TELEVISÃO, CHEGA DE ESCRAVIDÃO!

Toda vez que as telenovelas mostram uma cena do tempo da escravidão no Brasil, eu saco o controle remoto e mudo de canal. E isto porque sei que forma e conteúdo da produção (e talvez o objetivo principal) é sempre o reforço dos clichês de subalternidade, pobreza, ingenuidade, burrice, sexualidade animalesca, violência, etc., que lamentavelmente ainda marcam a presença de negro-africanos e descendentes na sociedade brasileira.

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A TV nunca mostrou, por exemplo, a legendária Chica da Silva na sua condição de Protetora das Artes, ajudando a projetar o compositor Lobo de Mesquita; fundando uma importante escola de pintura em seu arraial; ajudando a consolidar o Convento de Macaúbas, onde educou nove filhas. Jamais a vimos como mãe de uma filha freira, um filho padre e outro desembargador, seu primogênito, Simão Pires Sardinha, reconhecido como um dos maiores naturalistas brasileiros do século XVIII.

Vai ser difícil ver, um dia, na TV o importante papel desempenhado por outras mulheres negras na época escravista, não só como amas-de-leite, mucamas, e criadas para todo serviço, mas também como “ganhadeiras”, modalidade em que muitas se destacaram por seu tino empresa­rial, chegando a amealhar fortuna como negociantes e constituir famílias numerosas. E este foi o caso por exemplo, no Maranhão oitocentista, da liberta Catarina Mina, que comprou patente de alferes da Guarda Nacional para o marido e educou os filhos na Europa.

A TV também dificilmente mostrará a bela história dos escravos músicos da Fazenda de Santa Cruz, na atual zona oeste carioca, protagonizada por homens e mulheres que, instruídos na escola criada na propriedade pelos jesuítas, se destacaram durante vários anos, participando da cena musical na cidade, como integrantes da banda do Palácio Imperial e mesmo nos teatros, como foi o caso da célebre “Lapinha”Joaquina Maria da Conceição Lapa – e de outras cantoras.

Estes são apenas alguns personagens e cenários que nos ocorrem de pronto. Mas há mais, muitos mais. Por isso, em nome da autoestima, nossa e de nossos jovens (e recusando o argumento escorregadio de que essas produções são oportunidades de empregos para artistas negros), clamamos pelo fim da escravidão nas telenovelas brasileiras.


Fontes: Nei Lopes: Enciclopédia brasileira da diáspora africana (Selo Negro, 2011); Dicionário da Hinterlândia Carioca, Pallas, 2012

UMA SELFIE COM LÊNIN – Fernando Molica não é mole

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Nunca antes, que eu saiba, um romance carioquíssimo foi tão nacional, atual e revelador sobre o submundo da política, fluminense e brasileira, como “Uma selfie com Lenin” (Record) do nosso querido “primo” Fernando Molica. Num bordejo forçado pela Europa, o personagem narrador, em ritmo de samba da Lapa e com o charme dos blocos de Santa Tereza, narra tramoias ocorridas em escritórios de doleiros do Castelo. E ainda desfruta de belas assessoras de imprensa. Tão belas quanto perigosas.

Show de bola este romance do bisneto do saudoso pianista Júlio Reis. Da Piedade para o mundo. Num jato bem lavadinho.

http://www.blogdaeditorarecord.com.br/2016/04/04/uma-selfie-com-lenin-de-fernando-molica/

JOÃO CABRAL, BOM DE BOLA E BOM DE SAMBA

JoaoCabral1Alô, amigos imperianos! Acabo de localizar, por acaso, no livro “Império Serrano, primeiro decênio” (jóia raríssima de minha biblioteca), de autoria de Francisco Vasconcelos, edição particular de 1991, uma grande curiosidade. Trata-se de uma página fac-similada no Livro de Ouro da escola para o carnaval de 1956 mostrando uma assinatura (na pág. 258) do poeta JOÃO CABRAL DE MELO NETO, fazendo uma doação de CR$ 100,00.

