhoramentos. A cidade era alargada e seu governo entregue a Salvador Correia de Sá, o Velho, que mais tarde se destacaria pela atuação no contrabando de escravos do Rio de Janeiro para a região do Prata.

RioCidadeNegra2016

Com o surto desenvolvimentista da cana-de-açúcar, o Brasil começa a importar maciçamente escravos de Cabo Verde, do golfo da Guiné, do Congo, de Cabinda, Angola e Benguela. O mais importante negreiro do Rio de Janeiro, João Gutierrez Valério, assina com Salvador de Sá uma espécie de contrato de exclusividade para abastecer os proprietários fluminenses.

Na década de 1580, a ilha das Cobras, na baía de Guanabara, passa a ser propriedade, segundo escritos coloniais, de um certo “João Gutierrez, oleiro”, provavelmente o mesmo traficante de escravos, que parece ter adquirido a ilha para utilizá-la como depósito de carga humana.

Ao raiar o século XVII, a cidade tinha cerca de 3.850 habitantes: cerca de 3 mil índios, setecentos brancos e apenas cem africanos. Em 1618, Duarte Vaz, irmão do governador Rui Vaz Pinto, ganha o privilégio de “aprontar” escravos para trabalhar no serviço de carga e descarga de navios no porto da cidade, fazendo nascer, assim, a estiva* do Rio de Janeiro, até hoje uma atividade predominantemente exercida por negros. A cidade e a província necessitavam cada vez mais de escravos, tanto que a municipalidade se queixava, em 1620, de que os navios que saíam do Rio de Janeiro com farinha de mandioca, então o principal produto agrícola da província, não retornavam com escravos, preferencialmente vendidos em Pernambuco. Tal preferência, porém, era explicável: naquele tempo, uma viagem de Angola, principal território fornecedor de escravos para o Brasil, até o Rio de Janeiro demorava em regra cinquenta dias, duas semanas a mais que uma viagem Angola-Pernambuco.

Séculos XVII e XVIII: Na primeira metade do século XVII, em decorrência do tráfico angolano, já havia vários quilombos no Rio de Janeiro, bem próximos ao núcleo da cidade, nas matas do Desterro, hoje Santa Teresa. Na periferia, essa presença pode ser avaliada pelos logradouros até hoje existentes com as denominações de “caminho do Quilombo”, “morro do Quilombo”, etc. Mas, na verdade, a presença de negros no Rio de Janeiro só se intensifica com a descoberta do ouro e o início da explosão desse metal na região das Minas Gerais, no final do século XVII.

A partir de 1695, a Irmandade da Misericórdia reivindica e passa a receber 1 cruzado pelo enterro de cada escravo que sepulta; em 1698 o governador interino Martim Corrêa Vasques detecta a necessidade de criar, e de fato cria, uma Companhia de Ordenanças de Pretos Forros, certamente para policiar os pretos escravos. Ao mesmo tempo a cidade, durante todo o século XVII, desce o Morro do Castelo e se espalha pela Rua Direita (atual Primeiro de Março) até a Prainha (Praça Mauá) em direção à Gamboa.

O século XVIII vai encontrar proprietários paulistas comprando numerosos lotes de cativos no Rio de Janeiro, a fim de empregá-los na mineração, e pagando preço elevado por eles. Com essa grande demanda, a economia municipal vê esboçar-se uma crise. Então, proíbe-se a venda de escravos das plantações de cana e mandioca, e criam-se dispositivos legais para a importação de negros, não só de Angola como também da costa da Guiné e de Moçambique, onde se estabelece Antônio Lopes da Costa & Cia., empresa carioca dedicada ao comércio escravista. Em 1710 a população da cidade era de 12 mil habitantes, número que, 89 anos depois, no recenseamento do vice-rei Conde da Cunha (em 1763 o Rio passara a sede do governo central), chegaria a 43.376 almas, sendo 55% de pretos e mestiços, escravos ou não. Esse recenseamento permitirá concluir que, dos 3 milhões de escravos que ingressaram no Brasil naqueles últimos cem anos, um terço entrou pelo porto do Rio de Janeiro.

Escravos nas ruas: Com uma população basicamente negra desde a segunda metade do século XVII, na qual cerca de um quinto era de escravos, o Rio de Janeiro mostrava uma fisionomia bem característica. As ruas mais centrais assistiam à passagem de africanos recém desembarcados, nus, sujos, chagados, doentes, fazendo ali mesmo as suas mais urgentes necessidades fisiológicas – e essa situação leva o Marquês do Lavradio (1769-78) a concentrar o comércio de escravos em um só lugar, o Valongo, para onde os negros se dirigiam sem ter de passar pelas ruas do Centro, já que o local tinha seu próprio cais. Via-se também o transporte, na cabeça dos escravos, dos “tigres” ou cabungos, recipientes respingando as fezes que iam ser despejadas no mar ou em covas públicas no velho Campo de Santana, depois parque da Aclamação. A cidade via e ouvia o alarido e a confusão dos negros nos chafarizes, onde ninguém podia passar sem ser alvo de um banho indesejado.

Pelos ângulos das ruas ou pelos adros das igrejas era triste o espetáculo dos mendigos, quase todos negros e velhos, representando o rebotalho, o bagaço da implacável e terrível moenda da ordem escravista. Nos dias de grande festa, no entanto, o Senado da Câmara, com o firme propósito de poupar a aristocracia dessa deprimente visão, varria das ruas o lixo humano, frequentemente a pauladas e chibatadas, assim como não poupava ninguém de presenciar as torturas que eram infligidas a escravos criminosos no pelourinho.

A cidade, porém, apesar das circunstâncias, nos dois primeiros séculos de sua história, viu os nervos em festa. Nos cortejos dos cucumbis*, que vez por outra saíam às ruas; nas coroações dos reis-congos* que se realizavam no adro da Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa; e principalmente nas bandas de barbeiros, entre outras manifestações de arte e de prazer, o negro se divertia. Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro, de 1799 a 1821, o percentual de escravos na cidade cresceu de 35% para 46%: a baía de Guanabara transformara-se, desde fins do século XVIII, no maior terminal negreiro das Américas.

Por volta de 1840, o Rio de Janeiro, contando, entre seus habitantes, com um terço de emigrados da África e a maior população urbana de escravos registrada desde Roma, tinha, segundo esse historiador, os ares de uma cidade africana. Após a Guerra do Paraguai*, contingentes de soldados desmobilizados, preferindo a capital ao retorno às províncias de origem, reforçavam esse aspecto.

Quilombos: No século XIX, as freguesias dos subúrbios cariocas abrigavam vastidões de terras incultas, com matas e serras que se apresentavam, assim, como locais propícios à formação de quilombos. Em 1826 eram capturados 76 escravos fugitivos na Freguesia de Inhaúma, 56 na de Irajá e 34 na da Ilha do Governador, o que aponta para a existência de redutos quilombolas nesses locais.

Imigrantes angolanos: A partir da década de 1980, por causa da ligação aérea direta com Luanda, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o principal destino de imigrantes e refugiados angolanos no Brasil. Concentrada sobretudo na Vila do João, no Complexo da Maré, próximo ao aeroporto internacional, e também no bairro de Fátima, no centro da cidade, em abril de 2002 essa comunidade era estimada em 5 mil pessoas, tendo como principal ponto de referência a Segunda Igreja Batista Evangélica da Vila do João.


Fonte: Nei Lopes, “Enciclopédia brasileira da Diáspora africana”, São Paulo, Selo Negro, 4ª. Ed., 2011

A LENDA DO “THEATRO” APAGADO

Definir o que seja um Orixá não é fácil. Tanto que, entre os oeste-africanos do povo Fon (“jeje” no Brasil e “arara” em Cuba), o termo correspondente a orixá, é assim explicado: “A palavra vodún evoca uma ideia de mistério e designa algo que extrapola o divino. É toda uma manifestação de força que não se pode definir; algo que ultrapassa a imaginação e a inteligência” (Segurola et Rassinoux, Dictionnaire fon-français, 2000).

TheatroApagado2016

De nossa parte, entendemos que um Orixá é, sim, uma força intensa; mas que se situa dentro da cadeia de forças do Universo, a qual nós humanos também integramos. Então, não devemos apenas cultuá-los, mas, sim – respeitosamente e reconhecendo nossa inferioridade –, interagir com Eles. Devemos tratá-los bem e agradá-los, mas jamais carnavalizá-los. Esta é a nossa opinião.

Já com aquelas entidades espirituais que tiveram vida terrena, qualquer que seja seu domínio, a conversa é outra, pois elas conservam características humanas e gostam de ser lembradas, paparicadas, cultuadas e até carnavalizadas. E o enredo salgueirense, “nem melhor nem pior, apenas diferente”, do carnaval deste ano – que aqui se encerra neste texto – mostrou isso. E exatamente por isso foi o único a motivar reflexões intelectualmente profundas, como as contidas nos artigos de Marcelo Mello (O Globo, 11/02/2016) e do nosso querido parceiro Luiz Antônio Simas, em O Dia, hoje, 17 de fevereiro.