É engraçado. Mas imaginei que fosse por causa de um enredo em homenagem a Pernambuco, terra do poeta, como o “Brasil Holandês” (cujo samba diz que “Maurício de Nassau / na verdade, foi um invasor / muito genial”) ou “Pernambuco, Leão do Norte”. O enredo, entretanto, era “O caçador das esmeraldas” em honra do bandeirante Fernão Dias então chamado de Fernão Dias Paes Leme (“Paes Leme, o desbravador / cuja famosa expedição chefiou”).

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Assisti esse desfile e me arrepiei com a melodia do Silas, muito bonita, como sempre. Mas, embora eu soubesse que o poeta gostava de futebol e tinha sido “boleiro” na juventude (ver foto acima), essa do samba para mim é uma tremenda novidade. E merece um enredo, amigos imperianos! Ou não? (NL)

NEI LOPES EM DOCUMENTÁRIO QUE CONTA A HISTÓRIA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

NeiLopesSaoSebastiao“São Sebastião do Rio de Janeiro – A formação de uma cidade”, produzido pela Bang Filmes, do Rio de Janeiro, estreia em maio nos cinemas

Rio de Janeiro, maio de 2016“A minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela, fez um desembarque fascinante no maior show da terra”. Com os versos de “É hoje o dia”, samba enredo da Escola União da Ilha no carnaval de 1982, a jornalista e apresentadora de TV Leilane Neubarth narra o início do documentário “São Sebastião do Rio de Janeiro – A formação de uma cidade”, dirigido e produzido por Juliana de Carvalho, da Bang Filmes & Produções.

O documentário de 90 minutos conta a história dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, pela ótica da evolução de seu urbanismo, através de ricos depoimentos de especialistas e de imagens, narração, iconografia inédita e computação 3D.

A história da formação urbana da Cidade Maravilhosa é tratada como uma personagem, perseguindo os vestígios arqueológicos de seus primeiros habitantes, das lutas travadas na conquista desse espaço, dos grandes acontecimentos históricos que aqui se forjaram, das reformas e intervenções urbanas que moldaram o desenho de cidade e a alma do povo que nela vive.

“Nossa opção foi fazer um filme que narra a história do Rio através do ponto de vista geográfico, todos os depoimentos colocam o Rio como protagonista. É uma viagem no tempo. Em uma hora e meia o público passeia pelos 450 anos e vê, através das imagens e dos depoimentos, como esta cidade se expande e evolui. Como na história do Rio há episódios riquíssimos, é muito fácil se desviar do foco. Então, optamos pelo viés urbano”, explica a cineasta mineira Juliana de Carvalho, que adotou o Rio como cidade para viver e trabalhar e também faz projetos de audiovisual em escolas municipais e produz livros sobre a cidade.

Além de Nei Lopes, personalidades e especialistas em diferentes áreas como Ruy Castro, Sergio Cabral, pai, Milton Teixeira, Tânia Andrade, Alba Zaluar, Sergio Besserman, Carlos Fernando de Andrade, Augusto Ivan, entre outros, ajudam a contar, a partir de seus pontos de vistas, histórias sobre a cultura, o meio ambiente, a arquitetura e o urbanismo da cidade.


Sinopse e Trailer Oficial


Na trilha sonora, o samba “Sapopemba e Maxambomba”, de Nei Lopes e Wilson Moreira, na voz de Zeca Pagodinho


Ficha Técnica:
Produção e Direção: Juliana de Carvalho
Narração: Leilane Neubarth
Montagem: Mair Tavares e Tina Saphira
Texto: Carlos Haag
Concepção Visual: Antônio Cid e Mauro Heitor
Direção de Fotografia: Luiz Abramo, Antônio Luiz Mendes e Fernando Medeiros
Música: Lucas Marcier e Fabiano Krieger
Pesquisa Iconográfica: Patrícia Pamplona
Técnico de som: Pedro Saldanha e Gabriela Damasceno
Edição de som: Cauê Leal
Consultores: Carlos Fernando de Andrade e José Pessoa
Fotografias: Ivo Gonzalez

REALIZAÇÃO BANG FILMES – PRODUÇÃO & DISTRIBUIÇÃO
www.bangfilmes.com.br

Assessoria de Imprensa
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MAIS UM TREZE DE MAIO, MAIS UM RETROCESSO

Escrevo estas linhas no momento de mais um Treze de Maio, no ano em que meu saudoso pai, Luiz Braz Lopes, completaria também 128 anos, como a chamada “Lei Áurea”.

13MaioRetrocesso

Mas este é um momento não de júbilo e sim de constrangimento. Pela vergonhosa farsa em que um dos piores, se não o pior, grupo de parlamentares já reunido no País “inventou um crime para acabar com um governo”, como escreveu o professor Liszt Vieira, da PUC-Rio em artigo publicado ontem no Jornal O Globo.

Escrevo diante da foto do “novo” ministério, na qual não se vê, dos pontos de vista de gênero e etnicidade, ninguém que evoque, por exemplo, a simbólica imagem da Princesa Isabel nem as reais, efetivas e consequentes figuras de André Rebouças, Ferreira de Menezes ou Luiz Gama.

Triste Treze de Maio! Em que os muares (ou hienas?) vão empurrando a carroça de novo para trás, na direção do abismo.

Resta, entretanto, o consolo de, aos 74 anos recém completados, estar entregando à publicação, neste exato momento, mais um livro, o “Dicionário da História da África (séculos VII a XVI)”, concluído, depois de alguns anos, com a inestimável parceria do professor José Rivair Macedo, da UFRGS.

O dicionário tem por objetivo dar sequência ao trabalho iniciado.com a publicação, pela Editora Civilização Brasileira, do Dicionário da Antiguidade Africana, em 2011, inclusive com revisão e reinterpretação de alguns conteúdos. Focalizando, agora, momentos fundamentais da História Africana ocorridos no período imediatamente posterior, a obra cobre o período que vai da conquista árabe-islâmica do norte do continente, iniciada em 639 d.C. até a chegada dos primeiros exploradores europeus, no século XV e a queda do Império Songai ante o Marrocos, no século seguinte.

No corpus do dicionário procuramos estabelecer relações de causa e efeito entre fenômenos e eventos como: as formas de organização social herdadas de tradições imemoriais; o surgimento de unidades políticas criadas e expandidas por lideranças locais; o expansionismo dessas unidades fazendo surgir Estados e Impérios; o embate entre as ideias e interesses do Islã, do Cristianismo e da Religião Tradicional; as disputas pelo controle das fontes de riquezas e as rotas de comércio, principalmente as que ligavam o continente ao Mar Mediterrâneo e ao Oceano Índico.

Procuramos também demonstrar como a transmigração de riquezas africanas tanto pelo Saara e o Mediterrâneo quanto pelo Oceano Índico, inclusive de força de trabalho, proporcionaram crescimento econômico e político a muitas cidades e Estados, tanto na Europa quanto no Oriente. E como, para a Europa, as riquezas subtraídas à África nesse período prepararam a desestruturação do continente, pelo escravismo, nos séculos seguintes até a partilha da África pelas potências europeias no século XIX.

Por outro lado, o dicionário procura mostrar também a formação de Estados, confederações e mesmo impérios no continente africano, comprovando o papel dos africanos como sujeitos ativos de sua História, atuando a partir do domínio dos saberes e técnicas de sua tradição, inclusive do ponto de vista filosófico e religioso.