Diz o Simas: “Falar de orixá, para muita gente, é encarado como algo normal em desfiles de escolas de samba, salvo faniquitos dos intolerantes mais histéricos. Mas o Salgueiro foi além e falou, a partir do musical de Chico Buarque, da macumba carioca, do catimbó nordestino, do povo de rua virado na malandragem do Rio, na pulsão entre a ordem e a desordem que a cidade enseja. (…) Botar Tranca-Rua de capa e cartola abrindo o desfile e o Zé das Alagoas, juremeiro do catimbó, fechando, cercado pelas pomba giras e abençoado por Oxalá, faz mais pela luta por uma cidade plural que muito discurso bacana”.

Antes, Marcelo Mello, que não temos o prazer de conhecer, já tinha assinalado: “O Salgueiro foi uma metáfora do conflito entre o desejo e os limites que a realidade impõe. E nada melhor para entender isso do que analisar a sequência dos atos do desfile. Na comissão de frente, um componente de fantasia vermelha e preta, cartola, capa e ar petulante abria os trabalhos ao lado de pomba giras que rodavam com sensualidade escancarada saias cenográficas. A cena era um desafio a ordem constituída ao anunciar que seria liberada a libido que precisa ficar dentro de algum limite, por mais elástico que seja”.

Tudo isso, com uma trilha sonora que não lembrava nada do que já se conhecesse em termos de melodia de samba-enredo e uma letra absolutamente de acordo. Mas faltou dizer ao jurado de alegorias que as entidades espirituais descidas à Sapucaí naquela noite salgueirense, embora gostem de carnaval, gostam mais das sombras que das luzes estonteantes.

Foi por isso, só por isso, que a alegoria do “Theatro” Municipal pareceu apagada. E fim de papo!

UM PEQUENO LIVRO ENORME

Na sofisticada e complexa concepção africana do Universo, existe e atua uma Força quase sempre mal compreendida, exatamente pela sua complexidade. Falo (isso mesmo!) de Exu ou Elegbara, orixá ou “eborá” da tradição jeje-iorubana, do qual o segundo nome mencionado significa o “dono da força”. Ele é a síntese do princípio dinâmico que rege o Universo e possibilita a Existência, sendo, também, com diversos outros títulos ou denominações, a mais polêmica dentre as forças invisíveis que regem as concepções filosóficas tradicionais na África e nas Américas.

Exu2016

Dono da força, Exu-Elegbara é também o dono da dialética. E este termo, como sabemos, designa todo processo de diálogo, ou troca de ideias diferentes, no qual as contradições aparentes entre duas afirmações são harmonizadas pela elaboração de uma síntese que contém elementos de ambas.

“Caranguejo não é peixe; caranguejo peixe é”, diz a cantiga de roda, para no final concluir: “Caranguejo só é peixe na enchente da maré”. Isso é dialética.

Mas esta conversa aparentemente “fiada” tem por objeto anunciar a publicação de um livro exemplar, neste momento em que se profanam imagens de santos católicos e se apedrejam fiéis e terreiros de culto a orixás. Trata-se de “Exu, o guardião da casa do futuro” (Pallas Editora, 2015), de Vagner Gonçalves da Silva.

Em formato de bolso e com 229 páginas que se leem de uma tacada só, é obra de um doutor em antropologia e professor da pós-graduação da USP que certamente é pessoa “de dentro”. Por isso, criou um livro para calar a boca dessa teologia de “araque”, difundida a partir de núcleos que, segundo o escritor antilhano V. S. Naipaul, Prêmio Nobel de Literatura em 2001, são conhecidos na África como “igrejas rock and roll”.

“O que causa estranhamento é o fato de que os demônios nessas igrejas se apresentam sempre como entidades das religiões afro-brasileiras”, diz o livro. E isto quando se sabe de representações demoníacas abundantes em ambientes de cultura anglo-saxônica, céltica, nórdica, por exemplo. É só ligar a televisão e ver a profusão de vampiros, bruxas, duendes, elfos etc., etc., etc.

Mas antes de ligar, vamos ler este livro imperdível. Laroiê!

NÓS JÁ VIMOS ESSE FILME

Nele, é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um negro aparecer, ao menos fazendo uma pontinha.

10mandamentos

Até Hollywood já sabe que o Egito dos faraós constituiu uma nação multiétnica, onde a percentagem de pretos e pardos – negros, portanto – foi de certa forma parecida com a do Brasil de hoje; e na qual, ao contrário da atual nação brasileira, muitos negros chegaram aos mais altos escalões de governo, sendo inclusive faraós.

Mas os “cristãos” da TV Record – que hoje já usam até kipá (solidéu) e talit (manto) da tradição hebraica – parece que não sabem disso. Então, escalaram para o filme que agora estão vendendo, um elenco no qual é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um negro aparecer, ao menos fazendo uma pontinha.