Acreditamos, com este trabalho, estar dando mais um passo no sentido de colocar a História dos africanos, negros ou não, em sua dimensão real e verdadeira – como preconizou o filósofo congolês Théophile Obenga; e reafirmando a importância de se registrar a História de africanos e afro-americanos, a partir de pontos de vista de estudiosos afrodescendentes e além da incomoda e nociva perspectiva do escravismo.

Enfim, estamos fazendo a nossa parte. Pela autoestima de nossos jovens; pela sua organização na direção das instâncias de poder; pelo seu esclarecimento diante de dogmas inaceitáveis e falácias como a demonização mercadológica de nossas tradições ancestrais. Tradições essas que até mesmo o islamismo (hoje imediatamente associado à radicalização), em seus primeiros momentos, segundo nossa interpretação, soube compreender e aproveitar.

Pena que neste Treze de Maio, o País tenha dado mais um lamentável passo atrás. Mas nós vamos caminhando, pra frente. (NL)

VALEU, TADEU AGUIAR!

O grande ator Tadeu Aguiar, o “Padre Maximiliano” da primeira montagem do nosso “Bilac vê estrelas” (de Heloisa Seixas e Julia Romeu, a partir de Ruy Castro), está fazendo um gol de placa. É que, dirigindo o musical “Love Story”, com estreia prevista para junho, no Imperator, escalou um elenco só de ótimos atores e atrizes pretos e pardos, ou seja, negros.

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Perguntado pelos motivos, ele respondeu : “Me incluo no grupo dos que, quando não havia no roteiro indicação da cor do personagem, achavam que o ator teria que ser branco. Aos 56 anos estou aprendendo”. E foi mais longe: “Sou ator há 35 anos. Acho que a arte tem que ser provocadora. Sei que haverá reações contrárias e a favor. Os racistas (…) talvez pichem a porta do teatro; mas vamos fazer”.

Nós aqui no Lote damos a maior força. Palmas para o grande Tadeu Aguiar! Todos ao Imperator!

Fonte: O Globo – Segundo Caderno – coluna Gente Boa -17.04.2016, pág. 2

O ENCANTAMENTO VEM DE LONGE

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O musical “Bilac vê estrelas”, estreado em 2015, acaba de me dar o prêmio da Associação Brasileira de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro, APTR, em sua décima edição; e já tinha me dado o Troféu Bibi Ferreira e o Prêmio Shell.

Esta premiação enriquece minha trajetória teatral, pouco conhecida, mas não desprezível, e que vem da minha juventude.

Profissionalmente, ela começou com a encenação da revista “Oh, que delícia de negras”, encenada em temporada no Teatro Rival em maio de 1989 e repertoriada nos anais do Centenário da Abolição, conforme matéria de Tim Lopes na edição de 31 de maio daquele ano do Jornal do Brasil. E, à margem, rendeu incursões como as músicas de “Auto da Independência” de Joel Rufino dos Santos; as de “Sortilégio”, de Abdias Nascimento (partituras publicadas no livro “Crosswinds: na anthology of black dramatists in the diaspora”, pela Universidade de Indiana em 1993), Entre 1999 e 2000, respectivamente, tive encenados pelos alunos de teatro do Centro Cultural José Bonifácio, da Prefeitura do Rio de Janeiro, dois musicais: “Clementina” (sobre a vida de Clementina de Jesus) e “Dona Gamboa, Saúde” (sobre a história da região portuária, um dos berços do samba).

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Inéditos, tenho ainda outros textos teatrais escritos e musicados. E, agora, espero oportunizar, através dos indispensáveis apoios, a montagem de “A sina e a saga de Samba dos Santos” (a foto é meramente ilustrativa), musical bem-humorado e alegre, contando a trajetória da resistência da cultura do Samba, com 18 quadros, todos mostrando o gênero em seus diversos estilos de composição, canto e dança.