Não pretendemos nem podemos afirmar que não houvesse pessoas brancas no antigo Egito, como as há, hoje, por exemplo, na Nigéria ou no Quênia. Mesmo porque o país foi, durante toda a Antiguidade, uma perfeita encruzilhada entre o Mediterrâneo, a Ásia Menor, o Saara e a África profunda, sendo território por onde passaram e onde se fixaram seres humanos de diversas procedências e aparências.

Entretanto, já antes do historiador grego Heródoto, que afirmou a etnicidade africana dos egípcios que conheceu, o filósofo Aristóteles, em seu livro Physiognomonica, escrevia: “Os que são excessivamente negros são covardes, e isto se aplica aos egípcios e etíopes”.

O saudoso antropólogo senegalês Cheik Anta Diop, obviamente, não concordava com o mau juízo de Aristóteles sobre egípcios e etíopes. Mas afirmava que os egípcios pré-faraônicos eram efetivamente negros. E, depois dele, seu discípulo Théophile Obenga garantiu que governantes e povos de uma única e mesma origem negro-africana foram responsáveis por toda a pujante civilização faraônica.

A civilização egípcia foi, então, fundamentalmente africana; até a invasão dos hicsos, povo asiático, ocorrida por volta de 1640 a.C. E isto porque muitas das mais poderosas dinastias egípcias tinham sua base no Alto Egito, em território da atual República do Sudão do Norte, sendo que a 1ª, a 11ª, a 12ª e a 18ª eram constituídas por faraós que, segundo o cientista inglês Martin Bernal, eram efetivamente negros.

O mesmo Bernal chama atenção para os vários critérios usados, ao longo dos séculos, para descrever e representar a população egípcia: Heródoto os via como negros de cabelos “lanosos”, crespos, e difundiu a ideia de que havia duas “nações etíopes”, uma no Egito e outra em Zind, na Índia.

Mas voltemos ao filme “Os Dez Mandamentos”. Para lembrar que, segundo a Bíblia, o personagem principal, Moisés, nascido no Egito, teria se casado com uma “mulher etíope”, sendo criticado por isso (Números, 12:1). Essa mulher, segundo o livro do Êxodo, era Séfora ou Zípora, filha do sacerdote de Mídiã ou Madiã, chamado Jetro ou Reuel (Êxodo, 2:21; 18: 2-4).

Os midianitas ou madianitas eram uma tribo nômade da Transjordânia e da península do Sinai. Porém, Henri Cazelles, no livro “História Política de Israel” (São Paulo, Paulus, 1986, p. 90) remete à Bíblia para levantar a dúvida sobre a origem de Zípora, talvez midianita e talvez cuxita.

Cuxe era o nome de um país da região da Núbia, compreendendo partes dos atuais Sudão, Eritreia, Etiópia e Quênia. E no livro “Moisés” de Pierre Chavot (Rio, Rocco, 2004) a mulher de Moisés é mencionada como “a bela morena Siporá.

Claro! A saga de Moisés ocorreu à época da 19ª Dinastia, a de Ramsés II, que reinou de 1290 a 1225 a.C. Mas não é demais lembrar que, depois disso, o Egito faraônico teve toda uma dinastia, a 25ª, integrada por faraós negros da Núbia, sendo um deles Taharca ou Tiraca, o único citado nominalmente na Bíblia, embora como “rei da Etiópia” (Isaías, 37.9).

Segundo o já mencionado Heródoto, o Egito teve ente seus 333 faraós 18 soberanos núbios ou etíopes. Entre eles, além dos cuxitas da 25ª dinastia, seriam comprovadas ou provavelmente negros os seguintes governantes do Egito faraônico: Adjib; Aí; Amenemat III; Amenhotep I e sua mãe Nefertare; Amósis ou Ahmés; Den; Djer; Intef; Kaa; Narmer; Semerkhet; Senusret III; Tutmés II; Uadji; além de, segundo Bernal, todos os outros das 11ª e 12ª dinastias.

Enfim, eis, com esta nova versão milionária de “Os Dez Mandamentos”, a perpetuação da visão eurocêntrica da História, na qual heróis, reis, príncipes, princesas, etc., só existiram ou existem com cabelos lisos, loiros e olhos azuis.


FONTE: Nei Lopes, “Dicionário da Antiguidade Africana”. Rio, Ed. Civilização Brasileira, 2011 (à venda nas melhores casas do ramo).

“NEM MELHORA NEM PIORA, APENAS DIFERENÇA”

OGlobo_FazADiferenca_23Jan2016

Agradeço a todos os amigos e amigas que contribuíram com seu voto para tirar meu trabalho daquela incômoda invisibilidade que todos conhecem.

A premiação de O Globo à minha Literatura é também uma vitória do Samba (aquele que está muito além do “sambódromo”).

Meus sinceros agradecimentos!

a) Nei Lopes