Ressalto que as recentes conquistas e a obra produzida vêm de um encantamento antigo. Que teve como fonte a inesquecível presença de meu irmão José Braz Lopes, o Zeca, um homem de teatro na mais completa acepção da expressão, embora nunca tenha recebido um tostão com sua arte – e como seria bom se tivesse conseguido! Entre 1958 e 72, no nosso GR Pau-Ferro, encenamos semanalmente dezenas de “comédias”, sem texto escrito, na base da improvisação, como – depois vim saber – se fazia na Itália, nos séculos XVI a XVIII, na forma conhecida como Commedia Dell’Arte.

Falecido em 1984, Zeca teria completado 77 anos no último dia 19 de março, dia de seu padroeiro São José.

A ele, que, como ator, autor e cantor, poderia ter sido um dos grandes nomes da cena teatral brasileira – mas infelizmente não foi – eu dedico este momento.


PRÊMIO FAZ DIFERENÇA de O GLOBO – Fala de Agradecimento

Ao receber a premiação do jornal O Globo, no último dia 23 de março, no Copacabana Palace, assim me expressei:

Senhoras e Senhores: Recebo este prêmio com o mesmo orgulho e a mesma honra de quando recebi, do Governo Federal, a Ordem do Mérito Cultural em 2005 e a Ordem de Rio Branco em 2013.

Sinto-me um privilegiado, entre tantos outros de minha origem étnica e social que trabalham como eu e jamais experimentaram a VISIBILIDADE que agora estou tendo. É a esses “INVISÍVEIS”, entre os quais incluo familiares e amigos, que dedico mais esta conquista. Muito obrigado!

A CONCHA É NOSSA!!!

28º PRÊMIO SHELL DE TEATRO – RIO DE JANEIRO

PremioShell2016

MELHOR MÚSICA – NEI LOPES – “BILAC VÊ ESTRELAS”

CANÇÃO 13 – BILAC VÊ ESTRELAS
(Modinha)

 

Música final do Primeiro Ato. Bilac, depois de levar a pancada na cabeça desferida por Eduarda, começa a delirar e pensa que está no Parnaso: vê Apolo e suas musas, enquanto, em volta dele, o galpão com o balão está em chamas.

Oh! Indescritível sensação

Ir pelos ares num balão

Em direção ao infinito.

Ah! Ali embaixo está Paris

Esta adorável meretriz

Com seu vestido mais bonito.

Ei! Agora vou num voo só

Da Via Láctea à Ursa Maior

Chegar àquele monte azul.

Mãe! Eu quero solo, eu quero colo!

Será que aquele é o deus Apolo

Ou eu perdi o norte e o sul?!

Sim! É ele mesmo, o grande deus

O rei do sol, filho de Zeus

Que da beleza usa e abusa.

Vai, envolto em figurante luz

Na carruagem que conduz

As maviosas nove musas

Ah, enfim subi ao meu Parnaso

Num venturoso e belo acaso

Em vibrações celestiais

Eu, ungido assim pela magia

Da mais excelsa poesia

Ninguém me alcança nunca mais.

HÁ 50 ANOS, BACHAREL

No final de 1966, este Velhote que vos fala, então um jovem de 24 anos, recebia da Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, mais tarde UFRJ, o grau de bacharel em Direito e Ciências Sociais. Dois anos antes, premido acima de tudo pelo novo sistema político que se instaurava no país, o jovem acadêmico já se registrara na OAB-RJ, na condição de solicitador, para poder realizar alguns atos forenses sob a responsabilidade de um advogado.

OAB.1967

Esse profissional foi Demóstenes Garcia, causídico brilhante e orador inspirado, mais tarde professor e membro do Ministério Público, de humilde família afrodescendente e morador em Ricardo Albuquerque, subúrbio fronteiriço à Baixada Fluminense. Demóstenes (saudoso amigo falecido em 2008 e cujo nome era uma sina, pois assim se chamava o pai da oratória na Grécia clássica), tinha uma colega de turma, Hilma Ferreira do Valle, de condição social bastante diferente da nossa. E foi ela que me abrigou em seu escritório particular na Rua da Quitanda, e no Sindicato dos Lojistas, onde também trabalhava, e cuja sede ficava no mesmo edifício.

Meu ingresso na Faculdade, no vestibular de 1962, foi, modéstia à parte, um sucesso. Embora eu viesse de um curso “científico” (denominação da época) mais dirigido para a área de ciências exatas. Tanto que, nele, passei três anos me atrapalhando e estressando com Física, Química e Matemática, estudando sem saber bem o que eram, coisas como geometria descritiva e analítica, trigonometria, etc. Imaginem! Mas apreciando História Natural (Biologia), principalmente nas áreas de zoologia e botânica. Afinal de contas, eu era um ser “vivo”, como ainda sou!

Por conta dessa formação meio torta, tive que gastar mais um ano me preparando para o vestibular de Direito. E aí passei o ano de 1961 – apesar da amarga perda do Velho no ano anterior – bastante confortado, no excelente Curso Hélio Alonso, que eu pagava com um “bico” de meio expediente na burocracia de uma oficina mecânica de um amigo em Brás de Pina. No CHA, descobri a importância do latim, de que no ginásio eu não gostava por preconceito; aprimorei o indispensável francês; e adquiri segurança no manejo da língua-mãe.

Passei otimamente na Nacional e também na Faculdade do Catete (hoje, da UERJ). Entretanto, mal entrado na vida acadêmica, fui envolvido pelo Movimento de Reforma, pelo Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, o célebre CACO, e pelo Movimento Literário, presidido pelo já escritor Milton Ximenes. Então, escrevendo poemas e peças teatrais, que também encenávamos, no âmbito do legendário CPC; desenhando charges políticas para o Jornal Mural; pintando faixas para comícios e passeatas, logo-logo o vestibulando bem-sucedido deu lugar ao aluno de péssimo rendimento acadêmico.

Mas a “Redentora” de 1964, dando aquele “pára pra arrumar”, com os militares ocupando a Faculdade e nos envolvendo em um ou mais IPMs (Inquéritos Policiais Militares) acabou com a festa. E aí não tive outro jeito senão procurar sair de lá rapidinho, com diploma na mão. Mesmo porque já havia um compromisso de casamento. O que já é outra história.

Independente da política, o Direito, aprendido na Faculdade e um pouco praticado no Fórum carioca, deixou marcas, muitas ruins e outras boas. E elas estão, quase sempre ironizadas, nas constantes referências jurídicas ou judiciárias que aparecem em meus sambas, como em “Senhora Liberdade”, “Justiça Gratuita”, “Águia de Haia”, “Prisão Especial”; “Vara de Família” e outros. Também nos casos que vivenciei e protagonizei, alguns deles incorporados à minha literatura ficcional.

O Direito está presente, ainda, nas tarefas que desempenho desde a década de 1980 na AMAR/SOMBRÁS, sociedade de gestão autoral que conta ou já contou em seus quadros com “cobras” como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Hermínio Bello de Carvalho, a ex-ministra Ana de Hollanda, e o saudoso Maurício Tapajós, nosso presidente de honra.

Por tudo isso, tenho motivo para comemorar (com inscrição ativa na OAB) estes 50 anos de bacharelato. Ab imo pectore.

RIO DE JANEIRO, CIDADE NEGRA! (Com um abraço deste filho, no seu 451 º aniversário)

O marco inicial do escravismo português no Brasil é o ano de 1532, quando teriam desembarcado os primeiros escravos, vindos para trabalhar num pioneiro engenho de açúcar fundado por Martim Afonso na Vila de São Vicente, núcleo do estado de São Paulo. Nessa época, a futura cidade do Rio de Janeiro ainda era um projeto, como parte de uma feitoria improdutiva, sujeita a ataques e tentativas de invasão. Em 1567, entretanto, dois anos após a fundação formal, São Sebastião do Rio de Janeiro recebia seus primeiros melhoramentos. A cidade era alargada e seu governo entregue a Salvador Correia de Sá, o Velho, que mais tarde se destacaria pela atuação no contrabando de escravos do Rio de Janeiro para a região do Prata.

RioCidadeNegra2016

Com o surto desenvolvimentista da cana-de-açúcar, o Brasil começa a importar maciçamente escravos de Cabo Verde, do golfo da Guiné, do Congo, de Cabinda, Angola e Benguela. O mais importante negreiro do Rio de Janeiro, João Gutierrez Valério, assina com Salvador de Sá uma espécie de contrato de exclusividade para abastecer os proprietários fluminenses.

Na década de 1580, a ilha das Cobras, na baía de Guanabara, passa a ser propriedade, segundo escritos coloniais, de um certo “João Gutierrez, oleiro”, provavelmente o mesmo traficante de escravos, que parece ter adquirido a ilha para utilizá-la como depósito de carga humana.

Ao raiar o século XVII, a cidade tinha cerca de 3.850 habitantes: cerca de 3 mil índios, setecentos brancos e apenas cem africanos. Em 1618, Duarte Vaz, irmão do governador Rui Vaz Pinto, ganha o privilégio de “aprontar” escravos para trabalhar no serviço de carga e descarga de navios no porto da cidade, fazendo nascer, assim, a estiva* do Rio de Janeiro, até hoje uma atividade predominantemente exercida por negros. A cidade e a província necessitavam cada vez mais de escravos, tanto que a municipalidade se queixava, em 1620, de que os navios que saíam do Rio de Janeiro com farinha de mandioca, então o principal produto agrícola da província, não retornavam com escravos, preferencialmente vendidos em Pernambuco. Tal preferência, porém, era explicável: naquele tempo, uma viagem de Angola, principal território fornecedor de escravos para o Brasil, até o Rio de Janeiro demorava em regra cinquenta dias, duas semanas a mais que uma viagem Angola-Pernambuco.

Séculos XVII e XVIII: Na primeira metade do século XVII, em decorrência do tráfico angolano, já havia vários quilombos no Rio de Janeiro, bem próximos ao núcleo da cidade, nas matas do Desterro, hoje Santa Teresa. Na periferia, essa presença pode ser avaliada pelos logradouros até hoje existentes com as denominações de “caminho do Quilombo”, “morro do Quilombo”, etc. Mas, na verdade, a presença de negros no Rio de Janeiro só se intensifica com a descoberta do ouro e o início da explosão desse metal na região das Minas Gerais, no final do século XVII.

A partir de 1695, a Irmandade da Misericórdia reivindica e passa a receber 1 cruzado pelo enterro de cada escravo que sepulta; em 1698 o governador interino Martim Corrêa Vasques detecta a necessidade de criar, e de fato cria, uma Companhia de Ordenanças de Pretos Forros, certamente para policiar os pretos escravos. Ao mesmo tempo a cidade, durante todo o século XVII, desce o Morro do Castelo e se espalha pela Rua Direita (atual Primeiro de Março) até a Prainha (Praça Mauá) em direção à Gamboa.

O século XVIII vai encontrar proprietários paulistas comprando numerosos lotes de cativos no Rio de Janeiro, a fim de empregá-los na mineração, e pagando preço elevado por eles. Com essa grande demanda, a economia municipal vê esboçar-se uma crise. Então, proíbe-se a venda de escravos das plantações de cana e mandioca, e criam-se dispositivos legais para a importação de negros, não só de Angola como também da costa da Guiné e de Moçambique, onde se estabelece Antônio Lopes da Costa & Cia., empresa carioca dedicada ao comércio escravista. Em 1710 a população da cidade era de 12 mil habitantes, número que, 89 anos depois, no recenseamento do vice-rei Conde da Cunha (em 1763 o Rio passara a sede do governo central), chegaria a 43.376 almas, sendo 55% de pretos e mestiços, escravos ou não. Esse recenseamento permitirá concluir que, dos 3 milhões de escravos que ingressaram no Brasil naqueles últimos cem anos, um terço entrou pelo porto do Rio de Janeiro.

Escravos nas ruas: Com uma população basicamente negra desde a segunda metade do século XVII, na qual cerca de um quinto era de escravos, o Rio de Janeiro mostrava uma fisionomia bem característica. As ruas mais centrais assistiam à passagem de africanos recém desembarcados, nus, sujos, chagados, doentes, fazendo ali mesmo as suas mais urgentes necessidades fisiológicas – e essa situação leva o Marquês do Lavradio (1769-78) a concentrar o comércio de escravos em um só lugar, o Valongo, para onde os negros se dirigiam sem ter de passar pelas ruas do Centro, já que o local tinha seu próprio cais. Via-se também o transporte, na cabeça dos escravos, dos “tigres” ou cabungos, recipientes respingando as fezes que iam ser despejadas no mar ou em covas públicas no velho Campo de Santana, depois parque da Aclamação. A cidade via e ouvia o alarido e a confusão dos negros nos chafarizes, onde ninguém podia passar sem ser alvo de um banho indesejado.

Pelos ângulos das ruas ou pelos adros das igrejas era triste o espetáculo dos mendigos, quase todos negros e velhos, representando o rebotalho, o bagaço da implacável e terrível moenda da ordem escravista. Nos dias de grande festa, no entanto, o Senado da Câmara, com o firme propósito de poupar a aristocracia dessa deprimente visão, varria das ruas o lixo humano, frequentemente a pauladas e chibatadas, assim como não poupava ninguém de presenciar as torturas que eram infligidas a escravos criminosos no pelourinho.

A cidade, porém, apesar das circunstâncias, nos dois primeiros séculos de sua história, viu os nervos em festa. Nos cortejos dos cucumbis*, que vez por outra saíam às ruas; nas coroações dos reis-congos* que se realizavam no adro da Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa; e principalmente nas bandas de barbeiros, entre outras manifestações de arte e de prazer, o negro se divertia. Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro, de 1799 a 1821, o percentual de escravos na cidade cresceu de 35% para 46%: a baía de Guanabara transformara-se, desde fins do século XVIII, no maior terminal negreiro das Américas.

Por volta de 1840, o Rio de Janeiro, contando, entre seus habitantes, com um terço de emigrados da África e a maior população urbana de escravos registrada desde Roma, tinha, segundo esse historiador, os ares de uma cidade africana. Após a Guerra do Paraguai*, contingentes de soldados desmobilizados, preferindo a capital ao retorno às províncias de origem, reforçavam esse aspecto.

Quilombos: No século XIX, as freguesias dos subúrbios cariocas abrigavam vastidões de terras incultas, com matas e serras que se apresentavam, assim, como locais propícios à formação de quilombos. Em 1826 eram capturados 76 escravos fugitivos na Freguesia de Inhaúma, 56 na de Irajá e 34 na da Ilha do Governador, o que aponta para a existência de redutos quilombolas nesses locais.

Imigrantes angolanos: A partir da década de 1980, por causa da ligação aérea direta com Luanda, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o principal destino de imigrantes e refugiados angolanos no Brasil. Concentrada sobretudo na Vila do João, no Complexo da Maré, próximo ao aeroporto internacional, e também no bairro de Fátima, no centro da cidade, em abril de 2002 essa comunidade era estimada em 5 mil pessoas, tendo como principal ponto de referência a Segunda Igreja Batista Evangélica da Vila do João.


Fonte: Nei Lopes, “Enciclopédia brasileira da Diáspora africana”, São Paulo, Selo Negro, 4ª. Ed., 2011